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A HIPERMAGREZA NA MODA SEGUNDO A FOLHA DE SÃO PAULO

Hipermagreza domina passarelas da SPFW

FERNANDA MENA
NINA LEMOS
da Folha de S.Paulo

“Gente, o que é isso, essa menina está doente?” A frase, de um fashionista sentado na primeira fila de um desfile da SPFW, ilustra um espanto recorrente na atual edição do evento: as modelos estão mais magras do que nunca. Prova disso é que estilistas estão tendo dificuldades em montar seus “castings”, fazem ajustes de última hora e escolhem peças estratégicas que escondam os ossos saltados das modelos.

Na SPFW da magreza radical brilham modelos na faixa dos 18 anos, que têm índice de massa corporal, calculado pela Folha, igual ao de crianças de 9 anos. No mundo dos adultos, a Organização Mundial da Saúde chama esse índice de “magreza severa”.

A explicação vem da top Aline Weber, 21, que mora em Nova York e participou do filme “Direito de Amar”, de Tom Ford. “Três coleções atrás, no auge do pânico antianorexia, as pessoas pesavam as modelos no backstage para ver se elas estavam saudáveis. Agora, a poeira baixou. Se você engorda um pouco, todo mundo está ali pra te julgar. Se você emagrece, falam que você está linda.” Aline diz conhecer muitas meninas bulímicas e anoréxicas fora do Brasil. “As russas são as piores”, conta.

O stylist David Pollak identifica o padrão supermagro europeu como uma das causas da onda que atinge a atual edição da SPFW. “Muitas meninas estão trabalhando fora e por isso estão supermagras. Estão dentro do padrão de Paris, que é esquelético.”

A magreza radical fez com que ele tivesse dificuldades na hora de montar o “casting” da Cavalera. “A marca tem uma imagem mais adolescente, saudável. Por isso, peguei meninas que não são badaladas [leia-se, as que ainda não têm carreira internacional]. Outros stylists tiveram de fazer o improvável: dispensar meninas de suas seleções porque elas estavam magras demais.

A onda tem feito eles inverterem uma antiga lógica da moda: ao invés de avaliarem roupas ideais para esconder, por exemplo, um quadril mais largo, têm de descobrir os looks que vão ocultar um corpo esquálido. “As meninas muito magras causam problemas. Seus ossos apontam num vestido de seda mais fluido. Ou seus corpos, muito estreitos, deixam a proporção toda estranha”, avalia o stylist Maurício Ianês.

Muito café

O estilista Reinaldo Lourenço não só percebe a hipermagreza das modelos desta temporada como também conta que teve que fazer hora extra por conta do fenômeno. “Tive que fazer vários ajustes de última hora em roupas que ficaram largas nas meninas, o que me deu o maior trabalho”, diz. Segundo ele, isso acontece porque a atual safra de modelos é “muito jovem”.

Nos camarins, longe da mesa de salgadinhos e quitutes –relegada aos jornalistas–, modelos desfilam com copos de café. “Identifico as mais magras como a turma do cafezinho, já que elas passam o dia todo tomando café para não comer e ficarem ligadas”, diz Pollak. Em entrevistas, elas escondem o peso e as medidas. “Não sei quanto peso. Nunca subo na balança”, disfarça uma delas.

Cristina Theiss, 18, jovem aposta da Ford Models, teoriza: “Para fazer passarela de inverno, precisa ser mais magrinha mesmo, porque as roupas são volumosas, enchem demais”. Para agências de modelos, o assunto ainda é tabu. Ou foi deixado de lado. “Magreza? Anorexia? Mas que assunto antigo, datado!”, diz um agente, interrompendo a entrevista da Folha com uma modelo. Basta olhar para as passarelas para ver que não é.

Moda tem que parar de sacrificar as modelos

ALCINO LEITE NETO
VIVIAN WHITEMAN
da Folha de S.Paulo

Chegou a um nível irresponsável e escandaloso a magreza das modelos nas semanas brasileiras de moda. As garotas, muitas delas recém-chegadas à adolescência, exibem verdadeiros gravetos como pernas e, no lugar dos braços, carregam espécies de varetas desconjuntadas. De tão descarnadas e enfraquecidas, algumas chegam a se locomover com dificuldade quando têm que erguer na passarela os sapatos pesados de certas coleções.

