FASHION RIO GESTÃO PAULO BORGES OU A PROVÍNCIA VISTA DA METRÓPOLE

pier-maua
Não fui ao Fashion Rio, aliás não tenho ido à temporada carioca faz umas 3 estações e para falar a verdade não é algo que sinta muito falta – e isso não é mágoa de caboclo, é entender prioridades. O ano passado fui só para o desfile de Lenny, para entrevistá-la para uma matéria que infelizmente nunca foi publicada.
Também não tenho muitas boas lembranças do evento. Eu tinha uma carga de trabalho absurda, pois toda manhã fazia matérias gerais de moda para o GNT Fashion [isso me fez trabalhar na praia, de roupa, por algumas temporadas e um problema na perna que já tinha se agravar por horas e horas de pé sem uma alimentação adequada]. Só quando cobri para o Uol em uma temporada, as coisas foram mais tranquilas [ou será humanas?]. Isso sim é mágoa de caboclo, pois não fazia nenhum almoço demorado ou compras tão típicos durante o Fashion Rio!
Mas sinceramente, mesmo ou trabalhando “como uma negra” ou dentro das leis trabalhistas de Getúlio Vargas, sempre percebia que a imprensa estava lá mais para um esquenta pré- SPFW ou mesmo uma espécie de relax na cidade maravilhosa antes do “verdadeiro” trabalho.
Era [é?] comum você escutar dos fashionistas que no Fashion Rio é possível fazer longos almoços, encontros e até compras, fora as festas vão até tarde mesmo, com os jornalistas de moda nelas. Me diga você se é possível fazer compras ou longos almoços no SPFW? Sim, é uma questão de line up, o do Rio com horários mais frouxos e muitos desfiles que “pode-se perder sem culpa”, frase que ouvi repetidas vezes, faz com que esse seja o comportamento normal dos fashionistas durante a temporada carioca.
Acho que em nome disso, existe [ou existia] um pacto silencioso de também não questionar muito a qualidade sofrível do evento. Não lembro, tirando alguns cariocas com seu bairrismo, de nenhum editor ou jornalista de moda ou fashionista falar que alguma edição do Fashion Rio foi realmente boa. O que existia era: “pelo menos vai ser uma edição de verão, porque a de inverno é de chorar”.
Nessa temporada, o clichê do lifestyle carioca deu lugar ao do paulista empreendedor. Paulo Borges antes mesmo de assumir, já recebia elogios de que pelo menos o evento ficaria mais profissional. Para muitos cariocas, e isso eu li em muitos comentários, existia um misto de satisfação e revolta: “tem que vir um paulista pra dar ordem na casa”.
Tirando o fato dele ser paulista ou não pois isso é outra mitificação, a persona Paulo Borges é uma grande empreendedora mesmo e isso não tem relação nenhuma com sua origem, ou local de nescença mas sim com sua história pessoal. Fez marcas que nunca se bicaram conviverem juntas em um evento, organizou um calendário e produziu tudo com muito savoir faire.
Sua mão, logo na primeira edição, foi sentida, sinal de sua personalidade, [nunca vi uma cobertura tão boa do Rio Moda Hype] mas acabou chamando atenção ou evidenciando o problema de criação de grande parte das grifes que desfilam no evento. E a imprensa de moda finalmente resolveu deixar o assunto que possivelmente era tocado nos longos almoços e durante as compras [a qualidade da moda apresentada no Fashion Rio] e colocar no papel. Finalmente, nessa edição, tocaram em um assunto nevrálgico do Fashion Rio: a moda feita pelas grifes.
Tanto Gloria Kalil no Chic como Alexandra Farah escreveram sobre isso, como a força da organização demonstrou a fraqueza da moda no evento. É interessante que Farah acaba o texto com uma música que amo: ‘Você Não Vale Nada Mas Eu Gosto de Você”, algo que explica muito da relação dos editores e jornalistas de moda com o Fashion Rio.
Alcino Leite e Vivian Whiteman também escreveram sobre a mudança numa boa crítica que entretanto tropeça em bairrismos como “paulistanização” ou uma tal “brasilidade, tão presente no Rio, para o bem ou para o mal, virou material escasso”. Apesar de discordar dessas premissas, o importante é o fator elitização que eles apontam no texto. E se juntam ao coro e ressaltam a fraqueza das marcas. Dizem: “Uma certa afetação nouveau-riche, quando não ‘intelectual’, chegou a infestar a mentalidade de algumas marcas”.
Não estive lá como disse, mas essa mentalidade já existia desde que frequentava o MAM e a Marina, basta lembrar de certas cenografias de Bia Lessa, Arnaldo Antunes dando uma de poeta concreto recitando em um desfile e muitos etcs. O que parece que ficou claro agora, ou pelos menos a imprensa de moda resolveu tocar nesse assunto finalmente é o descompasso de algumas marcas que sempre se apresentaram no evento.
Isso sem falar de um grande paradoxo. Foi o próprio Paulo Borges e o SPFW responsáveis nos últimos anos pelo esvaziamento do evento, o mesmo que hoje ele tem a missão de dar um up grade. Mas como convencer marcas de excelência que optaram pela visibilidade e a importância do SPFW retornarem ao Rio? Como melhorar o line up do Rio com as mesmas grifes que desfilam por lá? Aguardemos os próximos capítulos.
novo-logo-fashion-rio
PS: O título “a província vista da metrópole”, é uma provocação aos bairristas e aos elitistas, que fique claro!

