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COLUNA DA REVISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO – 29/11/2009

Primeiro veio um e-mail de um amigo, depois de outro, até a escritora Clarah Averbuck que, a princípio tem muito pouco a ver com tudo isso, escreveu em sua página no Facebook: “Bom, eu não costumo passar essas coisas, mas essa é importante”. Ela se refere, como da maior importância, a mobilização, de forma viral, de boa parte progressista da sociedade contra um futuro resultado, que mesmo simbólico, pode abrir precedentes ruins para o futuro dos homossexuais no país.
Durante todo o mês de novembro, o site do Senado (www.senado.gov.br/agenda/) colocou na sua home uma enquete sobre o PLC 122/2006 que torna crime o preconceito contra os homossexuais. Até o dia 26, o resultado estava sugerindo empate com 51% a favor do projeto de lei contra 49% que adoram chamar a proposta de “ditadura dos gays” invertendo os conceitos e camuflando a intolerância por um manto religioso. Mais de 290 mil votos foram computados até então e a votação se encerra no dia 30 desse mês.
Vale lembrar que mesmo com toda essa mobilização, a vantagem esteve quase sempre do lado dos que acham um absurdo não poderem “ensinar para seus filhos que a homossexualidade é pecado, por medo de irem para a prisão”. Mais uma inversão perversa em um país que tem um alto índice de gays assassinados por sua opção sexual.
Questiono inquieto sobre as milhões de bees e simpatizantes que fervem nas passeatas gays do Rio e São Paulo, onde foram parar nesse momento? E porque certas igrejas falam tanto de amor, mas na prática defendem o ódio e a intolerância?
Sim, é uma pequena batalha, não só dos gays, mas de todos que querem ver nossa sociedade avançar de forma verdadeira.


Crivella: contra a tal “ditadura gay” e levando a intolerância para o campo da religião

COLUNA DA REVISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO – 15/11/2009


Todos já sabem da saia justa que aconteceu na Uniban quando a estudante de Turismo, Geisy Vila Nova Arruda, 20, no dia 22 de outubro, foi agredida verbalmente, acuada, xingada e ameaçada de estupro porque estava usando um mini-vestido. A primeira reação da universidade não poderia ser mais cinto de castidade, expulsou a aluna por “flagrante desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade”. A mini-treva só não aumentou porque parte da sociedade progressista do país fez uma enorme pressão e a universidade teve que revogar a decisão.
Mas o que foi mais impressionante nessa discussão toda foi a reação de muitas mulheres que condenaram veemente o uso da mini-saia de Geisy, esquecendo que foi essa peça exatamente o símbolo da liberação feminina que começou nos anos 60. E se hoje elas podem frequentar uma universidade ao invés de ficar o dia inteiro no fogão, algo se deve à esse pequeno pedaço de tecido. Como bem disse uma amiga esclarecida, Malu Lopes, ao dizer que foi a aluna que causou a situação, temos o mesmo raciocínio machista que diz que mulher só é estuprada porque provoca o estuprador. Isso diz muito sobre as minorias: as mulheres continuam seus maiores algozes, assim como os gays. Veja quando um viado apanha na rua de uma gangue, as bichinhas são as primeiras a proclamar: “Com certeza devia estar mexendo com os bofes”, como se isso fosse algo profundamente condenável, se tivesse acontecido. É um triste sinal que as minorias pensando assim permanecerão servas voluntárias por muito tempo. Contra isso, viva a mini-saia de Geysi!

COLUNA DA REVISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO – 01/11/2009

