Arquivo da categoria: a lôca

COLUNA DA REVISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO 12/07/2009

aloca2
Não é a primeira vez que insisto em declarar as boates e os locais que viados e travestis são tratados em pé de igualdade aos héteros como patrimônios da vida gay. Nunca se esqueça o que foi Stonewall: um bar onde as “bees” resolveram dar um basta à opressão.
Mas para não ficar só na história o papel político dos clubes GLS, no mês de maio desse ano, o Samorcc (Sociedade dos Amigos, dos Moradores e dos Empreendedores do Bairro de Cerqueira Cesar) desarquivou um inquérito civil do Ministério Público de 2005 pedindo o fechamento da boate A Lôca por motivos de barulho. Para quem não sabe, a associação é responsável pelo fechamento de inúmeros estabelecimentos na área dos Jardins, a maioria casas GLS. A presidente Célia Marcondes ligada ao Partido Verde deixou os Jardins mais cinzas, e quer deixar menos feliz a Baixa Augusta.
A Samorcc apresentou um abaixo-assinado com 250 assinaturas, mas alega ter 3 mil, que não constam até agora no novo inquérito.O Psiu (Programa de Silêncio Urbano), segundo reportagem da Folha do dia 25 de junho, não constatou nenhuma irregularidade que pudesse aplicar multa.
A boate resolveu reagir e conseguiu o apoio de casa noturnas, bares, frequentadores e grupos gays que sentiram que o barulho se chama homofobia. Já tem 6 mil assinaturas registradas no Ministério Público e isso é só o começo. A Lôca está encabeçando a abertura do Câmara do Comércio LGBT na cidade.
Pra mim, simbólico foi alegarem, na Folha que o gerente ameça a vizinhança com um pitbull. Quem conhece Aníbal, sabe que ele tem uma cadela da raça lhasa apso super dócil. Mas nessa pequena Stonewall, viramos pitbull mesmo!

ELAS ESTÃO LÔCAS

Tô passado, querem fechar a Lôca, uma das casas que é o marco da noite da cidade, responsável pela revitalização dos bares e boates do hoje chamado Baixa Augusta, citada no New York Times como referência em São Paulo de diversidade de tipos e tribos. O motivo: dizem que a boate faz barulho e incomoda a vizinhança, eu sou da vizinhança e nunca fui incomodado.
Engraçado, faz 14 anos que a Lôca funciona no mesmo local, já tentaram alegar isso em 2005 e o PSIU não constatou nada. Sinceramente, isso me cheira a campanha moralista de gente triste que quer deixar a cidade menos feliz. Mas o povo da noite deixou seus copos de vodka e gym tônica de lado e está mostrando que sabe se mobilizar não só numa pista de dança. Está rolando um abaixo assinado em papel – esse eu já assinei – contra o fechamento da casa por parte do SAMORCC – Sociedade dos Amigos e Moradores do Bairro Cerqueira César, a mesma associação que fechou a Ultralounge e parece está começando uma “caravana moralizadora” na noite. E agora tem até versão online, vai lá conferir.
Não faz aloka e tome partido, pois se eles derrubarem a Lôca, podem ter certeza que muitas outras casas noturnas e bares fecharão, pois não precisa muito pra perceber que muito mais que o alegado barulho, o que existe é um movimento completamente reacionário a tudo que acontece de forma muito orgânica aqui na região do Baixa Augusta.
aloca

A LÔCA 12 ANOS

a-loca.jpg

Anibal em raro momento fora do ecritório  

Poucos clubes no mundo já foram tema de um livro. Muito poucos se mantiveram verdadeiramente underground por tanto tempo. E só A Lôca é um clube que os V.I.P.s não são as celebridades e as personalidades da noite e sim quem é eleito por Anibal, o todo poderoso da boate e figura chave e mítica do lugar. São V.I.P.s de um mundo paralelo. Adoro quando ouço as pessoas relatarem sem a mínima vergonha do clichê que não vão à Lôca porque lá tem uma energia muito pesada e carregada. Pois realmente não é um ambiente para amadores. É um lugar específico e único e fazer 12 anos, mantendo as mesmas características é uma façanha numa noite tão “novidadeira” como a de São Paulo.

alisson.jpg

Nurse dus infernus by Alisson Gothz 

Para a festa com os DJs Nenê, Pomba, França, Luca Lauri, Julião, Ronald, Edinei e Alemão, e seus sets de acid house, acid techno, classics, electro, electrohouse, hard techno, house, tech-house e techno, o staff estava todo vestido de médico, enfermeiras, enfermeiros e tinha até uma ambulância na porta para a absurda comemoração chamada “Uma Noite de Loucura na UTI” que aconteceu na quarta, dia 24.

E realmente fez todo o sentido pois apenas consegui me recompor pra escrever sobre, hoje, sexta-feira.

Para o sempre sarcástico e inteligente Anibal, o gerente do local, a festa era premonitória pois já dava a dica de onde nos encontraremos nos próximos 12 anos.

Prometi dar apenas uma passadinha que terminou às 8 horas da manhã com o detalhe que entro no trabalho ás 11h30. Como disse o Nenê, outra lenda do undergorund: “culpa do ecritório maldito onde precisa de 4 ou 5 exorcistas pra espantar tanta pomba”. Mas a gente sabe que Anibal dá contra do recado nessa tarefa de expulsar o povo de lá, o que ganha ainda mais pontos dentro do quesito originalidade e desarmonia.

Dizem que tinha ovos, dizem que tinha camiseta, pouco importa, tinha o espírito da Lôca.

E realmente, o espírito da Lôca é Anibal e enquanto ele estiver por lá, a casa vai ser sempre um sanatório geral no melhor sentido.

Salve as locas!

vitor-zeze-e-victor.jpg

 eu, Zezé e Victor ( era aniversário do fofo) no meio da noite