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AMAPÔ ALEGRA O NOSSO DIA COM UMA NOVA ELEGÂNCIA INFORMAL

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Tava tudo tão triste nesse inverno, tudo tão sem energia e fúria até que chegou o último dia e finalmente as cores vivas voltaram a fazer a nossa festa no SPFW. E fazer mais sentido para uma moda que quer sua identidade mas ainda cópia as tendências interancionais pra se sentir confortavelmente globalizada, mas que no fundo ainda é o bom e velho colonialismo. O preto – na quantidade avassaladora apresentada nas passarelas do evento – faz pouco sentido no nosso país, não que ele deva ser excluído, peloamor de jeito nenhum, – o pretinho além de básico, é um clássico – mas essa avalanche de roupas de velório estava desesperadora. Chegou um momento que eu já pensava brincado ao ver os vestidos negros passando na minha frente: Esse eu vou no enterro do Niemeyer, esse eu vou no velório da Hebe, esse eu vou pra minha própria cremação…
Que alegria ver uma marca jovem já com tanto estilo e caráter. E foi essa espontaneidade que fez a moda de Carol Gold e Pitty Taliani, sempre cheia de estampas incríveis e vibrantes – e que se repetiu nessa coleção – contribuir para uma questão importante na moda e principalmente na moda feita no Brasil: o trânsito da elegância na moda formal para a moda informal. E o recado que ficou: é na informalidade que está uma nova elegância. E sim, faz muito sentido no nosso país, assim como a informalidade cool das Havaianas, o nosso produto mais exportado e desejado.
Pessoalmente uma das coisas que mais me encantaram foi elas se aproximarem da alfaiataria e darem exemplos daquilo que eu tanto almejo para a moda masculina, uma alfaiataria à serviço do streetwear que é muito mais a cara dos nossos tempos. Como já disse, o terno pra mim é o espartilho do homem contemporâneo. Veja que alegria dos executivos em momentos mais descontraídos como os happy hours desabotoando o colarinho, sibundo a gravata pra cabeça e tirando o blazer como se tivessem arrebentando uma algema. Essa imagem do happy hour nos causa um certo arrepio pelo gosto duvidoso dos executivos se “enselvajarem”, mas na rave da Amapô não tem lama certa, o resultado é inusitadamente brilhante no diálogo entre a roupa formal e informal no nosso país.
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O raver-emo-punk recorta o terno de seu pai, ou opta pela informalidade do jeans em alfaiatarria pra sentir-se mais confortável nessa grande novidade que as estilistas nos apresentam: uma subversão do status da alfaiataria como só o hedonismo e no underground são capazes de fazer.
Amapô é só sucesso!
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SEMANA LULA RODRIGUES: MODA MASCULINA E O NOVO HOMEM


Antes de mais nada quero deixar claro aqui que quando digo e legitimo um discurso autônomo do streetwear em relação à alfaiataria é porque penso que muitas das amarras da moda masculina passam por essa questão. Não é negar a alfaiataria, de maneira nenhuma, até porque minha crítica não passa por ela enquanto processo de fazer roupa e nem a desautoriza como uma grande contribuição do Ocidente para a vestimenta masculina, mas sim questiono hoje a sua idéia, sua lógica cartesiana. Penso nisso muito dentro de um mergulho da minha memória por um desfile memorável de Karlla Girotto para o verão 2007. A estilista já vinha discutindo o gênero assim como algumas coleções masculinas de Herchcovitch, mas dessa vez ela fez um tratado sobre a moda masculina e feminina.
A moulage faz a mulher flutuar, é pura poesia que enlaça o corpo, já a alfaiataria é mais pesada, medida, mais pé no chão. Será que o streetwear não poderia ser a moulage da moda masculina? Será que não chegou a hora dos homens encontrarem mais poesia em suas roupas?
Por fim, dando uma de Caetano Veloso, é importante ressaltar que a saída também pode estar na alfaiataria, tudo é possível, ou não…

Karlla Girotto, os opostos se atraem
Voltando a questão do gênero, o feminino parece querer sair do armário do homens. Veja uma grife tradicional como a YSL, por exemplo…

ser um homem feminino – YSL verão 2009

Faz algumas temporadas que a Prada tem investido em um homem mais feminino. Nessa temporada aqui e lá fora, esse homem parece dominar as passarelas. O que realmente desse homem pode chegar às ruas, já que os homens são muito conservadores na hora de vestir?

Prada verão 2009

Prada verão 2008

Prada verão 2007

A Miuccia [Prada] e o Raf Simons encabeçam uma lista de criadores que trabalham um laboratório de mudanças fundamentais no closet masculino. Mas, não são loucos a ponto de fazerem roupas que não vendam. A Miu Miu masculina – a mais criativa, segundo Colin Mc Dowell para meu blog – acabou, o foco lab agora é na Prada. Na Jil Sander, Simons está preso a contrato de vendas. Na sua signature line, pode fazer experimentos e leva-los para a grife Jil Sander.