O assunto que entre os gays, militantes ou não, está deixando todos de peito inflado de cólera essa semana é o depoimento do governador do Paraná, Roberto Requião (PMDB). No programa “Escola de Governo”, transmitido pela TV Educativa, ele tentou brincar dizendo: “A ação do governo não é só em defesa do interesse público, é [em prol] da saúde da mulher também. Embora hoje câncer de mama seja uma doença masculina também, né? Deve ser consequência dessas passeatas gay”.
A grande parada desse comentário é reanimar a imagem dos gays como portadores e transmissores de doenças terríveis. Muita gente ainda hoje estufa o peito e diz que a culpa da Aids é dos viados. Durante anos a doença ficou conhecida como peste gay. Só o fato de ser homossexual e declarar isso em um posto de saúde te impede de doar sangue. Entendo o lado sanitarista da proibição, mas exatamente como não existe um homem igual ao outro, os gays também não nasceram em uma única forma, muitos tem relações estáveis e monogâmicas. Mesmo que na nota técnica de 2008 o Ministério da Saúde diga que “O objetivo não é a exclusão do grupo de gays […] nem tampouco apoiar atitudes de constrangimentos e de discriminação desta natureza nos serviços de hemoterapia”, acabamos sendo apunhalados no peito com o estigma de aedes aegypti dos males do mundo.
Será que o câncer de mama nos homens vem mesmo das paradas gays? Ou será que é dos políticos que não param nunca de mamar nas tetas do Estado?
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As mamas de Requião!

COLUNA DA REVISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO – 18/10/2009

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Mais do que a arte, a ginga, a paixão fervorosa pelo time, o futebol é o campo de batalha que os homens fazem seus pactos de masculinidade. Mas isso quase nunca significa a paz. Em São Paulo, a guerra é aberta e declarada para qualquer um que ousar colocar brinco ou ter o cabelo pintado nas arquibancadas. A partir dessas “faltas”, a macheza do torcedor já é questionada por inúmeras torcidas organizadas que proibem com cartão vermelho qualquer sinal de viadice (?). Muitas, igual às festas gays S&M, tem “dress code” específico e impedem a entrada do sujeito na sede das organizadas caso não esteja vestido de maneira apropriada. A coisa não é brincadeira para esses árbitros da paranoia gay: “ou deixa o brinco em casa ou aqui você não entra”.
É o que retratou a matéria do jornal Placar do dia 02 de outubro, mostrando que muitos torcedores e jogadores tem que driblar a intolerância das organizadas que os hostilizam quando desconfiam de sua orientação sexual. E a desconfiança não passa nem perto do “como aquele Serginho é bem seu amigo, vive no seu quarto”. Ela se costura por acessórios, como se na hora que o torcedor colocasse um piercing, ele começasse a ver a bola de futebol de uma maneira diferente. Já no momento que ele retira a jóia, ele volta a ser o macho alfa que leva seu time ao tento. O mais interessante é que no campo mítico pop, os acusados estão muito mais no terreno do Super Homem – e não do Capitão Gay -, pois basta tirarem os óculos para se tornarem outra persona.
Esse gol contra o estilo em nome de uma suposta masculinidade vem de quase todas as torcidas paulistas e demonstra que apesar de a todo custo quererem ser homens, eles ainda vivem no estágio da pré-adolescência e com medo da Mulher Maravilha.
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Paulistinhas: Belos tempos que o Flamengo tinha a Flagay

COLUNA DA REVISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO 03/10/2009

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Rock Hudson, ator americano (1925 -1985)

No final de setembro, o ator anglo-americano John Barrowman, conhecido como o capitão Jack Harkness nas séries “Torchwood” e “Doctor Who”, chamou atenção, ao lançar “I Am What I Am” (“Sou o Que Sou”). No livro autobiográfico, ele conta que um produtor gay do alto escalão de uma emissora de televisão pediu para que ele não assumisse sua homossexualidade publicamente e que fingisse ser hétero para não atrapalhar sua carreira.
Casos como esse não são nenhuma novidade na indústria do entretenimento. Se lembrarmos dos tempos áureos de Hollywood, muitos atores tinham casamentos arranjados para não queimarem literalmente seu filme – e a rosca – na frente de suas fãs. No Brasil vivemos situação semelhante com galãs interpretando desejos que nunca tiveram.
Mas antes de os colocar em uma fogueira (das vaidades?) ou fazer como certos militantes que autoritariamente tentam tirá-los à força do armário, precisamos pensar que muitos acreditam que a arte de atuar é a ação de fingir. “Não podendo fazer o que queriam, fingiram querer o que podiam” escreveu Montaigne no final de seu ensaio “Da Liberdade de Consciência”.
Porém, a confusão entre realidade e fantasia que parte do público da televisão e do cinema faz, diz muito a respeito sobre a situação de tantos atores “não-gays”: Eles não teriam credibilidade de fazer um garanhão sendo assumidamente viados. Mas porque um ator hétero teria quando interpreta um gay? O que essa situação dramatica explicita é que fingindo ser hétero, um gay pode interpretar um machão. E todos dissimulamos não sermos hipócritas até o próximo comercial!

