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OI? FASHION ROCKS

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Talvez o que mais foi esclarecedor pra mim no Oi Fashion Rocks foi Wanessa imitando as cantoras pop americanas, escondendo uma certa vontade de Shakira – “a cucaracha que chegou lá”. Não existe novidade nessa comparação da neta de Francisco com as J.Lo e Beyoncé da vida, mas é bem claro que revela essa vontade do Brasil de entrar realmente no primeiro mundo da cultura, seja ela pop ou erudita. Wanessa é do mesmo sinal que o desejo que temos ao querer que nosso país leve o Oscar de melhor filme estrangeiro ou que nos fez radiantes por demais diante à vitória do Rio para sediar as Olimpíadas em 2016 e, porque não, ser o palco do primeiro Fashion Rocks da América do Sul. Enfim, Wanessa resume e explica o Oi Fashion Rocks. É a tentativa de shakirização do país.
Pena que essa atitude é feita pela cópia, seguindo modelos e não pela originalidade, para dar uma resposta diferente ao mundo.
Mas voltando ao Fashion Rocks, apesar do nome fashion, ele é só um mero coadjuvante. A moda fica sempre em segundo plano, e não é só na transmissão que foi feita aqui, quem já assistiu outras edições sabe que se vê pouca roupa pois a atenção das câmeras tambem tem que estar na banda que está tocando. Talvez a desculpa com fundo excludente seja que “todos” já viram esses looks nas coleções passadas. Tá, se a visibilidade das roupas é prejudicada na televisão/internet – que é o elemento de grande importância desse evento – então porque chamar, no caso brasileiro, uma grande stylist como Katie Grand, se mal vamos conseguir ver o trabalho que ela fez com as marcas, como ela editou e pensou cada uma. Não consegui, nos vídeos que assisti, entender um pensamento da fofa. No fim, as modelos fazem mais uma participação coreográfica de fundo. Esse pra mim é o grande ponto fraco do Fashon Rocks, não se vê moda em nenhum canto, existe uma miragem de moda. E até agora esse problema não foi resolvido seja no primeiro mundo seja no mundo de Shakira.
Outra coisa que me parece menos ruim, mas é muito desagradável, é a falta de organicidade entre música e moda no evento – novamente não só no Rio, mas em todos os que assisti na tv. Explico melhor, o que os estilistas criam e refletem nada tem a ver com a música que é tocada. Um exemplo hipotético: na trilha da Dior Homme de Hedi Slimane pensa-se exatamente em Franz Ferdinand ou The Libertines mas o Fashion Rocks nunca se atentaria a isso e poderia por exemplo chamar o Dj Tiesto pra tocar para a Dior de Slimane. Não há como preocupação primeira o verdadeiro diálogo com a moda e a música. No caso brasileiro, tivemos um golpe único de sorte, com a substituição de Lulu Santos, que está com problemas de saúde, pela banda Stop Play Moon no desfile de Alexandre Herchcovitch. Que estrela tem Herchcovitch, pois teve como vocalista a sua musa máxima Geanine Marques que é da banda. Fez todo sentido. Eu adoro Lulu, mas ele não tem nada a ver com Alexandre e seu universo. Mas bem que seria interessante ver ele cantando: “eu vejo um novo começo de era…” e aparecer um monte de caveira do estilista na passarela.
Tudo bem, acho que Daniela Mercury pode dialogar com Lino e Grace Jones com Marc Jacobs mas o resto faz muito pouco sentido.
E é pelo elogio da performance de Grace Jones que percebemos outra falha, a falta de boas imagens da música (já que a moda fica apagada, de fundo, cabe à música produzir imagens), imagens que marquem, provoquem, encantem. Grace foi a única que soube fazer isso e com sua simples troca de acessórios e uma capa muito especial derrubou a farofa da macumba da Mercury, os bailarinos da Mariah e a lamentável escola de samba no final, pra marcar que estamos no Brasil (ô pobreza). Foi incrível que nas 3 músicas, Grace criou impacto só na troca de máscara e chapéu e conseguiu produzir uma imagem poderosa que ficou lindo no vídeo com a apoteose dela cantando “Slave to the Rhythm”.
O resto sinceramente pra mim foi OI?
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Donatella, te amo até mais que seu preenchimento labial, OI?

