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A FITA BRANCA: O MAL EM SUA ESSÊNCIA

Pertubador! Não pela quantidade de sangue (não há), não pelo escárneo (não há), não pelas imagens chocantes (não há). Mas, no entanto, o filme ronda a sua cabeça, seus ossos e seus músculos depois dele ter terminado há muitas horas, dias… Como filmar a maldade? Não essa maldade novelesca de reality show, não a maldade maniqueísta que luta contra o bem, não a maldade que vemos no outro, mas a maldade que está dentro de todos nós. Exatamente isso é “A Fita Branca”, de Michael Haneke, o exemplo mais profundo de como filmar a maldade em sua essência.

Para tanto, o diretor austríaco se usa de um arquétipico fundamental pra desmontá-lo e trucidá-lo em fotogramas: A pureza das crianças. A imagem angelical que ainda persiste no imaginário ocidental sobre as crianças – mesmo com quase um século de Freud e suas teorias – é desmontado paulatinamente. São representações como essa da pureza das crianças ou do macho adulto sempre no comando – mesmo com toda a luta das minorias – que se afirmam nos momentos que a Razão cochila.

No filme, de maneira sutil, são as crianças que arquitetam e perseguem os diferentes – mas desde já isso não é explícito, o que é mais perturbador ainda. Você sabe o tempo todo sem ter provas, sem poder culpá-las. O álibi da pureza delas nos cega como quando olhamos pra neve. O que é diferente e fora das regras normativas daquela pequena comunidade é simplesmente dizimado: Seja a família desfuncional do médico do vilarejo (a questão moral), juntamente com a parteira e seu filho com problemas mentais (a questão física/étnica), além da família pobre de camponeses e o aristocrata do vilarejo (a questão econômica). Muitos críticos enxergam aí, nesse tripé, a alegoria da consolidação do nazismo que surgirá duas décadas depois. Acho válida a visão apesar de pouco profunda.

Isso está para além de um tempo histórico. É o pacto com a maldade de todos nós que reside a essência incoveniente do filme. Quando nos silenciamos diante do mal, quando nos enganamos e desvirtuamos os acontecimentos para não encararmos de frente a maldade, quando o nosso mal é a passividade ou pior, a desautorização de acontecimentos graves para que possamos ter a consciência tranquila ou ainda quando acreditamos, por facilidade, que esse é o bem. Nesse momento somos todos males.

[TEXTO ESCRITO AINDA SOB A VIGÍLIA DA RAZÃO]

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JOGO DE CENA – ROUPAS, COMPORTAMENTO E ÉTICA

O maior crítico de cinema do Brasil hoje, Jean Claude Bernardet, diz sobre “Jogo de Cena”, filme de Eduardo Coutinho, que ele seria o “Ulysses” – romance fundador/demolidor de James Joyce – dos documentários em geral, principalmente dos que se sustentam na fala.

O filme, de uma aparente simplicidade, parte da ação de um anúncio do jornal que pede para que mulheres compareçam ao Teatro Glauce Rocha para contarem suas histórias. Um mês depois foram chamadas atrizes, dentre elas, 3 muito conhecidas (Andréa Beltrão, Fernanda Torres e Marília Pêra), para representarem essas histórias e também para contarem as suas histórias em um certo sentido.

Com uma montagem inteligentíssima, esses 3 níveis são embaralhados e a questão ética da verdade e “mentira” – no caso representação e mímese – é posta em xeque a cada fotograma. Ao final percebemos que o que importa são as histórias dessas mulheres e não a verdade. E nesse sentido “Jogo de Cena” torna-se um grande filme ético.

Na questão da mímese e representação, Coutinho faz um jogo de cena brilhante entre Sarita Houli Brumer e Marília Pêra. Marília está incubida de representá-la.

Ela – como a maior atriz brasileira que é – recusa a cópia, a mímese do comportamento de Sarita com seu jeito espalhafatoso, quase over, cheio de personalidade. Marília opta por uma interpretação mais contida – isso pode ser percebido no trailer com as duas falando sobre o filme “Procurando Nemo”. Ela percebe que existe ironia em Sarita ao falar para Coutinho que ele não gosta dos americanos e no final solta uma risada histriônica. A atriz magistralmente entende a risada como ironia e ao invés de repetir o gesto, ela prefere perguntar: é comunista?

