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PUCCI QUE PARIU, A PONTE GUCCI…

O arquiteto Marcio Kogan fez um filme absurdete com outro arquiteto, o Isay Weinfeld, no final dos anos 80 chamado “Fogo e Paixão”. e não menos absurdete e bem humorada é essa Ponte Gucci.
Recebi esse e-mail da Fernanda Resende e não resisti, postei, sei que muitos já conhecem esse projeto, mas vale a pena ler de novo:

LE PONT GUCCI

Extremamente elegante é o mínimo que se pode falar da Pont Gucci. Uma sofisticada estrutura atirantada por belíssimas correntes guccíssimas de ouro 18k e largas tiras de tecido côtelé vert, rouge et vert, cumpre o seu importante papel social conectando glamorosos shoppings localizados nas margens do rio mais “in” de São Paulo. Pó de diamante espalhado pelo asfalto, provocará um deslumbrante brilho. Segurança 24 horas e um justo preço do pedágio, aproximadamente 20 euros, tornarão este lugar exclusivíssimo. No Dia do Índio, 19 de abril, seu uso será gratuito numa forma de “gentileza urbana” aos menos favorecidos, mas prometemos uma higienização rápida e segura para que tenhamos tudo na mais perfeita ordem na manhã seguinte, afinal sabemos muito bem da total falta de educação do povo brasileiro. Numa demonstração de respeito ao meio ambiente o rio será despoluído numa faixa de 20 metros com aplicações diárias de Channel No. 5. Chiquérrimo!!!

ponte_gucci_high

VERGONHA E ORGULHO

Brasiiiiiiiiiiiiiiiiilllllllllllllllll!!!!
Em Veneza, cheia de propostas de diversos países sobre o entendimento de arquitetura, o que mais me decepcionou foi o Pavilhão do Brasil. Com curadoria do arquiteto Roberto Lobo, e curadoria adjunta do jornalista Silas Martin – que faz excelentes críticas de artes plásticas na Folha de São Paulo, o Brasil faz a seguinte proposta de arquitetura ”No Architects. From urbanity to intimicy”. Essa idéia de uma arquitetura sem arquitetos, segundo disse um amigo que entende do carteado, já é gasta, mas mesclada com um ranço de arte conceitual, torna a idéia razoável em uma montagem muita aquém das boas possibilidades de discutir um assunto morno em arquitetura.
O espaço consistia de displays com personalidades, entre elas Alexandre Herchcovitch, Eliana Tranchesi e Zé Celso, falando de sua íntima relação com a cidade. Uma espécie de Caras da Casa do Saber!


pensamento de Eliana Tranchesi

No meio tinha mesas grandes com os livros em versão mais completa dos depoimentos o que permitia até ter um parecer de um motoboy.
Bom, no meio disso tudo, eu tive muito orgulho de ver um dos displays com uma entrevista de Marcelo Rezende, grande amigo e jornalista, e que está cuidando das publicações da Bienal, que de cara eu já amei pois vai ser distribuido nos semáforos da cidade como aqueles jornais Destak e Metronews.

Como Marcelo mesmo diz “Eu não tenho casa, eu tenho uma pequena mala”

VENEZA E AS CÓPIAS


ocidente-oriente

Do mesmo jeito que todo muçulmano deve ir um dia na vida para Meca, acho que os ocidentais deveriam ir pelo menos uma vez a Veneza. Essa foi minha segunda vez e acho que adoraria voltar mais.