8 Respostas para “FASHION RIO GESTÃO PAULO BORGES OU A PROVÍNCIA VISTA DA METRÓPOLE

  1. Podem falar o que for do Paulo Borges, mas em matéria de organização de evento, ele é o cara.

    “Mas como convencer marcas de excelência que optaram pela visibilidade e a importância do SPFW retornarem ao Rio?”

    Boa pergunta Victor.
    bjão.

  2. Vitor, adoro ler seus textos!!!Também acredito ser dificil alguma marca de importância que desfila no SPFW desfilar no Rio…a não ser moda praia,pois aí tem tudo a ver. mas isso só o tempo dirá,kkkkk!!!!!
    bjsssssssssssssssssssssss

  3. De uma maneira geral os paulistas são ‘escancaradamente’ organizados e excelentes marqueteiros. O Donna Fashion é um fiasco muito maior que o Fashion Rio (que também desconheço). Mas isso não é só na moda não… Pode-se inclusive esquecer moda.

    Paulista sabe dar a medida certa de propagação para qualquer coisa e qualidade. Aqui no Rio, de uma maneira geral, eles não propagam nada (porque as pessoas vem ao Rio naturalmente) nem se importam com qualidade (porque as pessoas não reclamam, não se mexem e mesmo com a esculhambação geral, as pessoas seguem vindo ao Rio).
    E no Rio Grande do Sul (por favor, parem de tratar o Sul como um bloco porque são 3 estados bastante distintos, daria no mesmo que misturar SP, RJ, ES e MG e chamar tudo de Sudeste) há muita qualidade que não aparece. O gaúcho não mostra o que faz direito, pecando na midialização da coisa.

  4. quanta franqueza, juro – em tanta simplicidade!

  5. mas é claro que jornal carioca não vai gongar o fashion rio, ora bolas. eles lutam ardentemente para não terem que vir morar em sp, q nem eu. eu e adriana bechara hahahahaahahahahahaah

    acho engraçado esse papo de bairrismo, já te falei. no fundo, a política do café com leite só mudou as duplas de briga.

  6. eu, que não entendo nada do sistema da moda, queria saber se é muita ignorância minha achar que só era preciso ter essas semanas de moda brasileira em uma cidade do sudeste e uma outra do nordeste. Victor, é burrice pensar assim? [esquecendo o lado comercial, pensando só na “coerência” da coisa].

  7. Olá
    estou lendo varios posts sobre tudo que está acontecendo com o Fashion rio, que eu possuo um carinho muito grande pq faço parte de uma marca que desfila no Rio, Walter Rodrigues, e desfilamos no Rio até para fugir um pouco dessa centralização da moda brasileira nesse evento enorme e muito comercial …

    queria colocar em reflexão duas coisas que eu não deixo de pensar ..

    Primeiro .. Fashion Business .. pode não se ter a incrivel infra que o Paulo consegue em seus eventos … só que ele não consegue o resultado de vendas e nem o mesmo número de pesssoas em seus eventos de bussiness aqui, lembro de trabalhar uma semana em um evento paralelo ao SPFW, na propria bienal … e não chegava nem ao pé do número de pessoas na primeira hora do Fashion Business …

    Outra coisa é o extinto Amni Hot Spot, e as marcas que desfilavam, cade as marcas sobreviventes ? cade as lojas que vendem esses estilistas ? cadê o trabalho de inserir essas marcas no mercado ? …

    é isso …
    Obrigado

  8. Pingback: Semanas de moda do Brasil em links « /duodeluxo

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