Usualmente consideradas arquétipos de beleza, essas modelos já estão se acercando de um estado físico limítrofe, em que a feiura mal se distingue da doença.

Essa situação tem o conluio de todo o meio da moda, que faz vista grossa da situação, mesmo sabendo das crueldades que são impostas às meninas e das torturas que elas infligem a si mesmas para permanecerem desta maneira: um amontoado de ossos, com cabelos lisos e olhos azuis.

Uma rede de hipocrisia se espalhou há anos na moda, girando viciosamente, sem parar: os agentes de modelos dizem que os estilistas preferem as moças mais magras, ao passo que os estilistas justificam que as agências só dispõem de meninas esqueléticas. Em uníssono, afirmam que eles estão apenas seguindo os parâmetros de beleza determinados pelo “mercado” internacional –indo todos se deitar, aliviados e sem culpa, com os dividendos debaixo do travesseiro.

Alguns, mais sinceros, dizem que não querem “gordas”, com isso se referindo àquelas que vestem nº 36. Outros explicitam ainda mais claramente o que pensam dessas modelos: afirmam que elas não passam de “cabides de roupas”.

Enquanto isso, as garotas emagrecem mais um pouco, mais ainda, submetidas também a uma pressão psicológica descomunal para manterem, em pleno desenvolvimento juvenil, as características de um cabide.
Um emaranhado de ignorâncias, covardias e mentiras vai sendo, assim, tecido pelo meio da moda, inclusive pelos estilistas mais esclarecidos, que não pesam as consequências do drama (alheio) no momento em que exibem, narcisicamente, suas criações nas passarelas.

Para uma semana de moda, que postula um lugar forte na sociedade brasileira, é um disparate e uma afronta que ela exiba a decrepitude física como modelo a milhões de adolescentes do país.

Para a moda como um todo, que vive do sonho de embelezar a existência, a forma como os agentes e os estilistas lidam com essas moças é não apenas cruel, mas uma blasfêmia. Eles, de fato, não estão afirmando a grandeza da vida, mas propagando a fraqueza e a moléstia.

O filósofo italiano Giorgio Agamben escreveu que as modelos são “as vítimas sacrificiais de um deus sem rosto”. É hora de interromper esse ritual sinistro. É hora de parar com essas mistificações da moda, que prega futuros ecológicos, convivências fraternais e fantasias de glamour, enquanto exibe nas passarelas verdadeiros flagelos humanos.

Ver também a entrevista de Naomi Campbell falando sobre o assunto para Eva Joory e a resposta do SPFW:


SPFW faz alerta sobre magreza a outras semanas de moda

ALCINO LEITE NETO
editor de Moda da Folha de S.Paulo

O empresário Paulo Borges, diretor da São Paulo Fashion Week, contou à Folha que a organização do evento está encaminhando uma carta às maiores semanas de moda do mundo, bem como aos principais editores e fotógrafos internacionais, alertando sobre a magreza atual das modelos.

A carta foi elaborada logo após o Fashion Rio. “No evento, percebemos que as modelos estavam mais magras”, diz Borges. “Sentimos então a necessidade de fazer essa carta, porque o problema é mundial.”

Para Borges, são os grandes editores e fotógrafos que determinam os padrões de beleza representados pelas modelos. “Para mudar esse padrão estético que está se espalhando pelo mundo, você tem que ir ao topo da pirâmide da moda”, afirma o empresário.

Ainda mais que, segundo ele, as modelos brasileiras passam grande parte do tempo fora do país. “Algumas ficam mais em outros países do que aqui. Se lá fora não fizerem nada para reverter essa situação, nossa dificuldade para resolvê-la aqui será ainda maior.”

Controle

A SPFW realiza desde 2007 uma campanha de esclarecimento com as modelos a respeito de distúrbios alimentares. O evento também faz um controle sistemático das modelos que participam dos desfiles. Elas devem fornecer à organização atestado de saúde, documentação de trabalho e autorização judicial, se forem menores de idade. “Fomos pioneiros em tomar uma atitude sobre isso, como também em incluir sistematicamente os afrodescendentes nos desfiles”, conta.

