A RELAÇÃO ESTILISTA E MODELO: O CASO MARINA DIAS – LINO VILLAVENTURA

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foto – Fabio Porcelli.

Meio felina, meio silenciosa, angulosa como um dodecaedro que de muitos lados são bons pra pose e de cada ângulo uma nova faceta, foi assim que vi Marina Dias no meio da fumaça do Hell‘s Club quando ainda era dentro do Columbia. Ela me chamou muito a atenção assim como as Gêmeas. Aliás os personagens silenciosos sempre fazem barulho na minha cabeça.
Depois a vi em uma imagem de sonho, de dramaticidade no desfile do verão 1997 de Lino Villaventura. Com certeza uma das grandes imagens produzidas pela moda brasileira.
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Essa imagem poderosa de uma ninfa, meio vampira de lentes brancas é cheia de dramaticidade, mas não era o drama carregado de teatralidade e sim de peso cinematográfico. Parece ela, Marina, chamar a nossa atenção mental para o zoom, para o close em seu rosto, seus seios e depois se afastar em um plano americano, mais aberto.
Lino e sua equipe muitas vezes comentaram desse desfile como um marco, pois muitos críticos ficaram chocados e alegaram que talvez a apresentação estivesse mais para o teatro do que para um desfile de moda.
Flashback!
É importante lembrar que também na mesma época, 1996, Ronaldo Fraga faz a sua estréia com o desfile “Eu Amo Coração de Galinhas”. A carga teatral do desfile de Ronaldo leva a editora de moda Lilian Pacce a escrever na época sobre a coleção de Fraga que “moda não é teatro”. Com esse parênteses quero dizer que a idéia de teatralização ou melhor a busca de formas diferenciadas de apresentação de uma coleção estava no espírito de alguns criadores brasileiros na época.
Se para Fraga seus desfiles tinha algo de circense e portanto de teatral, já que a origem e, mais ainda, o desenvolvimento do teatro brasileiro tem certas ligações com o circo, a dramaticidade de Lino, mais barroca na época, tinha, muito por causa de fotogenia de Marina Dias, uma ligação com o cinema e porque não, em última instância com o cinema de Glauber Rocha, autor igualmente barroco [tenho essa tese faz algum tempo e gostaria de desenvolvê-la com mais precisão mas ainda me faltam dados e tempo].
Fast foward!
Penso que durante o período que Marina Dias participou com ênfase dos desfiles de Lino, ela foi sua melhor tradução. O último que me recordo de sua presença magnânima foi o do verão 2006, que na minha opinião [balizado pela mestre Regina Guerreiro] foi o grande momento do criador paraense nessa década. Em imbricadas, complicadas e perfeccionistas construções em patchwork, Lino apresentou uma mulher atemporal. Mesmo Marina não abrindo o desfile, foi ela que alcançou com maior êxito a imagem daquela coleção. Enquanto algumas exibiam uma teatralidade que à essa altura era mais do que esperada numa coleção de Villaventura, ela apenas mexe uma das mãos enquanto anda. Deposita todo o drama apenas nessa mão. E nos faz delirar nas muitas mãos que confeccionaram todo aquele sonho [Lino me contou que sonhou com toda a coleção], faz querer que nossa mão toque naquela roupa. Enfim, com o mínimo, um dos apredizados do cinema, nos diz o máximo.
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Sinto muita falta dela nos desfiles de Lino hoje. Nenhuma modelo entendeu tão bem o imaginário do estilista, ou melhor, nenhuma modelo filmou tão bem para essa mente única da moda brasileira.

Pós post – Cesar Fasina, o stylist do desfile de verão 1997 de Lino Villaventura, me escreveu e fez uma espécie de memorabilia:
Foi feito à seis mãos ( Lino, Jackson [Araújo] e eu) . As lentes de contato brancas tiravam a alma das modelos, um olhar frio, “ bailarinas congeladas”… Amo este desfie. Fiquei muito emocionado quando terminou, foi um árduo e apaixonante trabalho… Lembro da Berriel trocar todo um look branco pra um totalmente preto….com 5 pessoas ajudando na troca, fechando as dezenas de botões minúsculos….feitos a mão….nas costas….Lino é um grande estilista. Foi uma honra estar junto.

7 Respostas para “A RELAÇÃO ESTILISTA E MODELO: O CASO MARINA DIAS – LINO VILLAVENTURA

  1. FASHION HANGOVER
    Eu sempre amei Marina Dias, pois ela frequentou minha casa, antes da fama… Eu odeio o fashion, mas amo algumas pessoas ligadas a esse universo, como o Vitor Angelo, pois ele está além da Ropa!
    Vivemos um momento fashion hangover! e só pessoas não inteligentes precisam de um personal stylist! Sorry Oficina! mas é a realidade. As divas do jornalismo sempre apontaram tendencias, dizendo o que é IN ou OUT… sempre usaram a expressão bicho grilo como algo datado e pejorativo… a palavra fashion agora já adquire esse mesmo significado e com muita propriedade, o mundo virou e falar de ropa de primeira dama se tornou como dizem as divas do jornalismo… so last century! Fomos para o deserto e temos que achar os novos oasis!

  2. Cada dia mais tenho vontade de andar enrolado num lençol, tipo Gandhi. “Aquele faquir nu”, como dizia Churchill.

  3. que homenagem linda amigo!
    tanto para mim qto para Lino!
    adorei!

    barroquismo quase cinematográfico!
    ;D

  4. ‘personagens silenciosos sempre fazem barulho na minha cabeça’
    sensacional, adoro.

  5. Sou autor da foto q abre o post , usada sem autorização .
    Por gentileza incluir crédito , fotografia – Fabio Porcelli .
    Grato

    Fabio

  6. Vejo essa mesma relação nos vestidos e na figura da minha avó.😛 Encantado com o seu texto. Você consegui transgredir a leitura da roupa.

  7. Pingback: ANTONIONI E VERUSCHKA « dus*****infernus

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