JOGO DE CENA – ROUPAS, COMPORTAMENTO E ÉTICA

O maior crítico de cinema do Brasil hoje, Jean Claude Bernardet, diz sobre “Jogo de Cena”, filme de Eduardo Coutinho, que ele seria o “Ulysses” – romance fundador/demolidor de James Joyce – dos documentários em geral, principalmente dos que se sustentam na fala.

O filme, de uma aparente simplicidade, parte da ação de um anúncio do jornal que pede para que mulheres compareçam ao Teatro Glauce Rocha para contarem suas histórias. Um mês depois foram chamadas atrizes, dentre elas, 3 muito conhecidas (Andréa Beltrão, Fernanda Torres e Marília Pêra), para representarem essas histórias e também para contarem as suas histórias em um certo sentido.

Com uma montagem inteligentíssima, esses 3 níveis são embaralhados e a questão ética da verdade e “mentira” – no caso representação e mímese – é posta em xeque a cada fotograma. Ao final percebemos que o que importa são as histórias dessas mulheres e não a verdade. E nesse sentido “Jogo de Cena” torna-se um grande filme ético.

Na questão da mímese e representação, Coutinho faz um jogo de cena brilhante entre Sarita Houli Brumer e Marília Pêra. Marília está incubida de representá-la.

Ela – como a maior atriz brasileira que é – recusa a cópia, a mímese do comportamento de Sarita com seu jeito espalhafatoso, quase over, cheio de personalidade. Marília opta por uma interpretação mais contida – isso pode ser percebido no trailer com as duas falando sobre o filme “Procurando Nemo”. Ela percebe que existe ironia em Sarita ao falar para Coutinho que ele não gosta dos americanos e no final solta uma risada histriônica. A atriz magistralmente entende a risada como ironia e ao invés de repetir o gesto, ela prefere perguntar: é comunista?

Enfim, ela relê os gestuais de Sarita à sua maneira. Os gestos são movimentos de superfície. São as primeiras leituras que fazemos de uma pessoa, assim como as roupas que estão vestindo. Novamente a inteligência dramátrica de Marília sabe que também não pode se afastar muito de sua representação para não se tornar algo que saia do terreno do verossímel, invadindo o domínio do fake. É importante nunca esquecer que existe uma pessoa com uma história que precisa ser contada. Para não trair a história que pertence aquela pessoa, é preciso antes de tudo não trair a pessoa.

Por isso – também possível de enxergar no trailer – ela usa exatamente a mesma roupa que Sarita- uma camisa preta. Não só a mesma camisa como o mesmo brinco grande de argolas prateado e a quase mesma maquiagem quase ausente.

Se opta pra reconstruir outro gestual para Sarita, dentro do terreno da superfície e daquilo que reconhecemos primeiro visualmente em uma pessoa, ela prefere manter-se igualmente vestida como Surita. É um ato profundamente ético.

PS: Algo me ocorreu depois que encerrei esse post. Ao imitar Sarita no seu jeito de vestir e não de se comportar, ela entra também no Sistema Moda. Aquele que o original é copiado – sempre por admiração. Temos também aí novamente a questão ética – Marília se rende ao seu personagem Sarita, se curva a ele, colocando-se numa posição de total respeito por quem ela está retratando através das roupas.

7 Respostas para “JOGO DE CENA – ROUPAS, COMPORTAMENTO E ÉTICA

  1. eu assisti e chorei mto
    me emocionei com andrea beltrao e marilia. engracado ve-las tao vulneraveis

  2. Eu nao vi, mas o teu texto me deu agua na boca.

    Sera que vem aqui pra Montreal?

    Mas eu estou confusa:

    Ao render-se ao personagem Sarita, Marília esta “copiando” ou “representando”?

    Em filosofia – me corrija se eu estiver errada por favor – a representação é uma figuração concreta de um “conteúdo” apreendido pelos sentidos, pela imaginação, pela memória, ou pelo pensamento.

    A representação surge da relação entre o representante e o representado: um símbolo, nao?

    Eu sei que copia e representação podem ser sinônimos, mas o processo de criação de uma copia pode ser bem diferente da origem de uma representação. A representação pode resultar da utilização de símbolos, que apenas sugerem o que esta sendo representado.

    A criação de um símbolo – que pode originar-se de uma apropriação intencional de um elemento visual que se assemelhe ao conteúdo (objecto ou idéia que representa) – tem, geralmente, como objetivo facilitar a comunicação.

    Se bem que é muito bonita a idéia de que a copia é resultado da admiração ao original: uma homenagem.

  3. Vitor, querido! que texto magnífico.Vc sempre detectanto mutações e mapeando seus sentidos e devires. Imagino que agora esteja descansando na pérgola do Copa, tomando sua vodka com laranja, relaxando com a maratona do Fashion Rio. Saudades de Jorginho!

    Primeiro preciso dizer que sou uma fâ do Edu, desde os tempos do Institut des Hantes Études Cinématographiques.

    Também sou uma amante de Joyce e em Wandering Rock, ele já mostrava eventos entrelaçados de personagens em Dublin, não é por acaso que meu grande amigo Ian McCarthy, criou aquele jogo fantástico no TWITTER, no dia 16 de junho, ou Bloomsday, o dia em que a ação ocorre em 1904 no romance, todos estes personagens enviam mensagens sobre o que estão fazendo no momento correto da ficção.

    Eu ainda me lembro das últimas conversas com NUCOOL, onde ele falava de um universo telemático pós-biológico, onde cada vez que ele interagia com a rede, dizia reconfigurar a si mesmo, sua extensão/rede o definia exatamente como seu corpo material o definiu na velha cultura biológica.

    BEIJO GRANDE!
    Maria Eduarda Pimentel Loureiro
    Dir. Executiva do Departamento Arqueológico Virtual

  4. NUCOOL?! Alguem tem noticias dele?

  5. gangmarchare@hotmail.com

    a gente ta chegando esse ano! pra parar tudo e dar re no kibe dos namorados das suas amigas heterossexuais, a gente odeia viado da moda, mas usamos crystal, po, e tudo que for necessario para dar re no kibe com macho no final da noite, e nois zl, amsterdan, berlin

  6. 65.55.37.120
    65.55.37.88
    65.55.37.104

  7. Pingback: AINDA SOBRE JOGO DE CENA – ROUPAS, COMPORTAMENTO E ÉTICA « dus*****infernus

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