Borges diz que, nesta edição da SPFW, duas modelos já foram impedidas de participar dos desfiles porque eram menores de idade e não tinham autorização judicial. “Fazemos o controle, mas não a seleção das modelos que participam. Isso compete às grifes, aos estilistas. Não somos coniventes com as escolhas feitas por eles, mas a escolha não está em nossas mãos.”

A CRÍTICA DE MODA

A vinda do professor de filosofia dinamarquês Lars Svendsen para o Pense Moda abriu uma discussão sobre a crítica de moda. Confesso que não li o seu livro “Fashion: A Philosophy” (Moda: Uma Filosofia) – que segundo as observações de Alcino Neto, no texto “Lições de Crítica e Liberdade”, me parecem interessantes -, mas seu recorte para mim não faz muito sentido hoje. Ele faz o diálogo entre moda e arte, enquanto acho mais salutar – na minha humilde opinião – o recorte entre moda e mundo ou moda e vida, para tentarmos constituir uma verdadeira crítica de moda. Se assim fizermos, todas as observações que Sylvain Justum fez da palestra de Svendsen ficam muito mais esclarecedoras.

Ao mudar o eixo arte para o eixo mundo, temos também maior clareza do papel do crítico. Ora, ele está no mundo, é agente ativo e passivo dos acontecimentos, então temos aí um primeiro passo: o crítico como sujeito. Diferente da ação jornalística que prima pela aproximação com a objetividade e com o imediatismo, a crítica necessita da subjetividade e do tempo de fermentação. Existe um tempo para que aconteça o encontro do que foi visto e o que irá ser refletido. Às vezes ele é muito rápido, mas nem sempre – ou quase nunca – ele tem a velocidade do jornalismo porque ele carrega subjetividade e não a objetividade prática das notícias.

Antes de falar desse paradoxo da rapidez do jornalismo de moda com o tempo da crítica, queria deixar claro que a questão da subjetividade que falo no papel da crítica não significa essa exarcebação do eu que vemos nas redes sociais e em muitas resenhas de moda sobre os desfiles, cheias de opiniões sem contextualização. Ela significa esclarecer ao leitor seus gostos, deixar claro sua linha de pensamento e sua visão de moda.

Se no jornalismo a velocidade da informação é cada vez maior, no jornalismo de moda ela é supersônica. Descarta-se com facilidade espantosa o que acabou de acontecer tornando-se antigo o objeto que acabou de surgir por não ser mais novidade e assim, sem os olhos e o debruçar dos jornalistas/críticos, tal objeto de assunto perde qualquer interesse de reflexão. Isso faz parte da dinâmica do jornal, mas não da crítica.

E uma postura que o crítico de moda deve adotar é resistir heroicamente em concordar com esse tipo de dinâmica, ele deve agir contra essa atitude para assim historicizar o objeto de moda. Só o que está – e permanece – no mundo e na história do mundo é que tem valor crítico, então colocar, recolocar, relembrar seja os desfiles, as peças de roupa, uma atitude comportamental na história, e não descartá-la como notícia antiga é papel crucial da crítica de moda. Refletir sobre coleções passadas, a história do estilista, as roupas das pessoas nas ruas de todos os tempos e outros ângulos da moda deve ser o motor da crítica de moda. Aqueles que fazem sua resenha pra embrulhar peixe no dia seguinte estão longe de uma verdadeira apuração crítica. E nesse sentido devemos colocar a crítica de moda em confronto – saudável – com o jornalismo de moda.

Por fim, por a moda estar em diálogo com o mundo, tudo que é do mundo pertence à moda, inclusive a arte. E a crítica não deve se abster de olhar o mundo através da moda. E no mundo não tem fórmulas, exatamente por isso a crítica de moda também não deve ter, da mesma maneira que não existem duas pessoas iguais em tudo no mundo, não deve ter milhares de “críticas” de moda iguais como o que ocorre ainda hoje. Acreditar que falar das tendências, da cor e da modelagem de tal coleção, está se fazendo uma crítica, pois assim se formatou um pensamento durante um tempo (obscuro) é trair não só a sua subjetividade, mas também a sua capacidade de ser um sujeito ativo no mundo – um crítico.