Miu Miu verão 2007
Isso vem acontecendo desde os anos 2000, digamos, sendo generosos. Acredito que tais mudanças, tais laboratórios estejam conectados à procura da nova silhueta do terno executivo contemporâneo. Por um simples motivo: quem EMPLACAR a nova silhueta do terno do homem de negócios, do estadista, do clero sem batinas e e afins, e não apenas nos fashionistas e modernos, entra para o hall of fame da moda contemporânea, ou melhor, em letras garrafais, entra para a HISTÓRIA.
Vale lembrar que tudo começou em Versailles quando os alfaiates de Luiz 14, tiveram a idéia brilhante de fazer as 3 peças num mesmo tecido, estampa e cor, estava criado o terno de 3 peças: calça, paletó e colete, – daí terno. Depois, tudo foi adaptação.
Para encurtarmos a história, nos 60´s Pierre Cardin, criou o terninho curto e justo, sem lapela que foi devidamente copiado, renovado e usado pelos Beatles, via o seu empresário. Foi copiado por modernos e fãs do mundo inteiro. Acabou, saiu de moda. Já não me lembro quantas vezes fiz matéria no Ela [caderno do jornal O Globo], tendo como pauta, o novo terno.

Se você observar, tem no mínimo uns 10 criadores apostando na nova silhueta. Foi tema de pesquisa do WGSN [bureau de tendências] _ a nova alfaiataria. Fazer uns poucos fashionistas usar é simples. Nada fora do normal. Agora, convencer todos os homens de negócios do planeta usarem – de Nova York a Xangai _ ai são outros quinhentos. Quero estar vivo e bem esperto, velhinho, para ver … e adotar, of course, a novidade hehehe.

SEMANA LULA RODRIGUES: MODA MASCULINA, O STREETWEAR E A ALFAIATARIA


Particularmente acredito que o avanço da moda masculina está no streetwear, mas não gosto de vê-lo subjugado à alfaiataria. Por exemplo, tanto o Marcelo Sommer como o Alexandre Herchcovitch só começaram a ser valorizados quando começaram a aplicar uma alfaiataria mais elaborada ao seu streetwear. Penso que o streetwear deve ter seu valor em si e não acoplado à alfaiataria. Sim, a alfaiataria é um dos valores máximos da roupa ocidental e ocidentalizada para os homens, mas tenho a leve intuição que ela se esgotou, seu modelo cartesiano está com os dias contados. Mas é só uma intuição…

As marcas de streetwear só recebem aval da moda quando dominam a alfaiataria. Realmente ela é tão importante assim ou a alfaiataria é uma adequação do streetwear às normas do “bem vestir” tirando o seu espírito mais libertário?

As marcas de streetwear têm seus próprios códigos e seu próprio público, no espaço que um dia foi gueto. Não precisam ter aval da moda mainstream.
Por que o Monsiuer Bernalt Arnault da LVMH levou o Marc Jacobs e esse levou para o templo Vuitton o Pharrell Williams? A Chanel tem o olhar do kaiser generoso para a moda das ruas, o que faz com que ele esteja na direção da maison há 25 anos. Por uma simples questão: vendas … vendas … vendas.

pharrell + jacobs
Vivemos uma era de mudanças dos jogos do poder. P. Diddy senta no front row da Dior Couture, ao lado da Anna Wintour, para prestigiar as criações de Galliano, que nunca escondeu seus fundamentos street culture (isso está no documentário “Mulheres no Poder”, exibido pelo GNT, que deu muita pista para o filme o Diabo …).

Sean “P. Diddy” Combs
A adequação da moda de ruas aos cânones da alfaiataria é conseqüência de seu crescimento. O jovem saiu do gueto e precisa trabalhar nos universos corporativos, tendo já passado pela universidade. Por que não lhe dar opções formais dentro do seu universo de consumo?
O tema já foi capa da revista DNR, mostrando o que é o streetwear contemporâneo. É preciso, no entanto, que entendamos esse movimento não como caretice ou adequação aos modelos dos brancos, e sim como um crescimento, maturação. O branco mainstream bebe continuamente na fonte da cultura das ruas, que se espalhou por todo o planeta. E, como diria a fake Miranda/Wintour, do filme _ não gosto_ Diabo veste Prada: “that´s all”.

MAIO DE 68 E A MODA

Ao observar a foto acima de Henri Cartier-Bresson percebemos claramente o retrato de uma era. Maio de 68 é uma data simbólica de uma mudança cultural radical: os jovens no poder, pelo menos no poder da imagem.

Se hoje vivemos uma crise de autoridade e também uma exaltação da juventude, eles são resultados desse confronto entre velha e nova geração. Até então a sociedade fazia o elogio dos adultos, hoje, a nossa ode é pela juventude. E uma peça fundamental foi a mini-saia. Considerada por muitos fashionistas como a última grande invenção da moda, ela é unicamente jovem, sempre quando alguém com mais idade “ousa” estar de mini-saia, vide Susana Vieira, é sempre ridicularizada.