Veneza, a Meca do Ocidente
Além de toda a beleza cenográfica, além de todos os tons de terrosos que tanto nos encantam quando vemos um quadro de Tiziano, além de todas as ruas e vielas e canais, existe uma cidade. Uma incrível cidade que não à toa é sede de uma importante Bienal de Arquitetura.
A cidade de certo modo está construída, a eterna Sereníssima República ninguém mexe – pelo menos nas fachadas -, até por isso, como observou Eduardo Rosa, meu grande amigo e arquiteto, as construções mais contemporâneas sejam túmulos e capelas no famoso cemitério da cidade. Mas o diálogo com o espaço faz de Veneza uma grande esfinge arquitetônica, pronta pra te devorar ou devorar-se em meio a tantos turistas.
Uma das instalações – se assim posso chamar – mais interessantes da Bienal de Arquitetura é um espaço que foram colocados uns bancos entre duas telas que representavam uma gôndola. Elas projetavam ora imagens de Veneza ora imagens de lugares como Las Vegas, Tóquio, etc que construiram uma cenografia-cópia da cidade de Venetto.
De alguma forma Veneza foi uma matriz desejada e copiada e entendi melhor a questão da cópia além da visão extremamente negativa que tinha sobre o ato de copiar.
Primeiro pra mim copiar era se apropriar de uma idéia original, tentar roubá-la, massificá-la, mas penso hoje que além disso ela é também difundir essa primeira idéia.
Depois, cópia pra mim representava e ainda representa um senso de inferioridade tremendo. A cópia escancara o complexo de inferioridade latente de quem copia. Vendo as réplicas de Veneza, penso que sim, existe inferioridade, mas também existe a sinceridade de quem copia, algo como a sussurrar pra nós: “Eu gostaria de ser assim e pelo menos eu tentei mesmo tendo fracassado”. Até porque Veneza não é apensa essa cenografia que imprime tão forte nos cartões-postais, existe a cidade dentro dela.
De muitas formas, existe muitas verdades originais em uma cópia!

apesar dos clichês, Veneza é uma cidade…

… com as contradições – espaciais e simbólicas- típicas de uma cidade

ORIENTE-SE RAPAZ!

A ORGANICIDADE NA CRIAÇÃO BRASILEIRA

Alguns teóricos gostam de apontar uma certa dificuldade da forma na arte feita no Brasil, seja nas artes plásticas, seja no cinema, ou na moda. Essa dificuldade muito advinda de uma situação de colonialismo cultural (ainda se usa esse termo?) e como conseqüência a expansão da cópia.

Em cinema, essa discussão, acredito, esteve muito avançada a ponto de Paulo Emílio Salles Gomes, já na década de 1960, admitir que a nossa dificuldade e nosso erro na hora de copiar é que nos dava uma certa identidade.

Mas o que me chama muito atenção ao meu olhar é uma certa dificuldade do rigor em função daquilo que chamo de organicidade da forma.

Em artes plásticas o exemplo é claro, o esforço da arte concreta ao exercício de uma forma rígida não conseguiu aqui o rigor que em outros lugares, logo vieram os neo-concretistas pedindo um certo relaxamento dos dogmas. O mesmo são as curvas de Niemeyer em relação a escola modernista européia de arquitetura.

Esse embate entre a lição do Ocidente, o racionalismo e uma certa organicidade na forma deixando até ela perto da imperfeição faz para mim um grande traço da criação brasileira em todas as áreas.

Acredito que não precisamos aval do estrangeiro, mas nesse caso, a Vogue Japão olhou para a criação no país da mesma maneira como eu acredito que ela é mais contundente e verdadeira.

Basta lembrar da quebra paradoxal da bossa nova , ou sua organicidade em relação tanto à cadência do jazz como do samba. E para falarmos do presente: Gisele com seu nariz e curvas é uma das provas vivas do que escrevo. 

MAMÃE FAZ 100 ANOS (OSCAR NIEMEYER)

Esse final de semana foi geriátrico, só se falou nele (e no Ryan Grace também), mas ele, nossa mamãe faz 100 anos, Oscar Niemeyer!

Tenho que assumir que já compartilhei de discursos contra o arquiteto, como “Brasília são só escritórios” ou “o Memorial da América Latina é seco”! Mas são só discursos.

Lembro que fui conhecer a capital federal já com mais de 20 anos e todo cheio de preconceito. Eu e outros alunos da ECA fomos selecionados para o Festival de Cinema de Brasília e como não tinha passagem e hospedagem pra todo mundo dividimos assim, os que ganharam hospedagem pagaram a viagem de ônibus e os que ficaram na casa de amigos ou parentes foram de avião pelo Festival.