COLUNA DA REVISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO 20/09/2009

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Claudia Leitte causou ainda grávida ao declarar na televisão, no ano passado, que adorava os gays mas que preferia que seu “filho fosse macho”. Tirando a desafinação conceitual de que um gay não pode ser macho, no sentido de possuir masculinidade, o que a cantora verdadeiramente expôs foi uma ideia que percorre toda a sociedade.
Sim, ela foi condenada por muitos homossexuais que agem dentro dos dogmas do politicamente correto e nos obrigam a viver em eterno cinismo, escamoteando nossos verdadeiros pensamentos. Mas vendo a baiana em uma outra longa entrevista percebi que suas declarações trabalham sempre com chavões – ela pensa e fala para agradar a maioria da população, nada é polêmico em sua figura. Então essa polêmica apesar de passada, nos revela muito sobre o presente dos gays no Brasil.
Ao se utilizar do senso comum para dizer que preferia que sua cria não fosse viado, a cantora sem saber mostra o pavor de ter um filho em um país que, segundo o Relatório Anual do Grupo Gay da Bahia (GGB), 190 homossexuais foram assassinados no Brasil em 2008, um a cada dois dias, sendo considerado por alguns especialistas como o país mais homofóbico do mundo. Ou o horror de ver seu filho perseguido e torturado  por traficantes e milícias dos morros cariocas pelo simples fato de ser gay ou lésbica, como noticiou o jornal O Dia (05/09/09).
Ou ainda a reza de algumas igrejas que pregam o ódio aos homossexuais que a única coisa que os interessam agora é barrar a lei nacional contra a homofobia e se esquecem foram fundadas pela lei do amor ao próximo.
Claudia Leitte, no Brasil é preciso ser muito macho pra ter um filho gay.

COLUNA DA REVISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO 06/09/2009

Portrait Of King Louis XIV & His Brother Duc D'Orleans
Luis 14 e seu irmão Philippe d’Orléans

Alcino Leite em seu blog Útima Moda escreveu um post interessantíssimo no dia 29/08 chamado “O Abade Travesti” sobre o nobre francês François-Timoléon de Choisy (1644-1724). Ele foi criado como uma menina assim como seu conterrâneo o princípe Philippe d’Orléans, irmão mais novo do rei Luis 14. O futuro abade seria uma companhia ao jovem sucessor nesse jogo político armado por sua mãe, a rainha Ana da Áustria, e o cardeal Mazarin que pretendiam através da idéia feminilidade tirar qualquer traço de agressividade e luta pelo poder atribuída aos homens e impedir o filho caçula de lutar pelo trono do França. E deu certo!
Apesar dessa manobra que muita gente hoje enxerga como uma certa visão misógina por parte da própria rainha, temos que entender a época em que tudo isso ocorre, muitos séculos antes do feminismo queimar esteriótipos em praça pública.
Mas o mais curioso é que mesmo educados dentro das regras femininas de bom comportamento da época e com luxuosos vestidos, maquiagens e jóias, cada um dos jovens nobres seguiu sua orientação sexual.
Philippe d’Orléans quando mais adulto se rebelou à essa educação, tornou-se militar, venceu batalhas, mas era conhecido na corte por manter relações com outros homens e apenas vestia-se de mulher nos círculos mais íntimos.
Já o abade de Choisy declarou seu amor pelas roupas femininas durante toda a sua vida e também pelas mulheres: muitas viraram suas amantes. Está tudo no “Memórias do Abade de Choisy Vestido de Mulher” de sua autoria.
Enfim, um nobre exemplo pra quem ainda acredita em estereótipos como “homem que é homem não chora”, o Abade de Choisy chorava sempre que via um belo vestido rendado e com brocados.