Outra questão importante vivenciada pelos mods dos 1960 e resgatada por Hedi Slimane no final da década de 1990 é o terno mais sequinho, ajustado ao corpo, sempre muito magro, afinal estamos falando de jovens que por meios genéticos são sempre mais slim na adolescência. Mas isso ainda está muito vinculado ao século 19 e toda uma tradição estanque da moda masculina. A novidade veio do jeans, pelo caráter democrático e a camiseta, talvez a mais formidável peça urbana de todos os tempos. A camiseta é um outdoor ambulante, tela para o agit-prop, campos de idéias e individualidades. Apesar do desprezo dos fashionistas pela camiseta, principalmente pelo trato esnobe que a peça dá à alfaiataria, ela ainda é um campo fértil de novidades mesmo sendo um quadrado.

As frases dos muros saltaram para as camisetas!

Com a simbologia de 68, a roupa pode ser nudez, pode ser finalmente e verdadeiramente voltar-se para o seu papel: construir individualidades.

 

PS: Em 2008, uma banda como Sigur Rós concebem um video nesse porte, o “Gobbledigook” porque hoje vivemos ainda sobre o fluxo, para o bem e para o mal, de Maio de 68.

 

SPFW: OSKLEN – MÁGOAS DE CABOCLO, LISTRAS E O NOVO STREETWEAR

Desfile da Osklen, sala cheia. Peço para uma assessora um lugar, ela fala para sentar na cadeira última da imprensa internacional. Minutos depois uma outra assessora me tira dali. Sala cada vez mais cheia. Espero um pouco em pé, calmo, sem faniquitos. E sem chiliques, decido me retirar depois de ver que seria impossível sentar em qualquer lugar que fosse.

.A relação entre jornalista e assessoria é uma coisa complicada. As assessorias precisam dos jornalistas para promover seus clientes e os jornalistas, ultimamente, precisam das assessorias para gerar notícias. Nessa relação promíscua, pois muitos assessores e jornalistas são amigos ou parecem ter uma relação amigável, acaba-se sempre se confundindo tudo e todos em ambos os lados.

Alice Ferraz, que por exemplo sempre se fez de “amiga” minha, acho que descobriu agora que não sou mais repórter-redator do GNT Fashion, coisa que não sou há mais de um ano e simplesmente me riscou de sua lista de convidados. Nenhum de seus inúmeros convites que chegavam em casa veio dessa vez. O que mostra o meu enorme desprestígio em sua assessoria homônima e também do jornal da Folha de São Paulo, jornal que sou colunista e colaboro com regularidade para com a editoria de moda, fato que acontece também nessa temporada. Apenas um detalhe: Alice não é assessora da Osklen!

Mágoas de caboclos acesas porque infelizmente no mundo da moda é sempre o barraco que impera, mas meu império é outro…

Voltando a Osklen, resolvi ver o desfile no conforto refrigerado da sala de imprensa. Claro que só acredita no discurso da objetividade jornalística quem faz esse discurso ou o exige, mas nunca exerceu a profissão, porque essa objetividade é repleta de subjetividade e por esse motivo conto aqui toda essa saga. Quero dizer que fui ver o desfile com um pouco de mau humor e meio sem vontade tanto que nos primeiros looks o xoxo brotou forte: “Ih, Oskar fez uma Emília em crossover (olha a biologia aí, gente) com Pimentinha na fase delinqüente juvenil que acabou de deixar o xilindró com tanta listra”.emilia.jpg foto Charles Naseh – site Chic Emília, Emília, Emília… ou seria Pimentinha

Mas quando a coisa é boa, não tem mágoa de caboclo certa e a coleção foi me conquistando, recebendo meus elogios em voz alta. E por fim, alguma objetividade tem na crítica a seguir:

Osklen alarga com listras o conceito do streetwear

Desde a coleção sobre o vento que a Osklen não soprava novidades tão promissoras na passarela. A cidade vista do alto como uma grande plantação de colheita de idéias. A cidade vista nas luzes dos carros em movimento (as listras), das idéias em movimento.

Da idéia que os tecidos tecnológicos podem ser naturais como o couro vegetal. Da idéia que um novo unissex sem ser uniforme e uniformizante imperará pelas ruas. E principalmente da idéia que o streetwear pode (e deve) ser explorado como uma das grandes metrópoles que inspiraram a marca. Explico: existe um senso comum em moda que os estilistas de streetwear só passam a ser realmente respeitados quando dominam a alfaiataria.

Fato que muitas marcas fazem a passagem, entre eles a Osklen, mas com a conquista do domínio da alfaiataria e sua sedução, existe sempre a perda de um pouco do imperfeito, do “sujo” do streetwear “de raiz”, que no fundo é a verdadeira moda de rua.

osklenunissex.jpg  foto Charles Naseh – site Chic  

o novo unissex da Osklen 

Com a alfaiataria existe uma glamourização do streetwear e isso a Osklen tem feito em inúmeras coleções passadas. Pela primeira vez, a alfaiataria estava a serviço completo do streetwear, mostrando uma inversão de movimento. Movimento esse que ainda iluminará muito a nossa moda.