Arquivo da categoria: clô orozco

A FOTOGRAFIA DE PASSARELA E A TRIDIMENSIONALIDADE DA MODA

Desculpem, mas moda é 3-D! Tenho certeza disso. Apesar da fotografia de passarela, os editoriais e ilustrações das revistas com imagens dos catwalks serem quase sempre bidimensionais ou trazerem esse caráter.
Claro, dirão, o suporte de uma revista ou de um jornal pede a bidimensionalidade e mesmo a profundidade de campo sendo uma técnica mais que comum no meio para tirar o caráter achatado das fotos, ele tem pouca utilidade no caso da moda, pois pouco resolve na compreensão do foco principal que é a roupa.
Em uma conversa com Thais Mol antes dela embarcar pra Inglaterra, a gente comentava as poucas fotos que eram tiradas das costas das roupas. Aliás quase nunca se tem na sequência de fotos editadas de um desfile, as costas das roupas, o seu outro lado. Como o lado escuro da Lua, quase nunca, se não estiver no desfile, conseguimos captar a totalidade da roupa, pois ela não é feita só de frente.
Thais sempre se preocupou com as costas da roupa pois ali estaria a graça, a brincadeira (um exemplo afetado disso no bom sentido é o triquini de Malana no desfile de verão 2010 da Neon) e sim, a completude da roupa. Ela brilhantemente me disse: “Quando vemos alguém que achamos interessante na rua que passa por nós, o que fazemos? Viramos o rosto e vemos as costas dela e assim também é com uma roupa”. Queremos conhecer a totalidade da pessoa assim como da roupa.
716973
frente
716971
verso
Lembrei de um desfile importante de Clô Orozco pra Huis Clos que a modelo parava propositalmente de frente e de costas para que essa parte fosse clicada e mesmo assim não temos, em vários álbuns de fotos desse desfile de verão 2006, todos os looks das costas que eram magistralmente mais superiores do que a parte da frente.
1399564
Pior aconteceu com Wilson Ranieri em sua coleção de verão 2010 que fez belas costas e não temos quase fotos publicadas delas. A desse modelo, podemos perceber pelas tecido que sobra na foto tem costas maravilhosas (e tem, eu vi!), mas não temos registro disso por enquanto nas fotos dos desfiles.
É como se faltasse parte de uma história. Será que aquela roupa tem um final feliz? Repensar essa questão e tentar solucioná-la é um desafio para os fotógrafos e editores de moda.
Ao conversar sobre essa assunto com Thais, falei de um fotógrafo fundamental: Man Ray e de seu trabalho excepcional na Vogue e Harper’s Bazaar durante os anos de 1930 e 40. Tudo bem que ele fotografou editorais e não passarela, mas mesmo assim acho sua pesquisa válida para aquilo que comento. Conectado com a questão da experimentação, da velocidade, do movimento e principalmente da simultaneadade, ele em diversos momentos captava o mesmo modelo em diversos ângulos, na tentativa de devolver uma tridimensionaldiade que só a moda pertence. Enfim, ele não deu as costas para o problema!
17902179021790217902

POR QUE TANTA SEMANA DE MODA NO MUNDO?

dsc02057
Depois de conhecer a semana de moda de prêt-à-porter em Paris, voltei muito inquieto por constatar que a Moda – o sistema, a lógica e a realidade – pouco se encaixavam naquilo tudo que via. Temos uma sensação mentirosa – fruto da época que os desfiles de couture difundiam realmente o que deveria ser usado por todo mundo – que o que vemos em uma semana de moda realmente dialoga direto com a realidade de moda e que a influencia. Diálogo existe, mas em outra escala.
Hoje uma semana de moda tem mais um sentido publicitário de divulgar outros assuntos além-moda. E ela entrou no calendário cultural de diversas cidades – como existe semana de moda no mundo! – muito mais pelo caráter marqueteiro do que pela valorização da moda. Mesmo a moda ganhando um certo status cultural no mundo de hoje, ainda é vista como assunto de segundo ou terceiro escalão.
Claro que como disse o crítico literário Alcir Pécora para Alcino Leite: “A moda hoje é o que foi a música nos anos 60”. E pode parecer exagerado mas, no sentido publicitário, faz todo o sentido. O alcance que a moda tem de projeção de algo que está fora dela hoje foi o mesmo que a música pop teve nos anos 60. Então usa-se a moda para difundir objetos que estão em sua órbita como comportamento, design, luxo.
Enfim, o que quero dizer é que numa semana de moda existe muito pouca moda. Pareço cada dia entender melhor o que Mario Mendes um dia me disse que a moda realmente fazia todo o sentido nos desfiles de alta-costura.
Quando algo como a calça skinny ou o lenço palestino realmente ganham as ruas através da passarela – sim, o caso do lenço palestino é polêmico – parece que os estilistas marcaram um gol quase no fim do segundo tempo, mas no fundo foi a indústria que levemente se impôs. Talvez não seja à toa que uma estilista do porte de Clô Orozco diz hoje preferir ir no Premiere Vision – uma das mais importantes feiras de tecido do mundo – a assistir os desfiles da temporada.

PS: Exatamente por algumas dessas razões, a outra é de tentar historicizar minimamente uma marca que ainda durante esse mês e o outro escreverei no blog resenhas de coleções que desfilaram na SPFW. Quero me debruçar com mais prudência, sem o imediatismo do jornalismo e os holofotes de um espetáculo que a moda finge ser a atriz principal como fiz com um texto que muito prazer me deu, pois foi no solo do tempo e do passar do tempo que finalmente entendi a coleção de verão 2009 de Herchcovitch às portas de iniciar o seu inverno.

HUIS CLOS = ELEGÂNCIA

Como eu disse, 2009 vai ser piriguete, e podemos perceber uma certa “versacenização” de muitas grifes, mas como enveredar um caminho sólido da marca Huis Clos – um dos primores da moda brasileira -conhecida pelo seu alto grau de intelectualidade nas construções das roupas para algo mais sexy, sem perder a elegância jamais?
A resposta está nessa imagem:
1361075
E nesse caso uma imagem vale mais que mil palavras. Salve Clô Orozco e Sara Kawasaki!