Enfim, ela relê os gestuais de Sarita à sua maneira. Os gestos são movimentos de superfície. São as primeiras leituras que fazemos de uma pessoa, assim como as roupas que estão vestindo. Novamente a inteligência dramátrica de Marília sabe que também não pode se afastar muito de sua representação para não se tornar algo que saia do terreno do verossímel, invadindo o domínio do fake. É importante nunca esquecer que existe uma pessoa com uma história que precisa ser contada. Para não trair a história que pertence aquela pessoa, é preciso antes de tudo não trair a pessoa.

Por isso – também possível de enxergar no trailer – ela usa exatamente a mesma roupa que Sarita- uma camisa preta. Não só a mesma camisa como o mesmo brinco grande de argolas prateado e a quase mesma maquiagem quase ausente.

Se opta pra reconstruir outro gestual para Sarita, dentro do terreno da superfície e daquilo que reconhecemos primeiro visualmente em uma pessoa, ela prefere manter-se igualmente vestida como Surita. É um ato profundamente ético.

PS: Algo me ocorreu depois que encerrei esse post. Ao imitar Sarita no seu jeito de vestir e não de se comportar, ela entra também no Sistema Moda. Aquele que o original é copiado – sempre por admiração. Temos também aí novamente a questão ética – Marília se rende ao seu personagem Sarita, se curva a ele, colocando-se numa posição de total respeito por quem ela está retratando através das roupas.

COLUNA DA REVISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO 03/10/2009

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Rock Hudson, ator americano (1925 -1985)

No final de setembro, o ator anglo-americano John Barrowman, conhecido como o capitão Jack Harkness nas séries “Torchwood” e “Doctor Who”, chamou atenção, ao lançar “I Am What I Am” (“Sou o Que Sou”). No livro autobiográfico, ele conta que um produtor gay do alto escalão de uma emissora de televisão pediu para que ele não assumisse sua homossexualidade publicamente e que fingisse ser hétero para não atrapalhar sua carreira.
Casos como esse não são nenhuma novidade na indústria do entretenimento. Se lembrarmos dos tempos áureos de Hollywood, muitos atores tinham casamentos arranjados para não queimarem literalmente seu filme – e a rosca – na frente de suas fãs. No Brasil vivemos situação semelhante com galãs interpretando desejos que nunca tiveram.
Mas antes de os colocar em uma fogueira (das vaidades?) ou fazer como certos militantes que autoritariamente tentam tirá-los à força do armário, precisamos pensar que muitos acreditam que a arte de atuar é a ação de fingir. “Não podendo fazer o que queriam, fingiram querer o que podiam” escreveu Montaigne no final de seu ensaio “Da Liberdade de Consciência”.
Porém, a confusão entre realidade e fantasia que parte do público da televisão e do cinema faz, diz muito a respeito sobre a situação de tantos atores “não-gays”: Eles não teriam credibilidade de fazer um garanhão sendo assumidamente viados. Mas porque um ator hétero teria quando interpreta um gay? O que essa situação dramatica explicita é que fingindo ser hétero, um gay pode interpretar um machão. E todos dissimulamos não sermos hipócritas até o próximo comercial!

ONDA CHANEL – OU SERÁ TSUNAMI?

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Uma avalanche de Coco… Chanel está invadindo as telas nesse ano. Tem a misteriosa relação entre Chanel e o também genial Stravinsky, em “Coco & Igor” de Jan Kounen. E também “Coco antes de Chanel”, filme de Anne Fontaine protagonizado pela atriz Audrey Tatou. Pensar que o cinema em pouquíssimo tempo se debruçou duas vezes – coisa incomum – sobre a persona de Chanel é pensar a dimensão de imagem dessa mulher.
Mas eu prefiro a autêntica, a que criou uma ficção pra si, nervosa, de opinões fortes, sempre fumando e ereta.
A imagem abaixo, em seu famoso apartamento na rue Cambon, longe das convenções que se formaram na televisão (delícia essa pré-história!!!) começa com uma imagem distante dela para se aproximar depois em um plano mais fechado, mas Chanel continua no nosso imaginário tão ereta quanto no plano anterior. Ao final entendemos que uma certa retidão (uma metáfora para sua forma ereta) que emana de seu corpo talvez seja um dos segredos de seu mito continuar de pé até hoje. Tão firme que nenhuma avalanche derruba.