MICHELLE, MA BELLE

Mais do que os vestidos ou o corte de cabelo, a atenção que Michelle Obama tem despertado entre os fashionistas aponta que a moda caminha para aquilo que nós brasileiros conhecemos tão bem: a informalidade.
O polêmico e benvindo gesto da primeira dama com a rainha da Inglaterra – com o detalhe da retribuição da própria rainha – é um exemplo dessa informalidade que a cada dia se projeta mais e mais mundo afora para chocar uns e agradar outros.

Essa informalidade – que é muito importante não confundir com falta de educação – está na raiz do nosso país. O historiador Sérgio Buarque de Hollanda ao comparar a colonização portuguesa com a espanhola, percebe que as cidades criadas pela Espanha na América querem transmitir o “triunfo da aspiração de ordenar e dominar o mundo conquistado”. Já as portuguesas eram sem “nenhum rigor, nenhum método, nenhuma previdência”. Tudo era retilíneo nas cidades da América espanhola enquanto tudo é mais solto, ao acaso no Brasil. Isso levado ao extremo podemos chamar de desleixo como o próprio historiador assim enxergava, mas também estão ali as bases de algo mais informal, longe das regras sociais mais duras e rígidas, aquilo que afinal seria conhecido pelo termo Homem Cordial, “o brasileiro, aquele que não suporta formalidades”.
Apesar de sempre achar Caetano delirante, ele delirou bem nesse vídeo ao perceber que os Obamas querem imitar os brasileiros.

No vídeo, ele se refere à questão racial, mas cada vez fica mais evidente que a questão é comportamental e com isso, vivemos um momento paradigmático. A elegância com sua Socila de boas maneiras vira uma página com a entrada da informalidade dos altos escalões do poder, sendo Lula o cara ou não. As elegâncias das velhas primeiras-damas já não cabem no abecedário do que Michelle está nos trazendo. Precisamos de um novo olhar e de um novo conceito de elegância pra entender o que exatamente Michelle Obama está realizando. E por fim, talvez surgirá um olhar que não acredite na elegância de homens de terno no centro do Rio de Janeiro ao calor de 40º, que despreze e descorde da atitude do Judiciário quando da demarcação de terras na reserva indígena de Raposa/Serra do Sol impedindo os índios de acompanhar a audiência no plenário porque não estavam de terno e gravata.
Pode não parecer, mas ao abraçar a informalidade Michelle Obama nos traz um mundo mais tolerante e não por isso menos elegante.
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@ Dois textos que guiaram esse meu pensamento: “Os Braços de Michelle” de Alcino Leite e “Leitura dos Looks das Primeiras Damas” de Fernanda Resende.

ORAÇÃO YES, NÓS TEMOS CARMEN MIRANDA

Bendita Carmen, dos turbantes maravilhosos, explosivos de frutas e bananas porque boba ela nunca foi, seu negócio é bananas.
Deu uma banana pros babacas que disseram que ela voltou americanizada
Deu outra banana pra esquerda ranzinza – só gosto da festiva – que a culpava de colonizada.
Deu bananas pra dar e vender

Bendita Carmen que fez o top designer de calçados Salvatore Ferragamo criar os famosos sapatos plataformas que é uma marca das brasileiras.
Fez todos saberem que a baiana tem pano da Costa, saia engomada, tem!
Fez todos aprenderem que a velô da dicção das texanas de hoje – oi Beyoncé! – é filial natural de sua passagem pela América.
Fez e aconteceu

Bendita Carmen do pudor da barriga desnuda, da austeridade do brilho que reluz, das generosas fendas privadas de seus vestidos, dos olhinhos que giram em pleno orgasmo a cantar.
Visão de um Brasil que tem medo de se re-conhecer!

