THE HOMELESS-ALIST

mendigo fashion
Foi comentado no twitter, entre blogueiros e até teve leitores que me escreveram pra dizer que o The Sartorialist publicou uma foto de um mendigo em seu site/blog. Bom, eu tenho uma opinião muito distante do encantamento que o sr. Scott Schuman causa nos fashionistas e já expressei isso algumas vezes. Mesmo assim, entendo a relevância de seu trabalho ao abrir o horizonte para uma perspectiva de moda de rua na internet, apesar do olhar não ser nada novo como bem mostrou Marco Sabino.
O próprio Schumann no texto que segue a foto (raros são seus textos assim tão grandes) explica o porquê da foto que deixou muita gente estranhada, já que as portas de desfiles com todo o pensamento fashion que leva as pessoas a se montarem daquele jeito é que é a marca de seu estilo. Sinceramente, como ele, não vejo mérito nenhum em fotografar mendigos só por fotografar, ou para dar uma aura artística ao trabalho ou mesmo político.
Mas pode ser instigante perguntar o porquê da foto.
Talvez uma resposta esteja em seu próprio blog ao citar recentemente que uma de suas influências é o fotógrafo August Sander. Ele fotografou a nascente classe operária alemã, os camponeses que muitas vezes usavam suas roupas quase como peles pois eram as únicas que tinham. Então cada dobra da roupa, cada amassado, revela um músculo, um desenho do corpo, da desenvoltura e do modo de vida daqueles fotografados. Na foto de Schuman podemos ver isso claramente na foto do mendigo.
Outra resposta talvez esteja no fato dele, por estar tão organicamente envolvido com os desejos fashion e viver tão dentro do mundo da moda oficial, perceber uma certa vontade que paira nas cabeças do mundo da moda. Um exemplo é a capa de setembro da Vogue Itália que nos lembra algum folder do musical “Os Miseráveis”.
Outra suposição pode ser ainda um sinal que a escavação arqueológica que os 2000 estão fazendo com os anos 1980, ainda não acabou, apesar da morte de Michael Jackson. O pauperismo, uma das vertentes da revolução japonesa causada por Rei Kawakubo na moda nos anos 80 com suas sobreposições, seus tons negros, suas roupas esburacadas talvez tenham encontrado eco na foto de The Sartorialist. Muita gente está sinalizando os anos 90, falando de grunge e tal, talvez (e essa é a afirmação com talvez que menos tenho certeza de todas desse post) o pauperismo seja a passagem mais coerente e orgânica para o estilo grunge que muitos estão assobiando que já é um hit.
E por fim, talvez ele só quis tirar uma foto!

24 Respostas para “THE HOMELESS-ALIST

  1. não entendo muito de moda, mas ando cansada de nossa juventude ultra-montada… echarpe até pra comer feijoada num boteco da cardeal?

  2. Rê Guerreiro escreveu um texto brilhante na vogue no meio dos anos 80 falando sobre os mendigos que ela via na Paulista e a coleção de roupas esburacadas da Comme des Garçons. So…

  3. kiridjinha, os tons de azul nas roupas do mendigo revelam uma leveza, uma paz existencial, um foda-se-que-eu-não-tô-nem-aí… antes mesmo do grunge e da comme des garçons, o povo quer ver mais wal-mart, mais c&a, mais bom retiro… ‘não tenho grana e quero me vestir bem, onde acho bons exemplos pra comprar roupa na renner?’ eis o pensamento por trás disso tudo. e quem é mesmo esse tal de sartorialist?

  4. Assim como outros, eu ficava encantada, pois cheguei até a criar uma versão daquilo. Porém, percebi que tudo era muito limitado e montado. Excelente crítica, por isso sou fã.

  5. Acho a foto linda. Os azuis e o contraste com o preto, um fundo burnt sienna… excelente paleta.

  6. eu gostei demais de ler esse texto. Não frequento o site em questão, mas arriscaria uma resposta. O fotógrafo fez a imagem do que ele gostou, mas nunca terá coragem de vestir: o coturno azul com shortinho jeans. =)

  7. eu prefiro mendiguismo, pauperismo não tem humor!
    e eu acho que o Sartorialist é um chato que só tira foto de menina que parece voguette de perna de fora e cintura alta, prontofalei!

  8. existia uma comunidade no orkut (nao sei se existe mais, orkut ta tao mortinho coitado) que se chamava “mendigos nouvelle vague”. Quem sabe o scott schuman não andou passeando por lá? Brincadeiras a parte, gente, ele apenas viu uma pessoa estilosa/interessante na rua e quis fotografar…e ele era um mendigo, qual o problema? Nem acho que ele teve intenção de chocar ou induzir algum tipo de reflexão social, pois nem mesmo se trata de um mendigo maltrapilho. É uma foto bonita, com bom senso estético.

