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O DRAPEADO OU ESSE NÃO É UM POST SOBRE TENDÊNCIA

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Muito tem se comentado sobre a aparição dos drapeados nas coleções de primavera-verão 2010. Ao sair do desfile de Gloria Coelho, Gustavo Lins, o único brasileiro que desfila na semana de Alta Costura de Paris, disse duas frases que me intrigaram. Alcino Leite brincava em tom de zombaria que para ele era difícil escrever drapê, drapeado e Gustavo Lins respondeu que esse era apenas só o começo e que iríamos ver muitos drapeados nas proximas coleções. Intrigado e sabendo que Gustavo não falava isso apenas como frase de efeito – ele é inserido profundamente no meio de moda -, perguntei o porquê. Ele disse que a moda estava encerrando um ciclo barroco e entrando em um clássico.
Para quem não sabe, o Barroco é o jogo de contradições, a força que surge do confronto de forças opostas, isso é, o caos. É nessa chave que encontramos estilistas e marcas importantes como a Prada – escrevi sobre isso faz algum tempo -, Marc Jacobs, Alexandre Herchcovitch, Balenciaga. A confusão e a simultaneadade de referências – numa mesma coleção podemos ter anos 20, 40, étnico, por exemplo – é um exemplo claro de uma atitude barroca, enfim, o arquétipo do caos.
Já o clássico ou classicismo ou iluminismo representa a ordem. E se vocês repararem em toda a história do mundo sempre vem um período de caos e outro de ordem, eles se realimentam. No Ocidente, a ordem vem com os símbolos da Grécia. Não à toa que Renascimento, Arcadismo, Parnasianismo olharam para os valores gregos e greco-romanos para estabelecerem a ordem no mundo.
Estamos agora num momento de passagem (como foi o Rococó) e nada como o drapeado – um franzido que forma ondulações enrugando o tecido ou em outras palavras uma desordem que forma uma ordem – ser o símbolo do que estou falando.
Também estamos assistindo sinais de revitalização de nomes que apostaram muito no drapê. Hoje, evidencia-se o drapeado através da recuperação da importância de Vionnet – nome da grandeza de Chanel – com exposição no Les Arts Décoratifs, em Paris. E também de Alix Grès, mais conhecida como Madame Grès, a mestre do drapear.
Alaxandre desfilará agora a pouco uma coleção com clássicos da moda masculina e Costanza atualmente só escuta clássico tanto da música erudita como da pop. Sim, são meus drapeados de idéias, são as contorções de meu pensamento, mas algo deve estar sendo sinalizado e não é uma tendência, é exatamente um novo ciclo.

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COSTANZA E EU

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Matéria paga pau, mas eu pago pau mesmo pra Costanza Pascolato sem nenhum constrangimento. Em uma entrevista longa [que boa parte foi editada para o bem do ritmo de uma matéria], porque também aproveito pra conversar com ela sobre a moda e o mundo, ela falou de seu novo livro “Confissões de Costanza” que vai ser lançado no mês que vem, música – que foi o nosso elo de contato e foi assim que começamos a conversar sempre em todas as temporadas – e é claro, moda. Tudo isso, pela visão dela, sempre particular, articulada, meio olho de Tândera ou como em uma outra conversa, eu e Alcino chegamos a uma conclusão, Costanza é nossa maior pensadora de moda!
Veja como foi!

ALEXANDRE DJ E A SUA NOVA COLEÇÃO MASCULINA

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Na saída da In Brands, ops Ellus, encontrei o Alexandre Herchcovitch e como uma boa herchcovítima que sou fui conversar com ele. Alexandre contou pra mim um pouco sobre sua outra profissão: DJ. E aproveitou para falar sobre a nova coleção masculina que ele desfilará na segunda, dia 23, no último dia do SPFW. Confira a nossa conversa no Vírgula.

O BRINDE DE ALEXANDRE

Um dos brindes mais disputados de todos é o do Alexandre Herchcovitch, alguns são disputados a tapa [uma verdadeira bárbarie no suposto mundo onde todo mundo é elegante], ou simplesmente as elzeiras mais rápidas liquidam rapidinho os mimos colocados na primeira fila, uma coisa se ficar o bicho come se corre o bicho pega.
Dessa vez ele nos presenteou com uma almofada com uma caveira. Nnao eprdi tempo e fiz para o Vírgula uma enquete dus infernus. Veja o vídeo aqui

