COLUNA DA REVISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO – 28/02/2010

Nas formas mais totalitárias de poder sempre existe um grupo inimigo (seja ideológico, religioso, étnico ou sexual) para ser exterminado. Sob um discurso cheio de palavras de ordem, pensamentos distorcidos de forma perversa e vazios de lógica, esse grupo é construído para o resto da população como uma força maior do que a que possui e como a representação dos males de uma sociedade. Vivemos exatamente esse momento no microcosmo da realidade do país que é a sua televisão e mais especificamente o reality show “Big Brother Brasil”.

Quando os chamados coloridos entraram no programa, houve, para além de todas as tribos – idiotas – que foram formadas pelo Boninho, uma sensação geral que aquele era um grupo poderoso. Até a apresentadora “família” Angélica declarou que torcia pra drag. O vencedor, no inconsciente coletivo, era possível ser algum daqueles três homossexuais, representando a força gay e da diversidade. Ledo engado e construção barata que serviu exatamente para os propósitos contrários.

Na terça-feira, 23, foi televisionada mais um capítulo desse pensamento. No paredão, dois homossexuais, Angélica e Dicésar, e seu antagonista, Marcelo Dourado. Os gays – ou tribo dos coloridos – são exatamente esse grupo que construiram parecendo mais poderoso do que realmente é. Travou-se uma discussão – inútil – se Dourado era ou não homofóbico. A defesa – que contou com muito dos chamados simpatizantes – colocou que era uma alegação sem fundamento acusar o lutador de não gostar dos gays e que isso não valeria para sua eliminação no programa. O que podemos claramente ler como pensamentos distorcidos perversamente e vazios de lógica já que para as bichas militantes, passando pelas clubbers, qua quás, e uma infinidade de tribos homossexuais não há dúvidas sobre a homofobia do brother. E me desculpem, nesse quesito, nós bees – e ainda numa diversidade tão grande –, sabemos muito bem identificar um homofóbico.

Mas isso pouco importa, mais revelador foi Dourado falar palavras de ordem depois de sua permanência na casa: Força e honra! Fechando ali, no pequeno mundo da tv que espelha o Brasil, a representação de um pensamento totalitário, feito de palavras vazias para esconder outra ação, a da intolerância. É nisso que temos que ficar atentos. O resto são apenas 1 milhão e meio de reais que não nos pertence.

21 Respostas para “COLUNA DA REVISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO – 28/02/2010

  1. Acho que o Dourado é mais que homofóbico ele é o vingador da classe média brasileira. É o estereótipo pronto dum homem bruto, garanhão antigays. Pra mim é o nosso GWBush texano, beberrão e imbecil a serviço de uma sociedade armada que brinca de ser moderninha mas na verdade é bem escravocrata, preconceituosa e atávica.

  2. Não vou perder tempo criticando o conceito de reality show neste comentário, é um tópico que já foi discutido em várias ocasiões, porém me parece que além da ignorância e  do ódio que animan o sujeito aqui relatado, a base do problema é a rede que permite que tal fascismo e totalitarismo seja expressado. Eu tive a chance de viajar pelo Brasil de Norte a Sul e pude reparar atitudes que lembram tempos feios da história deste lindo país. O Brasil fez muito progresso durante esses últimos anos e um aspecto pouco discutido até aqui emergiu : un certo consensus nacional. Seria um grande desperdício se esse frágil consensus fosse enfraquecido pelos berros de um bando de perigosos ignorantes ajudados por uma mídia sem vergonha do tipo Ruppert Murdoch. Eu acho que dentro da liberdade de expressão, tão cara à democracia, não podemos esquecer que o discurso odioso promovido por uma mídia irresponsável tem como finalidade de acabar com as liberdades tão dificilmente adquiridas. O Brasil está perto de entrar na modernidade de verdade, não podemos perder essa oportunidade genial.

  3. Homofobia é inaceitável!

  4. Brilhante sua análise. O mundo é cercado por palavras de ordem e discursos vazios. Infelizmente é difícil saber qual dos lados nessa trama maniqueista tem razão. Se é que existe razão.