DE LUA – O FUTURISMO NA MODA


Exatamente às 23 horas, 56 minutos e 20 segundos do horário de Brasília, do dia 20 de julho de 1969, o homem chegou à Lua. “Este é um pequeno passo para o homem, um gigantesco salto para a humanidade” disse o astronauta americano Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar em solo lunar. E ao avistar a Terra de lá, tirou “as tais fotografias em que apareces inteira, porém lá não estavas nua, e sim coberta de nuvens”.
Passado 40 anos, esse momento poético da tecnologia visto por cerca de 1,2 bilhão de pessoas é ainda um assombro. Esse pequeno grande passo da humanidade encerra uma das décadas mais alucinadas de toda a história do homem. A década de 60 se encerra no Mar da Tranquilidade.
Nesses dias de comemoração dessa viagem fabulosa – em todos os sentidos que tem essa palavra – um amigo disse que propriedade, o Homem chegou à Lua em 1969, mas o Cinema já tinha ido pra lá em 1902 com Georges Méliès – o pai da ficção no cinema – com seu estrondoso “Le voyage dans la Lune” (“Viagem à Lua”).

Se o Cinema chegou antes dos homens na Lua, a Moda também vestiu e imaginou a roupa espacial um pouco antes dos acontecimentos, talvez excitada pelo discurso do então presidente John Kennedy no começo dos anos 60 dizendo que o homem iria para o espaço e chegaria na Lua.
O futurismo em artes plásticas, poesia, música e arquitetura aconteceu na década de 10, mas igualmente ao futurismo na moda que é dos anos 50 e principalmente 60 nas personas de Pierre Cardin, André Courrèges, Paco Rabanne, o dois movimentos tem em comum e como princípio uma violência com o passado, de negação até, o olhar é para o futuro, sempre.
25276-large Pierre Cardin, 60’s
Se o futurismo de 1910 se apoiava na guerra, de alguma maneira o futurismo de 1960 se apoiva na Guerra Fria e no seu resultado mais emblemático: a corrida espacial. Pensar o futuro era pensar na roupa que vestiríamos no espaço, quando nossas vidas não seriam apenas na Terra. Os looks de um filme hoje clássico como “2001, Uma Odisséia no Espaço”, poderia muito bem ter saído de uma coleção de Cardin.
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dois looks de 2001
É sintomática na década de 60 – e talvez em todo o século 20 até aquele momento -, a fé no futuro e no progresso e como isso naturalmente nos traria um mundo melhor. Pensar pra frente, nunca olhar pra trás, uma dinâmica do modernismo que começa a perder sentido poeticamente no Mar da Tranquilidade, pois passado uma década, já nos 80 começariamos a olhar sempre para trás, para o passado. E no caso da moda, esse movimento é muito mais acentuado.
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Courrèges, inspiração forte para o hoje chamado retrô-futurismo
Mas é sempre importante ressaltar a força propulsora do futurismo com sua dinâmica de seguir em frente. Foi unindo signos do futurismo e olhando para trás, para a história da moda, que Hussein Chalayan fez – na minha opinião – a entrada da moda no terceiro milênio em 2006.
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Hussein Chalayan, verão 2007, look inspirado em Paco Rabanne
Bom, tem um amigo que diz que na Música, o homem já chegou em Marte desde 1972 e trouxe até umas aranhas de lá.

COLUNA DA REVISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO 26/07/2009

A sétima arte tem se debruçado nesse ano com bastante prazer (ui) seus 24 quadros para os problemas de vida e figurino do povo da 24ª. Diferentes narrativas, estilos e histórias tem colocado nas telas de cinema questões vitais para os homossexuais.
“Milk – A Voz da Igualdade”, de Gus Van Sant abriu o ano (nada de trocadilhos!) nos colocando com clareza que estamos ainda no obscurantismo dos direitos civis. A saga do político assumidamente gay Harvey Milk, seu assassinato e a força das mobilizações nos colocam em xeque. Ainda trilhamos muito pouco desde a morte do ativista americano.
Já “Brüno” de Sacha Baron Cohen vai no avesso da questão para expor o mesmo problema. Uma bicha bem alienada percebe que pra ser celebridade – seu grande sonho – é preciso ser heterossexual (uma sutileza do filme pra indicar como os homossexuais são personas de segunda categoria). Para isso frequenta cursos de conversão de “bees” em héteros – como os da psicóloga Rozângela Alves Justino que por pressão dos grupos gays (ecos de Milk) está sendo processada e pode ter seu diploma cassado pelo Conselho Federal de Psicologia, já que a Organização Mundial da Saúde retirou a homossexualidade da classificação internacional de doenças em 1990.
E por fim, “De Repente, Califórnia”, de Jonah Markowitz é sobre dois surfistas gays (olha o fetiche!).Um deles tem dificuldade de se assumir, esse um exercício político importante e que a maioria dos homossexuais em algum momento já travou em sua vida.
Parafraseando o cineasta Jean-Luc Godard: “Tudo que você precisa para um filme (gay) é uma arma (política) e um boy”.
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BRÜNO É OU NÃO É UM FILME DE MODA?

