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OS ANOS 80 – UM RECORTE

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Os anos 1980 parecem nunca terminar, pelo menos para quem vive na primeira década do terceiro milênio. Desde o começo dos anos 2000 que sinais de revisitação da chamada década perdida (nome dado pela imprensa para a estagnação econômica dos países latino-americanos na época) são sentidos na música, nas artes e na moda. Mas é interessante notar o quanto é muito peculiar a visão que os jovens de hoje tem em suas releituras da década de 80. Eles enxergam liberdades em um período que foi completamente conservador em relação aos anos 70 e 60.
Em política, a eleição do republicano Ronald Reagan nos Estados Unidos e da dama de ferro Margaret Thatcher na Inglaterra selou uma nova era pra economia mundial: o neoliberalismo sem intervenção do Estado. O hoje chamado reaganismo sofreu sua mais dura apunhalada pelas costas pelo próprio capitalismo que o alimentou. A crise hoje, de 2009, tem sofrido uma dura intervenção do Estado na compra de bancos e empresas falidas, algo impensável e totalmente condenável nos anos 80.
Em artes, foi a década que assistiu a volta à pintura, às telas, depois de duas décadas de arte conceitual. Muitos críticos acreditam que foi uma armação das galerias pra poderem ter objetos para vender – já que as performances e intervenções eram bem pouco palatáveis como produto para muitos compradores de arte -, mas a força ainda hoje de quadros como os de Anselm Kiefer colocam em xeque esse argumento. Assistimos hoje, em São Paulo, depois de todo maneirismo do conceitual já super inserido e amansado dentro da chave do mercado das artes, novamente uma volta à pintura. Esse retorno está sendo realizada por jovens artistas que como a Casa 7, tem uma fixação por números em seu nome, o chamado coleitvo 2000 e Oito e também por artistas como Rodolpho Parigi e Marcos Brias.
Foi nos 80 também que o curador avançou terreno se transformando em artista ou pensador. O caso da curadora Sheila Leirner na Bienal de São Paulo em 1985 que juntou todas as obras do chamado neo-expressionismo em um grande corredor que ficou conhecido como a Grande Tela denota a importância nunca antes sentida e obtida por um curador. Ao utilizar o artista a favor de seu discurso e pensamento, o curador funda uma nova fase nas artes, no qual ele mesmo pode ser visto como artista.
Também é nos anos 80 que o grafite ganha status de arte e passa frequentar galerias, um contrasenso para alguns críticos para com a chamada arte de rua. Para eles, essa operação de levar o grafite para a galeria o enfraqueceu como manifestação espontânea.
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A Grande Tela, 1985, o curador como artista

Hoje temos a figura do curador como persona central nas artes sedimentada lá nos anos 80, mas o impasse do grafite e das manifestações da chamada arte de rua parece ainda não solucionado. Basta lembrar do lamentável caso da prisão de uma pichadora por intervir na última Bienal, a de 2008, conhecida como Bienal do Vazio. Ao invadir o espaço do curador, o chamado andar vazio do Pavilhão da Bienal, ela – a pixadora – afrontou o pensamento construído pelo então curador Ivo Mesquita e sua escudeira Ana Paula Cohen. Questões essas estavam todas sendo debatidas nos anos 80, só que naquela década de forma mais progressista e menos opressora.
Em música pop, temos um profusão de gêneros vindos da avalanche punk: new waves, new romantics, os inúmeros estilos hardcores até o grunge. Todas mais comerciais e menos radicais que o punk. Temos também a entrada do hip hop e com ele a música eletrônica começa a ganhar mais espaço, afinal até o rock começa a se utilizar de sintetizadores. Mais pro fim da década, a acid house, a hpsue e o techno saem dos guetos negros de Chicago e Detroit e ganham as rádios. O que se relê hoje da música dos anos 80 é principalmente o rock, talvez a faceta mais acessível musicalmente da década. Em contraposição aos 90 e a música eletrônica que de certa maneira sai da lógica tonal para algo mais modal e experimental, podemos hoje dizer que as novas bandas de rock que tanto sucesso fazem são responsáveis por um certo retrocesso musical dentro de certo contexto, pois além de muitas delas serem pastiches de bandas dos anos 60 e 80, por mais que gostemos de suas sonoridades, elas apontam para uma regressão da audição para o tonal mais palatável, o mesmo acontecendo com uma boa parte da música eletrônica que nos anos 2000 ficou mais comercial, repetitiva – não como as escalas modais pedem mas de ideias. A house bate-cabelo que o diga, ou grite.
Uma nota importante: A rainha do pop Madonna criou um estilo próprio no começo de sua carreira, nos anos 80, com luvas de rendas, faixas na cabeça e colares com crucifixos e símbolos religiosos. Hoje, ela simplesmente segue as tendências.
Por fim, a moda. Nos 80 temos a revolução japonesa causada pela chegada de Rei Kawakubo e Yohji Yamamoto em Paris, somando com outro nome, Issey Miyake, estava formado aquilo que seria conhecido como japonismo. O preto toma conta das passarelas, assim como novas formas e tecidos tecnológicos, experimentações de novas silhuetas. Looks que lembravam os mendigos recebe dos críticos de moda o nome de pauperismo. Do lado ocidental, o ultra sexy de Azzedine Alaïa, Claude Montana e Thierry Mugler também ganham notoriedade assim como o deboche de Jean-Paul Gaultier, que na época era chamado de “enfant terrible” da moda. No fim da década contra todo o conceitualismo do japonismo que reinou no imaginário da moda surge o barroco de Christian Lacroix.
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Vestido Comme des Garçons, 1987: pauperismo, preto, japonismo, revolução

