Arquivo da categoria: bororos

NOVELA TRISTES TRÓPICOS

A Alessandra Carvalho – Lain do blog Karapanã pediu para publicar aqui no blog e eu acho pertinente pois o espaço da minha coluna na Revista da Folha de São Paulo é pequeno então editaram os links dos blogues que cito. Como aqui tenho bastante espaço, publico a coluna GLS do dia 07 de dezembro com os devidos links:

Cena 1 (escrita pelo designer Marco Sabino em seu blog sobre o lixo da juventude dourada): “Alguns pitboys agrediram o ator Marcello Novaes na boate 00 na Gávea no Rio de Janeiro. [Nenhum dos dois] é gay, […] mas a briga começou quando um amigo, que usava um pull [casaco] amarrado na cintura, foi alvo de gozação dos idiotas que tentaram ridicularizá-lo, insinuando que estava usando uma saia.
O rapaz respondeu que não, mas aí a briga começou e Marcello Novaes, que veio em socorro ao amigo, acabou sendo ferido e levando mais de vintes pontos na testa”…

Cena 2 (escrita pelo editor de moda Alcino Leite em seu blog citando um trecho de “Tristes Trópicos”, de Claude Lévi Strauss sobre o luxo dos Bororo):
[…] “Há que se entrar na casa-dos-homens para avaliar a atividade despendida por esses robustos rapazes em se embelezar: em todos os cantos, corta-se, modela-se, cinzela-se, cola-se; […]. Com uma aplicação de costureira, os homens de físico de carregadores transformam-se mutuamente em pintinhos, graças à lanugem colada direto na pele”.

Cena 3: Pitboys invadem tribo indígena pra exterminar aqueles que usam elaboradas saias de penas, mas Santa Baby do Brasil aparece milagrosamente e explica, soletrando todas as letras que a vaidade dos índios é a mesma que eles cultivam seus músculos. E que aliás, eles são filhos bastardos das barbies, as primeiras gays no século 20 a massificar e divulgar a musculação. Confusas, as pitboys param de latir e umas até experimentam as saias, outras entretanto decidem encontrar suas mães em alguma boate bate-cabelo para pedir perdão. Choram descabeladas como quando Mariana Ximenes descobre quem era sua verdadeira progenitora!
Fim.

garotos20fofos1

saia dessa encruzilhada!!!

indiopataxo2

O HOMEM QUE ODEIA A BAÍA DE GUANABARA FAZ 100 ANOS

claude-levi-strauss_machado1209828628
Lembro na faculdade de jornalismo de ler algum xerox de um trecho de algum livro de Claude Lévi-Strauss – acho que foi um pedaço de “As Estruturas Elementares de Parentesco” – que passou meio batido como tudo que um curso básico pra ser jornalista passa. Aliás, é assim que se formava e se forma hoje os nossos queridos repórteres e posso bem dizer que sou fruto dessa salada de fruta que nunca se aprofunda em nada.
Muito tempo depois, Gerson Oliveira, o hoje famoso designer da Ovo, falou que estava lendo um livro que era a minha cara, que era fantástico e que eu deveria lê-lo. Era “Tristes Trópicos”!
Comecei a ler a autobiografia de Lévi-Strauss e sua viagem ao Brasil e digo que à princípio achei que Gerson estava tirando sarro da minha cara.
Eita francesinho mal humorado (apesar de ter nascido na Bélgica. até hoje nunca entendi essa quantidade de francês nascido na Bélgica)! Ele conta que numas das paradas da viagem, talvez no Caribe (?) se não me engano, foi até a biblioteca para pesquisar algo e ficou horrorizado ao constatar que no banheiro, ao invés de papel higiênico, eles estavam usando folhas de livros da própria biblioteca. Pensei em parar, mas frases com muita contundência e longe do lugar comum me fizeram – graças à Deus – continuar.
“Odeio as viagens e os exploradores”, diz ele um antropólogo que tem como objetivo viajar e conhecer culturas diferentes. Como assim? Essa sinceridade me comoveu e segui adiante.
Fora o trecho clássico:
“Um espírito malicioso já definiu a América como sendo uma terra que passou da barbárie à decadência sem conhecer a civilização. Poderíamos com mais razão aplicar a fórmula às cidades do Novo Mundo: vão da frescura à decrepitude sem se deterem na antiguidade”. Acho tão Ponte Gucci!!!!
Ele odiou a Baía de Guanabara: “O Pão de Açúcar, o Corcovado, todos esses pontos tão louvados parecem ao viajante que penetra na baía como tocos de dentes perdidos nos quatro cantos de uma boca banguela”.
Nesse ponto, a visão é tão pessoal e única que não podemos não respeitá-la mesma que não concordemos com ela. Eu por exemplo acho a Baía de Guanabara linda, mas adoro ele odiar esse mesmo lugar, desafia o coro dos contentes.
Lévi-Strauss detestou tudo o que era da “mão civilizatória” no país, mas se encantou com o índios, descobriu com os bororos algo profundo. E essa é toda a grandeza do livro.
É estranho hoje ser uma voz dissonante (ou pessoal), mas Lévi-Strauss ensina que sair do lugar comum às vezes é se acomodar a ele, não existe nada mais europeu no sentido clichê do que engrandecer os índios.
Vejo muitos amigos mais jovens – os meus amados filhos e filhas de Britney – falando de uma tal crítica construtiva. Ao nominá-la, eles colocam em oposição aquilo que chamam de crítica negativa, “do mal”. Parece consenso porque até um jornalista do porte de Mario Mendes, um dia me escreveu dizendo sobre o Nucool que “depois ele [Mario Mendes] que era maldito”. Conhecendo um pouco do estilo de Mario, sei que ali era uma ironia sobre o estado das coisas e pessoas que acreditam que quem critica algo “é do mal”. Enfim, desmantela-se a crítica entre a do bem e a do mal.
De fundo, isso faz parte de um mecanismo de festa de medalhas que vivemos hoje onde tudo é divino, maravilhoso e ai, de quem não achar ou algo é realmente horroroso (como os pixadores na Bienal, as quedas das Torres) e ai, de quem não achar. Vivemos o auge do lugar comum em todas as áreas. Pois o exercício do pensamento está cerceado por esse falso bom mocismo.
Não existe crítica construtiva ou destrutiva, existe crítica, cabe ao interlocutor decidir se aquilo lhe interessa ou não, se lhe acrescenta ou não. E vamos tirar deus e o diabo dessa terra sem sol!
395
a boca banguela