  5. Pingback: uberVU - social comments

  6. Não há dúvidas de que dourado é homofóbico e muitos preconceituosos e reacionários se identificam e torcem por ele. No entanto, acho que não se trata tanto de uma disputa de causas, mas muito mais de um apelo carismático que de alguma forma dourado despertou em grande parte do público do bbb. Tanto é assim que serginho também é um dos favoritos para ganhar o jogo, porque, assim como dourado ele mostrou algo que cativou o público, independente de ser gay ou não. As pessoas acabaram transformando esse bbb em uma disputa entre simpatizantes e homofóbicos, mas existem outras nuances no jogo que merecem ser melhor analisadas, porque se fosse pelo ponto de vista da homofobia, jean jamais teria ganhado o bbb5. Foi mais uma vez o tal carisma, essa coisa meio que inexplicável, que falou mais alto.

    Não estou aqui defendendo o dourado (longe de mim, #foradourado), só quero aqui agregar pontos para discutir e entender melhor o fenômeno dourado e o por quê dele ter se transformado de vilão do bbb4 para mocinho. Será que os, sei lá, um milhão de espectadores do bbb torcem por ele porque odeiam gays? Prefiro pensar que não.

  7. adorei o texto, Vitor! gosto do Dourado (sim, confesso) mas não torço pra ele ganhar o BBB justamente por isso, pra não fortalecer esse papinho nojento de “heterofobia”, que é inaceitável. torço pro Cadu, que também é bronco e fortão, mas é sensível e mais tolerante.

    pode ser coisa de pisciana, pollyana, posso estar errada, mas acho que essa alma do Dourado ainda tem salvação e não merece ser condenada em praça pública antes de poder se defender. é o básico.

    não entendo quem combate intolerância com mais intolerância ainda… só ver os comentários maldosos que fizeram Lelê e pra filha dela… doença!

    só sei é que eu não vejo a hora de acabar esse BBB pq tô esgotada mentalmente, hehe. #bbbenlouquece e a globo é que fica feliz!

  8. Não tão simples, meu caro.

    Jean Willys venceu, vencendo triplo preconceito:
    – ser bahiano do interior – Alagoinhas (cidade que mesmo em Salvador só não é mais escaldada do que a unanime Feira de Santana);
    – ser intelectual (desse preconceito, nem Sergio Buarque de Holanda escapou);
    – ser viado.

    pode-se alegar que a viadagem de Jean não era sexualizada. Fato, conheço-o dos tempos em que a gente sentava junto pra ver o por-do-sol no Porto da Barra – naqueles encontros aleatorios que aproximam conhecidos que só a melhor praia urbana do planeta (o Porto da Barra) faz.

    mas também não era alegórica, nem óbvia. Também isso não era do seu feitio.

    Pese-se que os três preconceitos contra Jean foram tambem suas maiores armas, se unidas: nada pode ser mais povão que um intelectual baiano; a Bahia, barroca e ambivalente, é o lugar onde macho rebola e viado é macho; e isso é especialmente potente para quem vem da cidade da bordinha do Recôncavo, quase no Agreste: Alagoinhas (que o paulista de Lorena, Euclydes da Cunha, dizia ser a mais aparzível do país).

    Em tempo: eu NÃO estou dizendo que Dourado não é homófobo. Eu estou é Glauberizando a onda. Sou baiano afinal, ou não sou?

  9. daí que pouco antes de ler a sua coluna eu ouço ” mas qual o problema do dourado não gostar de gays? todo mundo tem que gostar de gays agora?” e perco até a vontade de pensar em algo para comentar aqui. Cansa, machuca, e muita gente sabe…mas no fim só a gente (gay) sente, né?

    texto incrível, como sempre!
    besos

  10. Olha não acredito q ele se homofóbico. Posso dar um ex, meu pai e tios , não q não gostem de gays , mas acham q cada um tem q ficar na sua.
    Acho o Di e o Serginho muiiiiito montados e isso cansa , brincadeiras de mal gosto , isso pra quem não está habituado ao mundo gay.
    E fácil criticar dizer se é ou não homofóbico ,não é o mundo mesmo dando alguns deslizes o DOURAS até está saindo bem , veja o relacionamento atual dele com o serginho.
    Já vi casos de homofobia e de racismo , isso q acontece no bbb tá longe de ser.