A força das idéias inovadoras do japonismo não parecem ter tanta força hoje na releitura que temos dos anos 80, nem o barroco de Lacroix que está em processo de falência com sua marca. O foco hoje é mais voltado para o chamado power dressing, isto é, uma roupa que indica o novo poder econômico que mulheres ganharam nos 80. Então ombreiras, blazers estruturados e cintura alta são os itens em alta nessa incansável revisitação que os anos 2000 estão fazendo de uma década que foi muito plural, mas essencialmente conservadora. E pela leitura progressista que a geração do terceiro milênio faz dela, comprova que vivemos tempos mais conservadores ainda.
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Power Dressing: Força nas ombreiras

[Esse texto revisto e ampliado foi publicado de forma mais resumida no site da TAM]

BOCALOKA

Cada vez me interesso mais pela periferia dos desfiles e daquilo que é considerado Moda. Tenho achado a beleza e o styling mais inusitados, mais interessantes e mais supreendentes do que as próprias roupas e às vezes mais do que o próprio desfile. Não é o caso nem da Comme des Garçons nem do Alexander McQueen que fizeram inspiradas apresentações para o inverno 2009, mas essas bocas me deixaram louco!
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Comme des Garçons
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Alexander McQueen

VICKY CRISTINA BARCELONA OU TODAS AS MULHERES DO MUNDO

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Vicky
Um dos focos da moda feminina é sempre procurar entender a mulher e seus desejos e principalmente o que ela deseja e também deixá-la desejável, não no sentido sexual apenas, mas também para que seus desejos profissionais, amorosos e espirituais se realizem. Mas que mulher é essa que tanto se coloca no singular – como um arquétipo – que a moda tanto quer alcançar?
Mas o que isso tem a ver com o novo filme do Woody Allen, “Vicky Cristina Barcelona”?
O diretor consegue tripartir exatamente essa mulher – o seu arquétipo – em Vicky (Rebecca Hall), Cristina (Scarlett Johansson) e Maria Elena (Penélope Cruz). Essa cirurgia é bilhante pois estão aí todas as mulheres do mundo ou apenas , a mulher, assim como a socidade patriarcal a desenhou.
Vicky, a mulher que nega o desejo pelo bem estar social – a típica burguesa do século 19 – personagem dos romances realistas de Gustav Flaubert onde a traição a espreita o todo tempo, esse fruto proibido.
Cristina, a mulher que tenta se rebelar contra os dogmas – a típica burguesa pós anos 1960 – personagem dos filmes de Jean Luc Godard e Domingos de Oliveira onde a rebelião pode não lhe trazer a liberdade, mas com certeza a infelicidade.
Elas, Vicky e Cristina, são a mesma mulher, pois ambas procuram na relação amorosa, no homem, a sua felicidade. Colocam o amor e a paixão como ponto máximo de suas existências e para isso dependem do homem, do outro – no caso do filme de Woody Allen, o artista Juan Antonio (Javier Bardem). São Evas contemporâneas!
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Cristina
Aí temos Maria Elena, que não aparece no título do filme, mas tão essencial pra construção dessa imagem de mulher quanto as outras duas. Ela está oculta como Lilith, a mulher primordial e primeira mulher de Adão – “aquela que se recusava a ficar por baixo durante as relações sexuais”. Como Lilith, ela trata em pé de igualdade todas as questões (sexuais, artísticas, amorosas) com Juan Antonio. Ela parte, ela o deixa, mas antes de tudo não podemos nos esquecer que estamos no reino do patriarcado, não à toa, o filme é todo contado por um narrador homem, é ele que faz a versão da história. Exatamente por isso ela volta, se envolve com essas Evas modernas e seu Adão e como serpente – Lilith, em muitos textos religiosos é lida também como a serpente do paraíso – envenena para uns ou contextualiza para outros a verdadeira relação que todos ali estavam vivendo.
Talvez isso explique porque estilistas mulheres como Miuccia Prada, Consuelo Castiglioni e Rei Kawakubo criem peças tão desinteressantes para o olhar masculino mas que fascinam muitas mulheres. Essas Liliths da moda nos enviam mensagens sobre o desejo e o que fazer com ele a cada coleção assim como a mensagem obscura que Maria Elena nos deixa nesse belo filme de Woody Allen.
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Lilith