Será apenas esse o lugar da crítica de moda?

CASA-GRANDE & SENZALA

As finas observações de Alcino Neto são sempre grandes mudanças de perspectiva. Alguns anos atrás, ao visitar, no Rio, uma exposição que não me recordo o nome, mas versava sobre as roupas do Brasil antigo, ele comentou comigo algo assim: “É muito interessante perceber como a moda brasileira se divide desde os seus primórdios entre a moda feita na imagem da Casa-Grande e a que é feita na Senzala. Pense em Reinaldo Lourenço e Gloria Coelho e eles são da Casa-Grande, pense na Neon, na Amapô e eles são da Senzala. Pense em Clodovil e Dener e eles fazem parte da Casa-Grande, já Zuzu Angel é Senzala”.

Longe de qualquer maniqueísmo e esquematismo radicais e mais longe ainda dessa observação parecer pejorativa para ambos os lados, ela desenha muito da mentalidade brasileira: uma que se liga com a exuberância da ancestralidade européia e outra que se desnuda na ancestralidade africana. Existe um nome em astrologia que gsoto muito e serve para o que acabei de descrever: oposto complementares. Uma se preenche com a outra e ao mesmo tempo se opõe.

Durante muitas vezes pedi para Alcino escrever sobre esse pensamento que muito me persegue e conversando com Fernanda, da Oficina de Estilo e contando dessa visão teleológica de uma moda feita no Brasil – não sei se o termo moda brasileira é pertinente -, ela me pediu para eu continuar a reflexão do Alcino, ou pelo menos colocá-la no blog.

Ao mesmo tempo, acabei de ler uma entrevista do artista plástico Nuno Ramos que veio alargar o conceito iniciado por Alcino:

Tassinari fala de duas tradições do pensamento brasileiro. De um lado, Euclydes da Cunha, Oswald de Andrade, Gilberto Freyre, Nelson Rodrigues, Guimarães Rosa, Zé Celso, Glauber Rocha e Hélio Oiticica; do outro, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Niemeyer, concretos, João Cabral, bossa nova, tropicalismo. No meio: Carlos Drummond de Andrade. E afirma que você opera esteticamente nos dois campos. Concorda?

NUNO RAMOS – Drummond é a coisa mais livre que o Brasil produziu, o artista que topou olhar para este patrimônio peculiar brasileiro: o da indecisão constitutiva entre o moderno e o atraso, entre o gentil e o violento. Drummond descreveu esses dois polos contrários como irmãos gêmeos, amarrados, desencapando os dois fios e fazendo ligação direta entre eles. Dos dois outros lados, me identifico com o primeiro, talvez, pela estridência estilística, mas principalmente com o segundo, o lado Goeldi-Bandeira-Nelson Cavaquinho, que escapa desse nasce-morre drummondiano e mergulha direto na derrisão nacional. Fico pulando de um lado para o outro.

Apesar das questões complexas nessa separação, podemos identificar o primeiro grupo citado na pergunta com a Senzala – fazendo certas concessões – e o segundo com a Casa-Grande. Mas existe um terceiro grupo – que na opinião ideologizada de Nuno é de suma e maior importância e na minha opinião do mesmo porte ideologizada considero que é da mesma importância e medida que os outros:

São as mucamas, os negros que frequentavam a Casa-Grande e que faziam o trânsito entre a Casa-Grande e a Senzala. Nesse grupo penso muito em Alexandre Herchcovitch, Lino Villaventura, Samuel Cirnansck.

Sim, ainda aparentemente esquemático, pensar nessas 3 moradas da moda feita no Brasil e o pensamento que rodeia cada uma delas, facilita o entendimento que o crítico e o apreciador de moda possa ter sobre as coleções, dos seus limites e das suas rupturas. Mas isso é assunto para o próximo post.