    • eu te entendo, muita gente também não via antisemitismo em Hitler, aliás, sua amante era judia.
      não é fácil criticar dizer se é ou não homofóbico , é fácil desautorizar a diversidade de gays que enxergam homofobia nele… infelizmente, o macho adulto branco sempre no comando – com o apoio das mulheres, negros e gays obviamente.

  11. adorei o texto Vitor, acho que é bem por ai…

    abraço

  12. O problema nao é aqui se os torcedores para que Dourado fique são ou nao homofóbicos.
    O problema a meu ver, é que essas pessoas que estão a favor deste cara ACHAM NORMAL SER HOMOFÓBICO, “tudo bem se o cara odeia gays” eu ou vi isso várias vezes.
    E se fosse “tudo bem que o cara odeia negros, tudo bem se o cara odeia judeus… ”
    ISSO ME ASSUSTA.
    Aonde vamos parar. Quando as pessoas vão entender que preconceito eh preconceito.

  13. O Texto da Michele exemplifica exatamente o que eu disse “Olha não acredito q ele se homofóbico. Posso dar um ex, meu pai e tios , não q não gostem de gays , mas acham q cada um tem q ficar na sua.”

    Então tá. vamos colocar os negros no fundo do onibus, vamos colocar os negros em outras escolas, TUDO BEM QUE OS NEGROS SÃO PRETOS, SÓ NAO QUERO FICAR PERTO DELES”
    Deu pre entender a gravidade deste tipo de pensamento agora.?

    “tudo bem se sao bichas, mas sai de perto de mim porra, e se me cantar leva porrada!!”

    Entao eu posso dar porrada numa mulher que me cantar na rua (como já aconteceu milhares de vezes?)

    Deu pra entender
    Eh isso que me assusta.

  14. Vitor.

    Tenho acompanhado essa discussão basicamente pelo Twitter e em um ou outro blog.

    Este seu post vai muito além do que li. Achei muito pertinente.

    Acompanho o programa desde o início. Aliás, este é o primeiro Big Brother que tenho acompanhado desde o início com tanta regularidade.

    À questão.

    Acho que não faz sentido enxergar no Dourado somente um homofóbico. Seria cometer a mesma injustiça que se comete sempre contra os gays: reduzi-los à questão da opção sexual.

    Pelo que vi das aparições do Dourado até aqui, ele “conquistou” o público por muito mais que isso. Foi mostrando, de forma deliberada ou não, um lado frágil. Ele não se cansa de falar sobre os erros que cometeu na vida, das oportunidades que desperdiçou, da graça que foi na sua vida essa segunda chance. Eu tenho certeza de que esses sentimentos ecoam muito junto às pessoas. Muito mais que uma eventual homofobia (que eu acho que é real, diga-se).

    Mas neste post você levantou uma questão mais importante: Dourado, na realidade, é um sujeito autoritário. Fascista, talvez. É possível. Não sei se é verdade. Mas parece perfeitamente plausível.

    Mas isso não faz de Dourado um personagem menos interessante. Ele deve ser ativamente “combatido”? Honestamente, não sei. O problema maior neste caso é da edição, que não o mostra nas suas verdadeiras cores. O Dourado, de forma consciente ou não, é a pessoa mais subversiva do programa.

    Não estou torcendo por ele. Desde o primeiro dia, acho que o vencedor será o Serginho.

    Mas tiro o chapéu pra você. Este seu texto foi direto ao ponto.

    Agora me deixa causar com o #teamdourado, tá?

    HAHAHAHA

    • como disse, vc faz o que quiser, mas vc não vai causar impunimente na minha frente, sabendo tudo que eu penso. nunca fui radical, nem militante, mas acho nojento como cinismo, a homofobia e o totalitarismo se colocam em nome do macho adulto branco sempre no comando. o resto é paranoia das minorias… que desrespeito.
      se ele deve ser ativamente “combatido”? Realmente vc não me entendeu, esse tipo de pensamento seu – a conquista pela simpatia, empatia (os ditadores todos fizeram isso), o carisma – é deve deve ser combatida ativamente, essa sua mentalidade que vem com a brecha pras pessoas baterem no peito e gritarem, euodeio gay, eles são paranoicos nesse lance de homofobia. Aliás vc deve viver e saber detectar bem a homofobia ná, como hétero – conheço esse anauê. Mais Hannah Arendt, aliás Fita Branca seria um ótimo filme pra vc rever tudo o que vc escreveu aqui no meu blog e muito me ofende. Desculpa, nessa estamos em campos bem opostos e assim prefiro ficar.