Dois excelentes textos sobre o filme são de Nucool e Tati Rodrigues, vale muto lê-los mesmo!
Ah! ainda tem o Ricko com uma outra visão do filme e a Casa de Narcisa que fez uma versão hillary do título.

QUAL A RELEVÂNCIA DE REI KAWAKUBO HOJE PARA A MODA?

Quando a jornalista Cathy Horyn fez essa pergunta bastante polêmica para os fashionistas, ela provocava dois movimentos.

O primeiro de realmente entender como a moda mitifica  e cristaliza certos nomes em uma dada época apenas por uma questão de merchandising (Stella McCartney, Tom Ford, Hedi Slimane sobreviverão à fúria do tempo?).

E o segundo, questionar a voracidade da moda pelo chamado “novo”. Ao se preocupar sempre com as novidades, a moda não olha pro seu passado, apenas como reatulização simplificada e redutora de looks do presente, mas não como a História nos ensina, isto é, que no passado está contido todo o presente. Basta lembrar como o afastamento do grande Yves Saint Laurent foi tratado pelo mundo da moda.

Sobre a questão de Horyn, minha resposta vem em imagens em movimento. O canal japonês NKH fez um documentário alguns anos atrás sobre a criadora da Comme de Garçons. Baseado no livro “Unlimited: Comme des Garçons”,  é uma raríssima oportunidade de ver Kawakubo em ação e perceber sua relevância não apenas para a moda, mas para a humanidade.

PARIS BERTHOLINOU!

A cidade luz sempre foi chegada em um pretinho básico e isso não mudou nessa temporada. Os tons terrosos, o preto e o branco continuam, mas faz muito tempo que não se via um verão tão colorido.

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Balenciaga verão 2008

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Comme des Garçons verão 2008

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Junya Watanabe verão 2008

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Undercover verão 2008

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Vivienne Westwood verão 2008

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Yohji Yamamoto verão 2008

CÓPIA COMO AUXÍLIO DE IDENTIDADE, MAS QUAL IDENTIDADE?

Sobre a cópia no Brasil, como escrevi no Blogview, penso que é muito mais um problema de mentalidade do que de criatividade.

É muito comum entre os estudantes de artes plásticas, copiar certos quadros famosos para tentar descobrir como eles superaram certos problemas plásticos na prática. Você vai aos museus e lá estão eles copiando, copiando…

Claro que eles não têm o problema ético de apresentarem o que copiaram como um trabalho autoral: Todos sabem que aquilo que eles fizeram tem apenas o valor de exercício para descobrirem como podem chegar a ter uma expressão pessoal ou não.A moda norte-americana também copiou” ad infinitum” a moda vinda de Paris até descobrir sua possível identidade. Pode ser que nesse exercício de copiar que os brasileiros estão atrelados a descobrir sua verdadeira personalidade fashion.  Mas na moda, a questão nacional é paradoxal. Diferentemente do que nas outras áreas, é complicado entender o conceito de nacional. A moda, em si, se propõe internacionalista. Vejam só a tão falada moda francesa: Balenciaga era espanhol. Yamamoto e Kawakubo são japoneses, Alaïa é tunisiano e Worth e Galliano vieram da Inglaterra só para citar alguns nomes. E é impossível falar da moda em Paris sem falar desses nomes.
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Dona Kawakubo faz moda francesa ou japonesa?