PS: Ainda fazendo esse exercício podemos pensar também na nossa moda praia: Lenny é Casa-Grande, Salinas é Senzala e Blue Man está entre as mucamas e assim vai…

CASA DE CRIADORES – QUARTO DIA E JOÃO PIMENTA


João Pimenta faz a moda masculina galopar a passos largos em sua coleção Inverno 2010, apresentada em desfile na noite desta quarta-feira (25), no Shopping Frei Caneca, dentro da programação da Casa de Criadores. A programação foi seguida por Milena Hamani, Ronaldo Silvestre, No Hay Banda, R. Rosner e Urussai.
O estilista se inspirou nos vaqueiros nordestinos e foi o destaque desse quarto dia de evento com uma coleção sofisticada e rural. Como havia alertado o editor de moda da Folha de S. Paulo, Alcino Leite Neto, em seu blog Última Moda, “depois da [coleção Verão 2010 da] Chanel, podemos falar de ‘moda rural’ sem medo”, referindo-se ao excessivo e desgastante uso da palavra urbana nas inspirações dos estilistas nacionais e internacionais.
Um detalhe importante para além de todo o provincianismo, João Pimenta já tem feito há três coleções essa tal moda rural, que, agora, parece entrar em voga. De origem humilde e interiorana, o estilista olhou para a sua essência para poder transcender questões como masculino e feminino, e pobre e rico.
Em cima da oposição masculino e feminino, Pimenta utiliza o viés, o babado e uma espécie de vestido avental – elementos femininos – , construídos em linho tingido para dar aspecto de couro rústico, o que acaba se revelando um look extremamente viril. Também muito masculina é a cartela de cores feita de inúmeros tons de marrom para dar o aspecto de uma só cor, a do couro. Além disso, a camurça e o próprio couro aparecem como detalhes na roupa e nos acessórios em um interessante “trompe l’oeil”, técnica artística que cria ilusão de ótica a partir de perspectiva.

Sobre a oposição rico e pobre, ele faz um sofisticado jogo de proporções em peças que lembram o gibão dos nordestinos, peça simples associada à falta de requinte. O estilista aproxima a cava da manga para mais perto do pescoço e inverte a peça, a frente fica nas costas e vice-versa, sem nenhum erro de modelagem. Essas peças são a chave de sua coleção e do pensamento rural que tem dominado o estilista. São esses looks uma espécie de metáfora para que João Pimenta inverta o jogo e prove que a moda rural pode ser tão ou mais sofisticada que a urbana.
A seguir no lineup da noite, a estilista Milena Hamani inspirou-se em Toulouse-Lautrec para apresentar sua moda praia com muitas boas ideias, como um maiô com mangas compridas. Muito interessantes e graciosos eram os minivestidos feitos em tricô nas cores rosa e cru. No final, os looks pretos fazem a coleção perder força e a torna repetitiva.
Ronaldo Silvestre fez um jogo entre tecidos fluidos e rígidos para se referir à famosa espiã Mata Hari. A parte romântica com as leggings florais é a melhor do desfile; a sexy não funcionou muito bem.
O trio da marca No Hay Banda, Claudia Mine, Bruna Santini e Juliana Magro, foi buscar no ciclo da seda o mote para seu Inverno 2010. O destaques são as peças em crochê na cor creme.
O ponto de partida para a coleção da R. Rosner foi a avó do estilista, dona Lili. As estampas nos vestidos acinturados se destacaram, apesar da coleção na passarela parecer um pouco confusa.
Encerrando a noite, a Urussai entrou no universo das mulheres da máfia japonesa Yakuza e chamou seis artistas para criar estampas para a marca. Catarina Gushiken continua fazendo uma interessante pesquisa com as mangas orientais, além de Marina Dias, diretora do desfile, injetar dramaticidade à cena. A pouca quantidade de peças atrapalha a narrativa da apresentação, já que sobrecarrega por demais os looks com um excesso de informação que poderia estar mais espalhada se mais peças fossem desfiladas.

Texto escrito especialmente para o Uol Estilo. Para ver as fotos e ler no site, clique aqui e aqui.