Bendita Carmen, quero pra sempre ter essas imagens sagradas no meu santuário Brasil,
Amém Carmen

E NEVOU NO BRASIL

E sério, não é que eu achei o desfile de Samuel Cirnansck o mais brasileiro de toda essa temporada dedica às brasilidades?!

Meu São Paulo da garoa,
-Londres das neblinas finas-
Um pobre vem vindo, é rico!
Só bem perto fica pobre,
Passa e torna a ficar rico.

Mario de Andrade

PENSE MODA: O BRASIL NÃO CONHECE O BRASIL

Depois de assistir o incrível filme de Julio Bressane, Cleópatra, cheguei a uma triste constatação: a moda não se comunica-dialoga diretamente com as outras artes e manisfestações culturais do país e vice-versa. Por parte dos produtores culturais do Brasil tem um pouco de preconceito, desconhecimento e muito desprezo.
No Pense Moda, onde a discussão do DNA brasileiro permeou muitas das discussões, pra mim ficou a certeza que os fashionistas são completamente ignorantes sobre a longa discussão sobre identidade brasileira travada a mais de 500 anos no país e principalmente nos séculos 19 e 20. Acho que todo o debate estaria em outro patamar se o povo de moda no Brasil se debruçasse verdadeiramente sobre essa questão do mesmo jeito que finge entender uma cultura longígua pra inspirar a sua coleção ou mesmo pra fazer a “imagem” de sua revista, isto é, de maneira superficial mas que o assunto verdadeiramente passasse por essas cabeças que depois nos irão brindar com discursos lamentáveis no palco de um teatro italiano em uma fundação britânica.

Para tanto, eu, um mero blogueiro, coloco aqui uma pequena bibliografia de livros fundamentais que se não for ler, faça algum curso nas Casas do Saber – Escola São Paulo da vida pra saber do que se trata. Porque queridinhas, a discussão é bem mais embaixo e bem mais adiantada, eles já inventaram a roda, tá?!

Casa-Grande & Senzala – Gilberto Freyre. O livro é ponto de partida para entender a miscigenação brasieira, a influência dos negros na cultura e o que se denominou como lifestyle brasileiro. Depois da década de 60, marxistas e revisionistas fizeram uma crítica drástica a essa visão, mas ela ainda é ponto importante para o debate de identidade nacional.

Raízes do Brasil – Sérgio Buarque de Holanda. Junto com o clássico de Freyre e o de Antonio Candido, é um dos 3 chamados livros formadores da brasilidade, explica como Portugal criou e forjou uma sociedade diferente da dos espanhóis na América. Nele cria-se o termo “homem cordial”, fundamental pra entender várias nuances de nossa identidade como o imobilismo e a receptividade com o outro, o estrangeiro. Talvez o homem cordial imperou durante toda a discussão mais importante do Pense Moda, e aqui está um dos papéis do blog pra furar essa cordialidade de maneira cordial.

Formação da Literatura Brasileira – Antonio Candido. Na década de 1950 ele escreve sobre a literatura do nosso país exatamente essa frase. “Comparada às grandes, a nossa literatura é pobre e é fraca. Mas é ela, não outra, que nos exprime”. Será que eu preciso escutar a mesmo coisa mais de 60 anos depois num debate sobre moda como se isso fosse uma grande novidade?

Cinema: Trajetória no Subdesenvolvimento – Paulo Emilio Sales Gomes. Gênio, gênio. A questão das cópias está toda aí. Não há novidades em Erika Palomino hoje dizer que pode copiar porque Paulo explicitou isso na década de 60 de maneira muito mais profunda nesse maravilhoso tratado.

Retrato do Brasil – Paulo Prado. Com o subtítulo de “Ensaio sobre a tristeza brasileira” e escrito em 1928, é peça fudamental pra entender a nossa felicidade como objeto ideologizado. Brilhante, nos mostra uma outra face da chamada brasilidade e como reiterar que o lifestyle do brasileiro é a alegria e o despojamento pode ser uma grande repetição de antigos clichês.