ORIENTE-SE NO OCIDENTE DE ALEXANDRE HERCHCOVITCH

Era futebol americano o que dizia o release, esportes coletivos que sempre nos trazem ideia de violência, de competividade e dos arquétipos ligados à testosterona. Então se esperava uma mulher forte, competitiva como manda as regras do capitalismo ocidental. Mas o que se via era pura delicadeza, pois como o próprio Alexandre sempre diz, “minha mulher é sempre a mesma”, pois mesmo perversa, com chifres, com roupas tecnológicas que acendem, com perucas que lembram o orixá Omulu, ela continua feminina e doce.
Ao longo do desfile não conseguia ver o tal futebol americano, apesar de algumas referências explícitas como a bolsa em forma de bola. O que via de fundo era o Oriente [Herchcovitch tem uma loja no Japão]. Passavam na minha frente as Hello Kittys, os mangás, a princesa Safira vestida de menina, os Tomodachis, as bonecas orientais que vejo nas feiras da Liberdade e era nessa chave que entendi a suavidade, a feminilidade da coleção. Onde era pra ser cheeleaders, eu vi lolitas e lolipops.
E os crepes georgetes de seda só indicavam leveza, assim como o cetim de seda me indicava o Oriente.
O futebol americano era a couraça para tal doçura, os ombros eram o suporte para delicadas armações, mas no look final está a clara visão que Ocidente e Oriente não são tão distantes assim da mesma forma que doçura e força bruta.

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não vejo torcidas, vejo o Oriente[tenho certeza que Tsumori Chisato iria amar esse look]

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o látex mais leve do mundo

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ombros que flutuam

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lolitas e colleges de Tóquio

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princesa Safira vestida de menina

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o look final que une forças aparentemente opostas

O “LIFESTYLE CARIOCA”

Bem, eu nem escrevi o texto e ele já virou discussão pelo simples fato de eu mencionar no post anterior que o “chamado ‘lifestyle carioca’ era […] um grande equívoco conceitual e ideológico”. O bairrismo gritou alto, mas ele só comprova a força do que digo. Essa tal de lifestyle carioca é uma idéia tosca e pequena.
Sim, sou paulistano e isso pode ser a desculpa para que tudo acabe em mais uma disputa cidade contra cidade. Mas esse texto é exatamente à favor do Rio de Janeiro em certo sentido. Não podemos nos esquecer que até os anos 70, a cidade era o centro da moda e do estilo no país. Lembro de muitos verões viajar com meus pais para passar férias na cidade, na casa de minha tia, e aproveitarmos para fazermos compras. Não porque as roupas eram mais baratas, mas porque tinham mais informações de moda, eram mais “bacanas” como meus próprios pais costumavam dizer. Isso tudo mudou a partir dos anos 80, mas isso é outra história, apesar de fazer parte dessa que estou descrevendo…
É muito engraçado as duas semanas de moda na cidade: o Fashion Rio e o Rio Summer tocarem sempre na tecla do “DNA carioca”. Isso é, semanas de moda nacionais que exaltam o modo de vida do Rio.
Alcino Leite escreveu na época da primeira edição do Rio Summer em seu blog em um post chamado “Ajuste Contemporâneo”:
Entre os anos de 1940 e 1970, para ficar neste século, o Rio de Janeiro viveu um apogeu cultural, agremiando os principais talentos do país na música, na literatura, no teatro e em outras artes _bem como os principais símbolos da elegância nacional. Neste período, ali se determinava o estilo brasileiro de vida.
Por isso, é natural que imagens nostálgicas e retrôs tenham pontuado os desfiles do Rio Summer, como na grife Adriana Degreas (que estampou o rosto de Carmen Mayring Veiga e paisagens cariocas antigas em um tecido de tom amarelo-velho) ou na grife Cris Barros (que exibiu no telão um filme em preto-e-branco com cenas do Rio no final da década de 50 ou dos anos 60).
Bem, já que esta época acabou, valeria, no próximo Rio Summer, se debruçar sobre a riqueza sociocultural contemporânea da Cidade Maravilhosa e as suas novas imagens fashion, já exploradas inclusive por várias revistas brasileiras e estrangeiras: a energia do funk; a Copacabana trash, com seu universo de putas, michês e travestis; e o kitsch da Barra da Tijuca _para citar os mais óbvios.