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No meio do filme “Brüno”, uma amiga virou pra mim e disse meio indignada: “Isso não é um filme de moda!” Como o fato de um filme ser de moda ou não nunca foi fator imperativo para eu gostar ou não de uma película, não me preocupei muito com a observação. Mas depois do fim da sessão parecia ser fator imperativo pra boa parte dos fashionistas presentes na sessão de pré-estréia do filme aqui em São Paulo: Brüno não era um filme de moda e isso contribuia pro valor qualitativo da película. Já dessa primeira premissa discordo, mas resolvi ensar sobre se le é ou não um filme de moda.
Parei pra pensar um pouco sobre e logo percebi que primeiro era importante entender o que é um filme de moda.
Em geral considera-se um filme de moda aquele que transita pelo mundo da moda, com personagens envolvidos e referentes à esse universo. Se pensarmos nesse sentido, “Brüno” é um filme de moda pois transita nesse universo e tem no principal personagem, um fashionista.

Mas muitos alegarão que o filme não se passa só no mundo da moda, e que toca em outros assuntos como a homossexualidade e o preconceito que são centrais no filme. Visto dessa maneira Brüno não é um filme de moda. Caminhando nesse mesmo terreno podemos arriscar dizer também que um filme como “O Diabo Veste Prada” também não é um filme de moda, pois a questão principal do filme não é a moda e sim as relações humanas dentro de um mercado altamente competitivo e autoritário ou o equilíbrio, os efeitos e a impossibilidade de tentar separar relações privadas (a secretária Andy com seus amigos e namorado) com as relações públicas ( a secretária Andy com sua chefe). Essas questões estão acima da moda apresentada no filme, que assim como em “Brüno” tem um papel mais figurativo.
Mas se pensarmos um pouco mais a fundo nessa pergunta, percebemos que muito em “Brüno”, assim como também em “Prêt-à-Porter”, de Robert Altman [e quem sabe no “Diabo”], as questões importantes ao mundo da moda são evidenciadas, pois na moda tratamos daquilo que é visível e elas estão presentes de maneira forte e até pertuboradora.
Começamos com o mundo das aparências, fundamental para os jogos de fantasia e identidade na moda. Ele se demonstra em sua totalidade quando Brüno quer se tornar um heterossexual, suas mudanças são sentidas através da roupa. No iníco, seus looks únicos beiram o absurdo, uma histeria de fashionista. E é um desses absurdos de fashion victim – a roupa de velcro – que o leva a ruína no começo do filme, sem falar que dizem muito de como a moda entende a individualidade. E que deliciosa a observação indignada de Brüno: “D&G hello” quando um militar, já nas sequências de “conversão a hétero”, pergunta que cinto é esse [atire a primeira pedra o fashionista que nunca fez isso]. O filme é todo sobre aparência e esse é um tema central da moda, um tema quase seu por excelência.
O sistema moda está explícito em sua vontade de ser o que é de mais atual, o que é hoje e agora. Essa atitude é uma das forças da moda. E é assim que a moda se comporta para o bem e para o mal. No filme, assim como muitos fashionistas, Brüno leva essa máxima em suas últimas consequências, quase em desvario, não importa o que seja: ajudar crianças famintas na África ou selar a paz entre israelenses e palestinos. O importante é ser up-to-date, mesmo sem a menor consistência do que está fazendo. A onda do desvario histérico das eco-bags aqui no Brasil me ressoou na hora, assim como adoções de crianças carentes e sua exposição mediática. Voltamos ao mundo das aparências!
Isso tudo tem muito do mundo da moda e muito das pessoas que nos cercam e até de nós mesmos, então como Brüno não é um filme de moda? Ele é um filme profundo sobre a moda também. Cruel muitas vezes, irônico, com alguns momentos pretensamente chocantes, ele é um retrato, um espelho no qual parecemos bem mais gordo do que queríamos.
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