  9. What else should I be
    All apologies
    What else could I say
    Everyone is gay
    What else could I write
    I don’t have the right
    What else should I be
    All apologies

    In the sun
    In the sun I feel as one
    In the sun…

    All in all is all we are

  10. confirmou???
    ahouse!
    abs,
    bernardo

  11. ALINE falou tudo!!😉

  12. BERNARDO!!
    tá em mutação??!

  13. uma palavra diz o que a foto significa: marketing! ele quer fazer polêmica! rebater as criticas de que ele só fotografa as rikas no Soho, Paris e saída de desfiles. Também flerta com esse elogio da miséria que é a nuova demagogia americana vide primeira dama e suas montações com roupas low em destinos de high.

  14. Gente, fiquei super interessada nessa exposição [de verdade, é por uma boa causa] “Exposição de cuecas no Casarão Brasil”

    http://www.abcancer.org.br/portal/index.php?module=atualidades&class=noticias&event=noticia&id=975

  15. Angel, faz tempo q tava pra elogiar a matéria q vc fez com o Lula Rodrigues. Q bacana ficou … ele é demais…

  16. “mendigos nouvelle vague” eu ri demais.
    mendiguismo ou pauperismo não sei se o pessoal tá apropriando disso não vejo que o consumo tá ligado nas esferas dos sentimentos. eu vejo também (até nas publicidades de moda) um desejo de emular a naturalidade da vida que a moda plastifica tanto.
    mas ó, vou discordar da maioria. concordo com todas as suas resssalvas sobre o fotógrafo, suas intençoes e representações e tals. mas eu gosto do sartorialist. tem uma coisa americana, solto no mundo nas fotos dele que curto. (viagem minha?)

  17. Eu gosto de andar na rua e eles, paupérrimos ou mendigos são companhia certa nas noites de segunda nas esquinas dos Jardins.
    Tenho uma certeza,não é a falta de dinheiro que leva alguem a rua. Tive um chefe , em um Banco de Investimento que saiu pelas ruas de NY, contam ex-colegas, eu entendo, o que leva alguem a rua é a falta de estrutura,e onde o abismo social encontra a falta de amor próprio.
    Mas eles, assim como o lixo, refletem os restos da sociedade mas ainda podemos ter senso estético ao ve-los, afinal,ainda os prefiro próximos do que através de vidros blindados.

  18. In his study of the aesthetics of nineteenth century consumption, Rémy Saisselin (1984: 25) writes: “The ‘flâneur’ (was) a conscious observer for whom the word ‘boredom’ had become meaningless: he animated all he saw; admired all he perceived. He strolled, observed, watched, espied…”

    As Saisselin goes on to point out in ‘The Bourgeois and the Bibelot’, the phenomenon of the flâneur went hand in hand with that of the photographer, both aesthetic observers, insiders and outsiders at once, both constantly skimming the surfaces of urban life for rich bounty of visual impressions. The photographer, however, was equipped with the technological means to fix visual impressions on paper, turning the images themselves into objects of display and desire. The mass production of images, which occurred in the 1800s, thus complemented the mass production of styled good or imitations. With this proliferation of images and imitations appearance increasingly come to overshadow – and even obliterate – substance (Boorstin 1962; Ewen 1988).

    In an essay on photography published in 1859, Oliver Wendell Holmes wrote: ‘Every conceivable object of Nature and Art will soon scale off its surface for us. Men will hunt all curious, beautiful, grand objects, as they hunt cattle in South America, for their skins and leave the carcasses as of little worth’ (cited in Ewen 1988: 25). The Analogy to hunting here is significant for it indicates that the photographic reproduction of the world is not a passive multiplication of images but an active appropriation of all ‘curious, beautiful, grand objects.’ The notion of the ‘carcasses’ of objects being left behind ‘as little worth’ once their photograph was taken points to a state of affairs in which photographic (and shortly, cinematic) imagery would become more powerful and influential than objects themselves.

    In ‘All Consuming Images’ Stuart Ewen (1988: 25) states that Holmes correctly ‘laid out the contours by which the phenomenon of ‘style’ operates in the world today.’ Style deals exclusively in surface impressions, hence possessing the ‘right look’ becomes all important.

    HYPERESTHESIA, or, The Sensual Logic of Late Capitalism (David Howes, in Empire of the Senses, ed. David Howes, 2005, Berg, New York: 285-286)

  19. It would be all too easy to fly into an indignant, leftist rage at the sight of a wan model dressed in luxury shopping bags and splayed out next to garbage cans. But that’s probably the exact reaction W magazine was banking on with its “homeless chic” pictorial. Fashion advertising is increasingly driven by the dialectic between salacious imagery and moral outrage. Something so absurd as the W spread, in which destitution has never looked so glamorous, seems more like a culture jam – an effort to subvert the advertising – than advertising itself. But advertising, like a virus, is always evolving. It has appropriated absurdity in an attempt to render itself immune to subversion. And now people who see the magazine will break into two camps – those who think its reprehensible and those who think its fabulous. Those two sides will argue, keeping W exactly where it wants to be – in the spotlight. So anyone truly concerned with lessening advertising’s grip on culture will have to figure out not how to subvert this kind of ad, but how to jam the dialectic it feeds on. How do we do that? How can we jam the ad industry and the fashionistas?

    https://www.adbusters.org/blogs/new-aesthetic/fashionistas.html

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