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COLUNA DA REVISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO – 13/12/2009

Você sabe que é gay. Talvez experimentou relações com meninas, mas sentiu que algo mais forte te levava a querer brincar com os meninos. O que te incomoda nem são as conversas de vestuário sobre a gostosa da classe ou a saída com outros garotos pra fazer a “zoação” com as garotas que praticam a profissão mais antiga do mundo. Ancestral mesmo é sua vontade de ser o que realmente é e ter que dissimular sentimentos como falar mecanicamente que aquela “mina é da hora”. Olha para a bichinha da escola e sente que ela, apesar das possíveis humilhações, é mais feliz e autêntica que você. Nesse momento, tem certeza que, apesar da ideia de inferioridade que fazem das quá quás, ela está em posição superior a sua. Todos não tem dúvidas sobre ela enquanto você é um poço de interrogações para si mesmo.
Em casa, seu pai, meio de sacanagem, quer saber se você é o garanhão da escola e sua mãe, religiosa, adoraria te ver no altar casando com toda a pompa. São eles que pressionam, para o bem ou para o mal, pelas suas respostas. Como um Cristo ou um Diabo perante a cruz, não há muita saída, você não os quer decepcionar mas também não quer se torturar. Como se livrar dessa angústia? Alguns infelizmente não aguentam e respondem da forma mais triste: o suicídio, se recusando à verdade e à vida. Mas outros preferem apenas sair de casa, se afastar da família, viver feliz sua sexualidade longe daqueles que preferem a mentira. E há ainda outros que respondem saindo do armário e acabando com toda essa encenação de uma vez por todas. Em todos os casos, muito antes de suas respostas, já houve a decisão dos pais, que – posso estar enganado – sempre souberam que você é gay.