O Mistério do Samba – Hermano Vianna. Pra não dizer que fiquei só no passado, esse livro recente de Vianna é fundamental pra entender como todos os nossos valores: feijoada, samba, caipirinha foram forjados como valores míticos-atemporais, mas não tem mais de 100 anos, todos elegidos pelo governo Getúlio Vargas.

Existe uma vasta literatura sobre esse assunto, passando por Darcy Ribeiro, Ferreira Gullar, mas só isso já dá uma idéia da miséria dos debates que estamos travando em moda hoje. Como eu disse, hello: eles já descobriram a roda!

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quanta brasilidade existe nessa imagem…

O TEMPO FECHOU NO CLARO RIO SUMMER

Se acreditamos que se uma semana de moda não necessariamente precisa trazer grandes novidades – papel que só as mais importantes devem realmente ter como foco principal – mas se trouxer, excelente! -, pelo menos que ela sirva para bons negócios, ou no mínimo para agitar o calendário de eventos culturais de uma cidade. Com muito esforço e boa vontade, talvez apenas o último ítem foi parcialmente alcançado pelo Claro Rio Summer.
Sobre o primeiro tópico, a inovação em moda ficou difícil porque nem moda eles apresentaram. O comentário geral era exatamente esse como bem escreveu Jorge Wakabara. Sobre o segundo ítem, os negócios, eles não aconteceram como bem relatou Milene Chaves. Sobre o terceiro e último ítem, considerando que festas nababescas podem ser consideradas eventos culturais, já que os desfiles de tão fechados estavam vazios, podemos dizer que talvez o CRS cumpriu o velho ditado: “Comeu mortadela e arrotou peru”.
Como um evento com os grandes nomes da moda-praia brasileira foi um verdadeiro fiasco? Acredito que eles perderam o foco com tanta champagne e esqueceram de tomar anti-ácido, enfim, mal começou e em todo fashionista com um mínimo de neurônio, o CRS se mostrou uma grande ressaca. Salvo algumas exceções como bem reportou Alcino Leite referindo-se à falta de foco.
Talvez a atenção dada ao evento foi feito “pela força da grana que ergue e destrói coisas belas” porque realmente, de fundo, ele se equivale a um Capital Fashion Week ou um Dragão do Mar Fashion, semanas de moda que ocorrem respectivamente em Brasília e Fortaleza. Mas trouxe os convidados internacionais e nós como verdadeiros tupiniquins nos curvamos a esse fato com algo realmente importante.
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Se moda é imagem, o mais lamentável do CRS não foi não apresentar moda, mas sim fazer um retrocesso da imagem do país pra inglês ver, confirmando a farseta para todos eles a ponto de todos estrangeiros declararem que era isso mesmo que esperavam do Brasil.
Samba, caipirinha e felicidade são elementos forjados na era getulista – década de 1930 – para nos dar uma identidade nacional, é um projeto altamente elaborado e ideologizado que as décadas seguintes tentaram ou combatê-las ou reatualizá-las.
Todo esse aparato da imagem e identidade nacional evoluiu muito desde então e mesmo na moda, até então insipiente no Brasil, teve seus movimentos que, ou contestaram essa imagem getulista como as coleções “de protesto” de Zuzu Angel ou a reatualizaram com novos elementos como a Forum na década de 90 e sua famosa procura da brasilidade no Cinema Novo e na arquitetura de Niemeyer.
Nesse pensamento que acredita que esse é o modo de vida do brasileiro, grandes estilistas estarão sempre de fora porque já transcenderam esse estágio, aliás como toda a sociedade brasileira. Não há espaço para a genialidade de Gloria Coelho, Reinaldo Lourenço e Alexandre Herchcovitch no CRS por enquanto. Só há espaço para o ufanismo com bem espetou Carol Vasone. Brassssssssssiiiiiiiiillllllllllllll!
Por fim, refaço o pensamento de Sarah da Colette que comentou que é melhor apresentar clichês do que copiar a moda americana. Mas Sarah, o que você viu foi uma cópia do clichê!