LÉVI-STRAUSS, ALCINO LEITE E PENSE MODA

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o luxo dos Bororo

É engraçado que quando soube da morte do antropólogo Claude Lévi-Strauss, nesse último final de semana, mesmo nunca o conhecendo, parecia que tinha perdido um amigo ou um colega {para não fazer a íntima]. “Tristes Trópicos” teve grande impacto para mim como já escrevi aqui. É inegável que, mesmo sem sabermos, hoje a contemporaneidade dialoga com a maneira como ele orquestrou o pensamento no chamado estruturalismo e todo seu trabalho na identificação do “espírito” do homem, [Nota: estruturalismo vem da noção de estrutura e é entendida como um todo que só pode compreender-se a partir da análise de seus componentes e da função que cumprem dentro do todo. A partir que uma dessas funções muda, muda também a sua totalidade]. Por mais críticas que o estruturalismo veio sofrer depois, e todo o debate e enfrentamento com os existencialistas e os marxistas, o antropólogo francês é um dos meus heróis pela liberdade de encaminhar seu pensamento para longe, no início, das grandes correntes de ideias vigentes em sua época.
Alcino Leite escreveu dois textos interessantíssimos chamados “Lévi-Strauss e o Luxo dos Bororos” e Lévi-Strauss: A Nudez dos Nambiquara” no seu blog Última Moda [Nota: os links dos blogs da Folha só fornecem páginas de certo período e não dos textos específicos, por isso procurem eles na página, estão quase no final]. Os textos descrevem passagens do “Tristes Trópicos” e o encontro de Lévi-Strauss com os ínidos bororos e nambiquaras, no Brasil da década de 30. A discussão – nos textos de Lévi-Strauss – sobre nudez e sexualidade, papéis sociais e gênero na vestimenta podem nos trazer grandes pensatas sobre o Brasil de hoje. O mesmo que discute a legitimidade de usar ou não mini-saia numa universidade (estaremos negando a nudez ancestral ao condenar a universitária?), ou o papel das roupas como definidora da orientação sexual (serão os índios bororos menos machos porque se maquiam e costuram?), ou ainda a necessidade do luxo (que ideia temos de luxo, algo caro? algo exclusivo? algo especial?). Bom, isso são só algumas idéias que o recorte de Alcino sobre o texto de Lévi-Strauss nos propõem. Isso é pensar moda!
Acredito que esse é o papel de pensar moda, pensar ela de forma global, cultural, acima das marcas, dos desfiles e das semanas de moda. Pensar a moda como uma função que faz parte de um todo e se ela muda é por que algo na totalidade também mudou. Se identificarmos uma mudança muito brusca na moda é que algo no mundo mudou e é isso que tem que ser pensado.

ENCONTRO DE GERAÇÕES

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Fábio Gurjão, Jorge Kaufmann, Marcos Brias e Nina Lemos

Nina Lemos ao conhecer Jorge e Ana Kaufmann me falou de imediato: “Eles precisam conhecer o Dudu”. Logo convenceu Marco Brias e os dois fizeram a ponte com os abravanados e tudo resultou na festa de sexta feira, dia 28, na casa do próprio Dudu, tudo feito de maneira informal, só para os amigos de ambas as turmas.
Alê Farah logo soltou notinha no dia seguinte no Glamurama e no fim a festinha teve também caráter de evento social mesmo. Mas longe da ideia de cada estampa era um flash, o que tinha ali era aparentemente muito mais modesto e ao mesmo tempo ambicioso.

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Dudu, Ana e Jorge Kaufmann e Reinaldo Lourenço

