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O SOBRETUDO

Falando de brechós e vintage, acabei me lembrando de uma história que aconteceu comigo.
Nos idos anos 80, eu tinha um sobretudo de lã preto que comprei em um brechó e simplesmente era um sucesso. Todo mundo, até no Satã, o templo do sobretudo preto na época, elogiava meu sobretudo. Era incrível como ao colocar aquele sobretudo preto, me tornava uma pessoa automaticamente elegante. Aliás, até hoje os casacos 7/8 e sobretudos causam furor aqui no Brasil, acredito que devido ao pouco uso que fazemos deles, mas enfim… Continuando, foi que no final dessa mesma década ganhei meu presente de Cinderela, meu sapatinho de cristal[ou rubi], o sonho de toda uma geração: uma viagem a Londres, a cidade do sobretudo preto [pelo menos no meu imaginário].
Naquela época não era uma coisa simples assim viagens internacionais, tudo bem, que já tinha avião. Mas notícias de deportação de estrangeiros do 3º Mundo (é, na época a gente nem do G-12 era, mas isso não muda a perspectiva de achar que ainda estou no 3º Mundo), de desconfiança por parte da imigração me fizeram pagar um curso de inglês meio caro pra mim na época e meio a contragosto. Bom, essa política de portas fechadas não mudou nada, aliás piorou.
Também não se ia direto para Londres, quer dizer, gente classe média como eu pagava mais barato indo até Barajas, em Madrid [esse lance de Bruxelas é muito anos 90]. Ali era a primeira fronteira, você podia {pode] ficar por ali como tinha acontecido com um grande amigo meu [por isso o curso de inglês, por isso o Europass de trem, por isso um gasto absurdo… pra conhecer uma cidade como turista].
Ufa, passei sem problemas, disse que ia pra Londres e eles, acho, pensaram que a duana de lá me colocaria nos eixos se estivesse tentando entrar como imigrante ilegal.
Lembro de pegar um trem e ir direto para Paris para passar o fim de semana na casa de uns amigos em Paris. Lembro de ver a neve e pensar em Mario de Andrade (aquele lance de “ela é branca como a neve, eu não gosto dela, eu não gosto da neve”). Lembro da vergonha de ver que os telefones em Paris eram a maioria de cartão e aqui ainda eram com umas fichas bisonhas [a vergonha foi que fiquei procurando fichas durante um tempão sem entender que isso não existia lá].
Passado, nos dois sentidos, o meu primeiro fim de semana em Paris, parto para a meca da modernidade: Londres. É inverno, e como todos dizem que temos que nos apresentar bem vestidos na imigração, visto meu sobretudo.
Na imigração, eles não param de me fazer pergunta. Mostro o curso, mostro o lugar que iria ficar [falso, fiz reservas em um hotel, mas iria ficar na casa de amigos]. Eles olham muito desconfiados pra mim e eu sem entender muito. Depois de um bom tempo em Dover, eles me liberam, me dão um mês de visto, o normal eram 6 meses. Fico intrigado pelo tratamento, além de achar absurdo todos esses mecanismos e esse jogo para entrar em um país [e de ter aceitado esse jogo], me sinto diminuído.
Chego na casa dos meus amigos, meio desapontado, conto que fui super questionado e que não entendia o porquê, afinal fiz tudo direitinho. No segundo dia, passeando pela cidade, vejo que meu sobretudo é idêntico ao de muitos mendigos. Parece ser essa a resposta do meu tempo na duana que se confirma com uma história idêntica de Antonio, um querido amigo que morou anos em Berlim na época do muro e hoje é livreiro. Eu me apresentei como mendigo para as autoridades da imigração, apesar de jurar que vestia um glamouroso look de algum filme mudo dos anos 20.
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Penso nas diferenças culturais, penso nas diferenças sociais, penso na hierarquia dos gostos e penso principalmente que o que é elegante pra uns não é pra outros.