Fui de ônibus com minha grande amiga Ana Cabeças. Lembro que era umas 9 da manhã quando o ônibus entra na cidade. Eu e Ana ficamos espantados, parecia o antigo Egito, monumental, belo, avassalador. A partir daí não tinha discurso certo. Oscar NinguémMalha tinha entrado no meu coração. Desse momento em diante foi como se eu entendesse ‘o monumento no planalto central do país”.

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O impacto emocional surgiu na Catedral, eu ainda comunista de fim de carreira, pensei como um ateu podia fazer um ato de fé tão transcendente como aquela construção onde os anjos sustentam todo o alicerce.

Enfim, minha admiração por Oscar vai além das obras, mas como seu signo invadiu tantos pensamentos e artes no Brasil.

No cinema além dos filmes do Cinema Novo feitos pelo susto de Brasília e o “Idade da Terra” que no delírio glauberiano se transforma numa cidade futurista e ao mesmo tempo no centro das civilizações da Antiguidade. Mas Oscar tem uma participação espetacular em “Conterrâneos Velhos de Guerra” de Vladimir Carvalho. Ele diz atrocidades e incoerências sobre um massacre que houve na época da construção da capital federal. Pede pra desligar a câmera, mas o som continua ligado e a cena é um impacto para quem assiste, pois todo o sectarismo, e ele é comunista histórico, tem uma razão que a lucidez não aprova. Mas dentro da linguagem do cinema, vivemos um grande momento e uma experiência que só Oscar nos faz passar ao assistir a esse filme.

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Na moda, ele vive sendo referência. Mas o grande momento é quando em um ato Vera Cruz, a poderosa marca Forum nos anos 90 resolve olhar para o Brasil e lançar as hoje históricas coleções inspiradas na cultura nacional, como o cinema e a arquitetura e claro Oscar estava presente. Tinha meias com os desenhos dele, eu bem me lembro. Foi uma reviravolta na época. Vale lembrar que a marca voltou ao tema Niemeyer recentemente, na coleção de inverno 2007, mas na minha opinião sem muito sucesso.

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Forum inverno 2007

Enfim, a mamãe está sempre presente, guiando e ajudando seus filhos. Parabéns pelo centenário!

ESSA TAL DE ARQUITETURA NA MODA

Com um pouco de atraso desnecessário e provinciano, a moda brasileira passou a falar dessa tal arquitetura na moda.
O assunto já estava em evidência nos primeiros anos do começo do milênio, pois o estilista Cristóbal Balenciaga foi “redescoberto” e virou fonte de referência de uma nova moda. O arquiteto da moda estava de novo na moda.

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Não seja uma Balenciégua, arquitetura na moda não é minimalismo

Lembro de Costanza Pascolato falar que via garotas em Londres usando roupas que passavam uma idéia de vanguarda (as tais construções inspiradas no estilista espanhol), mas no fundo elas estavam repetindo modelos que na época dela, Costanza, já eram clássicos.
Mas isso não me incomoda tanto. O que preocupa é saber que arquitetura está se falando e com o que está se confundindo.
A arquitetura é a moderna e sua relação com a funcionalismo e a correlação direta na moda é com o chamado minimalismo.
Acredito que ambas depuram a forma e buscam a essência do objeto, mas não é porque o estilista é minimalista que ele trabalha a arquitetura da roupa, até porque Balenciaga era tudo, menos minimalista.

A arquitetura na moda está ligada à silhueta e à proporção. Não adianta, por exemplo fazer uma estampa gráfica por que o trabalho de construção não está nesse item e sim o de ornamentação.Além dessa confusão grosseira, o que vemos no Brasil é uma construção inspirada em arquitetura ou referindo-se a ela de maneira canhestra que muitas vezes é melhor chamar o Contru.

Tenta-se construir uma Brasília e sai um Palace 2.