  15. De novo: desculpe se te ofendi. Não foi a intenção.

    O que eu disse foi que o Dourado “conquistou” o público DE FORMA DELIBERADA OU NÃO.

    Não acho que tenha sido deliberado, mas isso não importa. Pelo menos não importa na hora de a gente discordar.

    Temos opiniões diferentes, e eu insisto que não sejam tão diferentes assim.

    Acho que esse assunto tomou muito do nosso tempo e, mais que isso, tomou uma proporção maior do que deveria. Não por ser um assunto desimportante; não é.

    Só não vim aqui te agredir. Não mesmo. Espero que você saiba isso.

    Essa conversa não acabou. Mas, agora, não vale a pena continuar, não? Eu respeito o seu ponto de vista, como escrevi logo aí em cima. Mas por algum motivo o trem descarrilou.

    Um abraço

    S

    • como eu disse Serginho, o trem descarrilhou antes da nossa briga. Se o Dourado te conquistou, mas seus amigos gays do lado e uma pequena parte de uma sociedade progressista realmente esclarecida o abomina, algo está errado não? Será que a grande maioria gay que é tua amiga é paranoica? E no que ele te conquistou: nas frases feitas, no lugar comum, no discruso de ordem feito de forma a parecer espontânea? Hannah Arendt, Serginho!
      um adendo: o preconceito e o fascismo faz parte do obscuro de todo humano, todo o trabalho da civilização é contê-lo, domesticá-lo

  16. Segundo alguns pesquisadores, a homofobia é um sintoma de uma psicopatologia: um comportamento doentio e perigoso que deve ser tratado por profissionais da saúde.

    A prevalência da homofobia em uma sociedade talvez seja um sinal de uma patologia social: uma sociedade doente, mas que pode ser curada se os profissionais da saúde forem sérios e determinados quanto a responsabilidade social deles.

    A intolerância machuca profundamente.
    Mas os intolerados sao minoria, um exemplo esta no fato deste dourado continuar no bbb.

    Talvez seja hora de exigir que a intolerância seja tratada como uma doença que conduz ao crime e de obrigar os intolerantes de procurarem tratamento médico/psicológico/psiquiátrico pois os intolerantes sao perigosos ao bem-estar da sociedade.

    Eis um link para um artigo cientifico discutindo este assunto:

    http://tinyurl.com/yk2jyrn

    Intolerance and psychopathology: toward a
    general diagnosis for racism, sexism, and homophobia.

    Racismo, sexismo e homofobia não se encaixam em qualquer categoria atual de diagnóstico psicopatológico. Os autores propõem que as pessoas que se engajam em tais comportamentos sofrem de uma forma de psicopatologia, portanto devem ser categorizados de acordo com uma definição própria para facilitar o diagnostico de tal psicopatologia. O denominador comum parece ser a intolerância. Os autores exploram a possibilidade de uma “deficiência de personalidade intolerante”, esboçam sintomas prováveis e sugerem algumas formas de tratamentos a esta forma de psicopatologia.

    Guindon MH, Green AG, Hanna FJ. Intolerance and psychopathology: toward a
    general diagnosis for racism, sexism, and homophobia. Am J Orthopsychiatry. 2003
    Apr;73(2):167-76. Review. PubMed PMID: 12769238.

  17. Pingback: COLUNA DA REVISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO – 28/03/2010 « dus*****infernus

  18. Uma receita criei
    Para o diversificado
    Dois cubos de hétero
    Um queijo homo ralado
    Dois gays com pimenta
    Uma colher de bicha e menta
    E pique tudo bem picado
    Ponha na Geladeira
    Todo esse preparado
    Esse prato de sobremesa
    Tem que servir gelado
    Chame a namorada da filha
    Namorado do filho e família
    Pra comer creme Viado

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