Já comentei aqui no blog que numa conversa com Alcino Leite, ambos cinéfilos, que achávamos estranho o isolamento dos estilistas, jornalistas de moda, fashionistas que diferentemente do pessoal do cinema que sai de um filme e comenta sem parar o que achou, suas decepções e seus deslumbres, a reunião entre fashionistas se dá em eventos sociais muito programados, preparados e anunciados na mídia com muita antecedênciae sem muito debate, tudo no amsi cordial “olá, querida”. Em geral, diz o povo da moda, por trabalhar em mídias diferentes (acredita-se muito nessa desculpa), o silêncio reina na troca de ideias. Como se “sua sacada de mestre sobre tal desfile ou estilista” fosse ser roubada por algum outro espertinho.
Ainda comparando com a 7ª arte, em um festival de cinema, os cineastas discutem seus filmes e os dos outros, existe uma troca intensa de opiniões e posições. Aqui na moda, só recentemente isso tem acontecido, muito modestamente, com uma geração mais nova de fashionistas que se reúne no bar/boteco, que entre xoxos e devaneios coloca suas posições ou mesmo depois do desfile existe uma troca de impressões sobre a coleção de uma maneira mais aberta, quase cinéfila e típica de uma atitude que está em formação. Bom, quero deixar claro que não digo que antigamente não tinha conversa ou troca entre os fashinoistas, mas se ela acontecia, acontecia de maneira insípida pois não gerou esse exercício que os cinéfilos tem desde o nascimento do cineclubismo ou quem sabe até antes. Não se historizicou essa troca de ideia e nem a tornou tradição entre os fashionistas.
Como um terreno muito novo, a moda no (ou do?) Brasil como expressão cultural, se formos generosos, tem por volta de 50, 60 anos e estamos começando a historicizá-la (ato da maior importância para não acharmos que descobrimos o ovo de Colombo)
Isolados, muito dentro de suas próprias casinhas, sem discussão (só medalhas) os estilistas e os fashionistas tendem a uma zona de conforto irreal.
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Ao promover o encontro entre Jorge e Ana Kaufmann (donos há 19 anos da grife Aquarela e figuras importantes dos primeiros Phytoervas, evento que desencadearia o SPFW) e uma nova geração de moda: Neon, Amapô, Fkawallys e os chamados abravanados, acontece um movimento de sair de uma imaginada zona de conforto e partir para o desconhecido, nem que disso apareça ou parcerias ou conflitos ou apenas mais uma festa, não importa, pois gerou movimento, historicizou personagens pois de alguma forma existe respeito e interesse dos novos fashionistas para quem já está na estrada da moda brasileira faz muito tempo.

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Marcelle, Carol e eu, já que foi também um evento social: flash!

O DRAPEADO OU ESSE NÃO É UM POST SOBRE TENDÊNCIA

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Muito tem se comentado sobre a aparição dos drapeados nas coleções de primavera-verão 2010. Ao sair do desfile de Gloria Coelho, Gustavo Lins, o único brasileiro que desfila na semana de Alta Costura de Paris, disse duas frases que me intrigaram. Alcino Leite brincava em tom de zombaria que para ele era difícil escrever drapê, drapeado e Gustavo Lins respondeu que esse era apenas só o começo e que iríamos ver muitos drapeados nas proximas coleções. Intrigado e sabendo que Gustavo não falava isso apenas como frase de efeito – ele é inserido profundamente no meio de moda -, perguntei o porquê. Ele disse que a moda estava encerrando um ciclo barroco e entrando em um clássico.
Para quem não sabe, o Barroco é o jogo de contradições, a força que surge do confronto de forças opostas, isso é, o caos. É nessa chave que encontramos estilistas e marcas importantes como a Prada – escrevi sobre isso faz algum tempo -, Marc Jacobs, Alexandre Herchcovitch, Balenciaga. A confusão e a simultaneadade de referências – numa mesma coleção podemos ter anos 20, 40, étnico, por exemplo – é um exemplo claro de uma atitude barroca, enfim, o arquétipo do caos.
Já o clássico ou classicismo ou iluminismo representa a ordem. E se vocês repararem em toda a história do mundo sempre vem um período de caos e outro de ordem, eles se realimentam. No Ocidente, a ordem vem com os símbolos da Grécia. Não à toa que Renascimento, Arcadismo, Parnasianismo olharam para os valores gregos e greco-romanos para estabelecerem a ordem no mundo.
Estamos agora num momento de passagem (como foi o Rococó) e nada como o drapeado – um franzido que forma ondulações enrugando o tecido ou em outras palavras uma desordem que forma uma ordem – ser o símbolo do que estou falando.
Também estamos assistindo sinais de revitalização de nomes que apostaram muito no drapê. Hoje, evidencia-se o drapeado através da recuperação da importância de Vionnet – nome da grandeza de Chanel – com exposição no Les Arts Décoratifs, em Paris. E também de Alix Grès, mais conhecida como Madame Grès, a mestre do drapear.
Alaxandre desfilará agora a pouco uma coleção com clássicos da moda masculina e Costanza atualmente só escuta clássico tanto da música erudita como da pop. Sim, são meus drapeados de idéias, são as contorções de meu pensamento, mas algo deve estar sendo sinalizado e não é uma tendência, é exatamente um novo ciclo.