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COLUNA DA REVISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO – 28/03/2010

Depois de explicar como se dá um pensamento autoritário contra as minorias e de apontar quem o está utilizando para reforçar antigas imagens – a TV Globo e os falsos simpatizantes – encerro essa saga do “crepúsculo” (de razões que a televisão desafina) refletindo sobre o que sobrará desse veneno de vamp que inundou o país nesses primeiros meses de 2010.

Com o Big Brother Brasil ficou claro a quantidade de mulheres misógenas que ainda não aprenderam que para um homem ser macho, ele não precisa ser machista. Também aflorou a homofobia de muitas bees, ao condenar que os gays participantes do programa não os representava (Gente, a única pessoa que me representa sou eu). Como também chocou muitos telespectadores que se indignaram com a atração de Serginho, um gay, por uma mulher, como se isso fosse algo ou do outro mundo ou impossível. Enfim, como diz o professor negro e antropólogo Kabengele Munanga: “O brasileiro nunca vai aceitar que é preconceituoso. Foi educado para não aceitar isso”. Nisso, o BBB foi um “avanço”.

Mas mesmo antes de terminar o reality, está óbvio que os grandes perdedores foram os direitos gays. Se há pouco tempo atrás, muitos diziam que não gostavam dos viados com certa vergonha e silêncio, hoje – em um retrocesso civilizatório – eles dizem com orgulho, batendo no peito. Por isso que falo que vivemos uma oposição à clásscia novela de Gilberto Braga. Se antes nos envergonhávamos de nossos atrasos e corrupções, hoje nos orgulhamos de nossos preconceitos. Será que realmente vale tudo – pelo Ibope?

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SOBRE BBB, FORMAS TOTALITÁRIAS E PERVERSÃO: UM SMASH UP

Smash up sugerido por Pedro Alexandre Sanches, para não deixar dúvidas em ninguém e ninguém se fazer de vítima às avessas. Texto do professor negro e antropólogo Kabengele Munanga.

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“A homofobia é uma ideologia. A ideologia só pode ser reproduzida se as próprias vítimas aceitam, a introjetam, naturalizam essa ideologia. Além das próprias vítimas, outros cidadãos também, que discriminam e acham que são superiores aos outros, que têm direito de ocupar os melhores lugares na sociedade. (…) Há homossexuais que introjetaram isso, que alienaram sua humanidade, que acham que são mesmo inferiores e o nétero tem todo o direito de ocupar os postos de comando. (…) A educação é um instrumento muito importante de mudança de mentalidade e o brasileiro foi educado para não assumir seus preconceitos. (…) O brasileiro nunca vai aceitar que é preconceituoso. Foi educado para não aceitar isso. Como se diz, na casa de enforcado não se fala de corda. Quando você está diante do homossexual, dizem que tem que dizer que é gay, porque se disser que é viado, ele vai se sentir ofendido. O que não quer dizer que ele não deve ser chamado de viado. Ele tem nome, tem identidade, mas quando se fala dele, pode dizer que é viado, não precisa dessexualizá-lo, torná-lo gay. O brasileiro foi educado para se comportar assim, para não falar de corda em casa de enforcado. Quando você pega um brasileiro em flagrante de prática homofóbica, ele não aceita, porque não foi educado para isso. Se fosse um americano, ele vai dizer: ‘Não vou alugar minha casa para um viado’. No Brasil, vai dizer: ‘Olha, amigo, você chegou tarde, acabei de alugar’. Porque a educação que o americano recebeu é pra assumir suas práticas homofóbicas, pra ser uma coisa explícita. (…) Muitas vezes o brasileiro chega a dizer ao homossexual que reage: ‘Você que é complexado, o problema está na sua cabeça’.”

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Por que a corda só arrebenta do lado do homossexual? No fundo, as pessoas não querem que os gays perto de suas famílias. É uma forma de homofobia. (…) São seres humanos que, pelo próprio processo de colonização, de patriarcalismo, a essas pessoas foi negada sua humanidade. Pra poder se recuperar, ele tem que assumir seu corpo como homossexual. Se olhar no espelho e se achar bonito ou se achar feio. É isso o orgulho gay. E faz parte do pocesso de se assumir como gay, assumir seu corpo que foi recusado. (…) O hétero não tem motivo para ter orgulho porque ele é vitorioso, está lá em cima. O outro que está lá baixo que deve ter orgulho, que deve construir esse orgulho para poder se reerguer.”

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“Quando há violência física, eles são punidos, mas isso aqui é uma violência também, uma violência simbólica. Por que a violência simbólica é aceita e a violência física é punida?”

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“A imprensa faz parte da sociedade. Acho que esse discurso do mito da democracia sexual é um discurso também que é absorvido por alguns membros da imprensa. Acho que há uma certa tendência na imprensa pelo fato de ser contra as políticas de ação afirmativa, sendo que também não são muito favoráveis a essa questão da criminalização da homofobia. Houve (…) e há a tentativa dos religiosos de barrar a lei que criminaliza a homofobia. Silêncio completo da imprensa brasileira. Não houve matérias sobre isso. O silêncio faz parte do dispositivo da homofobia brasileira. Como disse Elie Wiesel, o carrasco mata sempre duas vezes. A segunda mata pelo silêncio.”

COLUNA DA REVISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO – 28/02/2010

Nas formas mais totalitárias de poder sempre existe um grupo inimigo (seja ideológico, religioso, étnico ou sexual) para ser exterminado. Sob um discurso cheio de palavras de ordem, pensamentos distorcidos de forma perversa e vazios de lógica, esse grupo é construído para o resto da população como uma força maior do que a que possui e como a representação dos males de uma sociedade. Vivemos exatamente esse momento no microcosmo da realidade do país que é a sua televisão e mais especificamente o reality show “Big Brother Brasil”.

Quando os chamados coloridos entraram no programa, houve, para além de todas as tribos – idiotas – que foram formadas pelo Boninho, uma sensação geral que aquele era um grupo poderoso. Até a apresentadora “família” Angélica declarou que torcia pra drag. O vencedor, no inconsciente coletivo, era possível ser algum daqueles três homossexuais, representando a força gay e da diversidade. Ledo engado e construção barata que serviu exatamente para os propósitos contrários.

Na terça-feira, 23, foi televisionada mais um capítulo desse pensamento. No paredão, dois homossexuais, Angélica e Dicésar, e seu antagonista, Marcelo Dourado. Os gays – ou tribo dos coloridos – são exatamente esse grupo que construiram parecendo mais poderoso do que realmente é. Travou-se uma discussão – inútil – se Dourado era ou não homofóbico. A defesa – que contou com muito dos chamados simpatizantes – colocou que era uma alegação sem fundamento acusar o lutador de não gostar dos gays e que isso não valeria para sua eliminação no programa. O que podemos claramente ler como pensamentos distorcidos perversamente e vazios de lógica já que para as bichas militantes, passando pelas clubbers, qua quás, e uma infinidade de tribos homossexuais não há dúvidas sobre a homofobia do brother. E me desculpem, nesse quesito, nós bees – e ainda numa diversidade tão grande –, sabemos muito bem identificar um homofóbico.

Mas isso pouco importa, mais revelador foi Dourado falar palavras de ordem depois de sua permanência na casa: Força e honra! Fechando ali, no pequeno mundo da tv que espelha o Brasil, a representação de um pensamento totalitário, feito de palavras vazias para esconder outra ação, a da intolerância. É nisso que temos que ficar atentos. O resto são apenas 1 milhão e meio de reais que não nos pertence.