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CRISE?

De repente parece que sou um ser alienado, que não acredito em crise. Numa inversão nefasta do jogo, a alienação da cópia de idéias de textos de Menkes e senhorinhas importadas virou a minha alienação, nesse momento que a moda parece acordar.
Sim, novamente a crise existe, mas o que existe de mais revelador é a nossa dependência textual, o nosso colonialismo. Se queremos resenhar moda e nas resenhas acusamos a torto e à direita a cópia dos estilistas nacionais que direito temos nós de copiarmos os resenhistas internacionais. Usar a crise pra explicar o mundo hoje é banal e diz muito pouco. Mudanças de comportamento já estavam sendo sentidas antes mesmo da anunciada crise.
Não que a palavra crise seja banida dos textos, longe disso, mas tentar refletir com mais parcimônia e menos histrionismo esse momento que vivemos hoje.
Foi só isso que quis escrever naquele post, pois no fim o que eu quero é mais poesia pessoal, mais buscas que façamos dentro nós mesmos, não nos sites de buscas procurando o tempo todo ver o que o “povo lá de fora” está pensando. Não que isso tenha que ser banido também, pelo contrário, que esteja a serviço do nosso pensamento. Chega de reproduzirmos como papagaios algo que veio com o aval de “internacional”.
Assim como utilizo esse trecho de “Aula” de Roland Barthes:
Que uma língua, qualquer que seja, não reprima outra: que o sujeito futuro conheça, sem remorso, sem recalque, o gozo de ter a sua disposição duas instâncias de linguagem, que ele fale isto ou aquilo segundo suas perversões, não segundo a Lei

PS: Tem um texto excelente de Marcia Mesquita que levanta pontos interessantes e desdobramentos do que escrevi aqui.

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AINDA SOBRE AS CÓPIAS NO PÉRGAMO


não é Veneza!

O problema da cópia é algo crucial não só na moda, mas em diversas manifestações no Brasil. É histórico o nosso sentimento de inferioridade, mas também em questões individuais, elas podem revelar aquilo que hoje chamam de “angústia da influência”. Já refleti sobre essa angústia e também sobre a questão da réplica e da cópia – que entra no terreno da pirataria, ou complexos e complexidades
Ao visitar o Pérgamo e sua fantástica coleção de arte grega em Berlim, tem uma parte muito interessante, uma ala só de cópias romanas da arte grega. Eles copiaram tudo que podiam pra poder ter algo original ou que fosse reconhecida como arte romana, mesmo que filiada aos gregos. Foi assim também com a moda americana, ela cansou de copiar a européia até achar algo que a identificasse: no caso o casualwear e o sportwear. Talvez o copiar a exaustão possa também ser um dos caminhos para uma criação autônoma.


qual é original e qual é cópia?

REFLEXOS DO PENSE MODA: EDITORAS E EDITORIAIS

Com o post bafo-debate da Oficina de Estilo sobre a Vogue Brasil e suas referências muito coladas nas outras vogues, Sylvain ressaltou um ponto realmente muito profundo e cultural: a Vogue brasileira tem que achar sua própria identidade. Isso não a desmerece nem um pouco, tanto que acredito que todos concordam sobre a super importância dessa publicação no país, um país analfabeto em termos visuais e principalmente dentro dos códigos de moda.

Essa procura da identidade vem um pouco atrasada na moda, pois muitas manifestações no país como cinema e literatura, por exemplo, estão nesse debate faz tempo, e sem ele não existiria Cinema Novo nem a literatura de Guimarães Rosa ou mesmo de Clarice Lispector pra não achar que eu entendo identidade como algo folclórico e regionalista.

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Voltando ao assunto, quando vi o editorial da Raquel Zimmermann em Paris e depois o da bela promessa e aposta da Vogue, Isadora di Domenico, no ensaio de Frasson, achei que tava vendo a mesma coisa apesar de assuntos aparentemente diferentes. Não adianta o discurso (graças a Deus, moda não é artes plásticas conceitual), está impresso, não tem como negar.

Se esse é um ponto negativo e respalda na questão do colonialismo mesmo que involuntário, por outro lado a Vogue brasileira lançar modelo que não são as apostas de fora e isso é um ponto bem positivo e deveria ser o caminho da revista pra tirar o complexo de inferioridade em relação às Vogues irmãs, já que eu nunca vi um editorial na Vogue brasileira em outra Vogue (pode até ter tido, mas é irrisório em comparação com o que sai na daqui).

E acho que essa reflexão só pode ser feita sem parecer ataque pessoal a Maria Prata, Giovanni Frasson (duas pessoas que respeito e muito) e todos da revista porque aconteceu o Pense Moda, um espaço para o começo de uma reflexão crítica em relação á moda.

Lá, atacou-se muito as editoras de moda e a questão da cópia. Fotógrafos, stylists e estilistas não cansaram de em algum momento alfinetar a crítica de moda. Só que é muito importante lembrar que em nenhum momento da história ocidental aconteceu de ter um grande crítico em um período que as obras eram menores e vice-versa. Mario Pedrosa não existiria sem Palatinik , os concretos e os neo-concretos e Paulo Emílio não sobreviveria sem Glauber e vice-versa. O crítico, seja ele de moda ou de qualquer outra manifestação, é um reflexo de seu tempo. Se não existem bons críticos de moda no país é porque ainda não existe uma boa moda brasileira. Pare e pense… Moda!

PS: E para a crítica de moda realmente funcionar ela tem que sair do âmbito pessoal, por mais prostituida que as relações de moda estão hoje entre marcas, imprensa e profissionais da área, se tudo for sempre levado como ataque pessoal, não se cria reflexão e nem resposta dos próprios criticados.