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Enfim, os funkeiros da Blue Man
Lembrando agora de cabeça, além das muitas tentativas da Complexo B, acho que só a Blue Man fez um desfile realmente importante incorporando esse universo mais contemporâneo, a coleção primavera/verão 2004 feita com os funkeiros cariocas. Enfim, o contemporâneo no Rio não parece nobre ou tão fashion assim aos olhos dos criadores de moda local. De resto, é sempre a mesma ladainha da bossa-nova, da Ipanema e Copacabana de tempos míticos, uma chatice enfim… Algo parado no tempo!
Só precisa afirmar sua identidade quem tem problemas com ela, quem não tem certeza que a decadência que vive passou por alguma civilização, ou a incipidez resultará em algo diferente no futuro.
O Rio, ao precisar ficar se autoafirmando que tem um modo de vida [em sua parte congelado no passado], não olha pra frente, nem para os lados. Não pensa grande, fica ensimesmado em uma idéia de moda canhestra. O que é regional ou o que é brasileiro aparece de alguma forma, sem precisar necessariamente levantar uma bandeira ou apontar para esse detalhe como uma qualidade em si. Existe algo mais regional do que Alexandre Herchcovitch fazer uma coleção sobre o Zé do Caixão [pensando que os dois são paulistanos] ou mais brasileira que sua coleção sobre os bóias frias, mas isso nunca se tornou um valor em si, isso faz parte da construção de algo maior.
O que é tacanho na idéia de lifestyle carioca é que ele ganha um valor em si, quando é só um detalhe. Não há valor nenhum apenas pelo fato de você ser carioca, ou paulista, ou mineiro, ou brasileiro, isso é mitificação e mistificação e o Rio só tem a perder se congelando nesse estigma.
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De costas para o mundo, de frente para um passado congelado

AINDA SOBRE AMIR SLAMA…

Na sexta, fiquei discutindo (de forma saudável e dinâmica) com Fernanda Resende, via posts e depois por telefone a minha falta de energia de ver algo bom e positivo na substituição de Amir Slama por Alexandre Herchcovitch. Ela via com otimismo um biquini feito por Alexandre, eu não via com tanta euforia até porque seria Herchcovitch para a Rosa Chá, uma marca que tem seu estilo e imagem já firmados e não um biquini 100% com a personalidade de Alexandre.
Houve uma animação excessiva, no meu ponto de vista, naquilo que realmente se configura o fato. Herchcovitch ser o novo diretor criativo da Rosa Chá é apenas areia para os olhos de questões mais sérias.
Disse que o entusiamo dela era o mesmo que vi milhares de fashionistas saudando, guardada as devidas proporções, é claro, a entrada de Tom Ford substituindo Yves Saint-Laurent em sua própria marca. Claro que isso pode ser uma posição conservadora minha (eu odiei na época – não depois – quando soube que Tom Ford tomava o lugar de Saint-Laurent. Aliás, nunca engoli muito a “Era Ford”). Mas também pode ser que esse otimismo, no fundo, esconda uma crueldade mórbida pelo novo apenas pelo novo, e também um desrespeito pelo que durou anos se construindo: a imagem de uma marca (isso eu falo não da Fernanda, mas de uma atitude fashionista de achar “legal” toda e qualquer mudança apenas pela mudança). Ela finalmente cedeu e concordou comigo.
Sobre as mudanças na Rosa Chá, que nem serão muitas como eu mesmo tinha escrito nos comentários aqui, acho que Alcino novamente levantou boas reflexões sobre o ocorrido em seu blog.
Acho que também boas pistas foram dadas pelas duas entrevistas com os estilistas no “blog” da Lilian.
Alexandre explicando de maneira difícil de entender como conseguiu ser contratado por um grupo aparentemente rival. Novamente, é claro, guardada as devidas proporções, é como se ele fosse da LVMH e fosse contratado também pela PPR. Estranho!
E de Amir falando que o seu “ambiente de trabalho diurno estava cercado de verdades colocadas que faziam meu estômago se contorcer”.
Mais abaixo da entrevista do Alexandre, , ainda no site, ops blog da Lilian, tem um editorial chamado Orfanato fashion sobre marcas importantes que formaram a hoje chamada moda brasileira: Zoomp, Sommer, Fause Haten, Forum que foram compradas por grandes empresas, seus criadores despedidos e algumas hoje simplesmente nem mais existem.
É essa questão que tira o meu otimismo, esse histórico. Como se dá a relação desses criadores que ganharam um bom dinheiro pra venderem as suas marcas, se tornaram diretores criativos e não conseguiram ter o enfrentamento político necessário para continuar no comando criativo da marca? Qual o papel dessas empresas, sem vilanizá-las, na dificuldade de compreender a compra de uma marca que já tem uma imagem e um estilo? Se essas questões não forem logo resolvidas, Amir Slama não será o último a sair de uma marca que ele próprio fundou. E que resultados de imagem e produto saíram e sairão desse embate?
Como disse recentemente o filósofo suíço Alain de Botton: “Para ser feliz, esqueça o otimismo”!
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com crédito, é claro, para Maihara Marjorie