COLUNA DA REVISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO – 10/01/2010

Dias desses, perto da virada do ano, uma bee me falou de maneira nada modesta a seguinte frase: “Eu não sou preconceituoso com nada”. Eu, que já estava da pá virada, respondi sem pensar: “Pois eu tenho inúmeros, a começar por essa frase que me disse. Aliás, eu não confio em ninguém que não tenha preconceitos”. Apesar da aparente agressividade, o que quis dizer era que está no cerne dos seres humanos ter valores pré-concebidos – quase sempre de forma frívola e superficial – sobre as coisas e as pessoas.

Algumas vezes está no preconceito um sentido de auto preservação muito ligado à prudência. Outras vezes, ele age como uma senha para você poder participar ou ser aceito por algum grupo, família ou nação. Sem falar que de algum forma, serve para nos guiar e dar juizo de gostos e valores principalmente nessa linha tênue que separa o preconceito do gosto pessoal.

Toda essa relação acima é só para mostrar como o preconceito é muito mais inerente ao ser do que imaginamos, mas isso não significa que ele é cheio de positividade, muito pelo contrário, de fundo ele traz sectarismos, intolerância e violência.

Faz parte de todo o processo civilizatório atenuar e explicitar o preconceito. Como uma doença incurável, o Ocidente, ao longo dos séculos e mais precisamente nesses últimos tempos, tenta domar a fúria que o preconceito produz, amenizando seus efeitos. Para isso, como no caso dos tratamentos de dependentes químicos e do álcool, para que realmente o tratamento tenha efeito é necessário primeiro assumir os preconceitos que possuímos e não pavonearmos que nunca tivemos tais sentimentos. Deixando assim de fingir sermos moderninhos, como aqueles que adoram dizer que fumaram mas não tragaram.

7 Respostas para “COLUNA DA REVISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO – 10/01/2010

  1. A propósito: vc assistiu Avenida Q?

  2. É… Preconceito todo mundo tem mesmo… Apesar de não ter nenhum tipo de preconceito com relação à cor da pele, dinheiro, status, nível cultural das pessoas (que a grande maioria dos meus amigos têm), tenho aversão a pessoas com alguns tipos de comportamento, inclusive com pessoas que, por serem mais inteligentes, ricas ou privilegiadas, acham que outras pessoas são inferiores e desprezíveis. Por isso, adoro pensar na felicidade, nas doenças e na morte como o fator de equalização de todos os seres humanos.

  3. E os “santos”, os “bons” e os “cultos” também não são melhores ou superiores aos cruéis, aos assassinos, ladrões e drogados, e ao povo que se acha hype…

  4. Gostei dessa discussão… rsrsrs

  5. A questão do preconceito, é uma mazela social da qual estamos muito longe de encontrarmos um antídoto para sanar esse mal. È muita hipocrisia, alguém dizer que não tem preconceito em se tratando de um país que segrega os idosos, os pobres, os analfabetos, moradores de rua, catadores de papel, negros, homossexuais e afins. Em algum estágio de nossas vidas, certamente alguma dessas pessoas foram fusiladas pelos nossos olhares repulsivos, mesmo que involuntariamente.

  6. Achei muito pertinente a abordagem desse tema. Quando pensamos que tudo isso já está batido, anacrônico, ou até mesmo clichê, percebemos que é um assunto atemporal e que será sempre discutido hoje, amanhã e sempre, pelo menos enquanto houver pessoas que idolatrem o precoceito.

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