CLODÔ

clodovil

Clodô! Era assim mesmo que minha mãe e as vizinhas e suas amigas chamavam o estilista.
– Deixa eu entrar porque o Clodô vai mostrar mais um modelito que eu vou copiar praquele batismo que tenho em março!
Era isso, ele era um sucesso, o Clodô. Clô, só para os íntimos, como depois ele até colocaria no nome de um de seus inúmeros e polêmicos programas que nunca deram tanto certo como o impacto que foi ele fazendo croquis na TV Mulher que era por si só uma feliz novidade em tempos de abertura política. Tinha o Henfil fazendo esquetes políticas e de comportamento, a Marta Suplicy falando de sexo e a Marília Gabriela antes da chapinha fazendo entrevistas com as celebridades da época. Mas o Clodô era o highlight, ele respondia cartas, dava pitis e desenhava croquis ao vivo.
O acontecimento TV Mulher todo tem um tom surreal porque depois pesquisas indicaram que eram as crianças que mais assistiam àquela faixa de horário televisivo – não à toa o programa acabou e entrou… A Xuxa. Imaginem agora milhares de crianças vendo Marta falar de pênis pequeno, Henfil fazer passeatas nonsenses e, o melhor, Clodô dando seus pitis homéricos, o que pra educação de muitos foi muito positivo pois aprendemos de maneira singular o significado de bicha louca, sem os preconceitos atrozes das gerações passadas. Era uma visão de que apesar de gay e afetadíssimo, ele não estava à margem da sociedade – como era muito comum se pensar e se refeirir aos gays na época = marginais. Ele era super bem sucedido exatamente por ser gay e afetado. Depois dizem que ele não contribuiu pro movimento gay…
Sem falar do capítulo moda ao qual ele teve uma rixa histórica – alguns dizem que era tudo encenação – com Dener, outro grande costureiro da época e que ajudaram a construir uma imagem de glamour e nobreza para ambos, pois o clima seda pura e alfinetadas (= corte francesa) marcou (para o bem e para o mal) o imaginário nacional em relação ao oficío dos costureiros e estilistas. E, se em uma ponta, ele se vendia como um ser sofisticado, ele também foi responsável pela popularização a moda no país exatamente com o quadro que fazia no TV Mulher.

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Décadas depois, Clodovil continua a me causar espanto e impacto. A terça, dia 17, foi um dia atípico em São Paulo, ou melhor, um dia de cão em enésima potência. A chuva, a falta de luz e a internet desconectada me fez, como milhões de paulistanos, me ilhar em minha própria casa. Sem informações nenhuma, fui à piscina do Sesc já que lá tinha luz e eu poderia passar um tempo até a situação se normalizar em casa. Já era de noite e escuto esse papo entre dois caras:
– Meu, aquele Clodovil morreu…
– De Aids?
– Não sei, mas ele era mó locão.. meio GLS
– É mesmo, o boiola era super figura.
Nesse momento eles foram interrompidos por uma mulher meio irritada:
-Vocês poderiam ter um pouco de respeito pelo maior costureiro do Brasil?!
Sério, foi assim que soube de sua morte. E pensei da força popular e midiática de sua figura. E que ele com certeza ficaria feliz em saber que sua morte correu no boca-a-boca, por todos os cantos e todas as camadas sociais, não só entre os fashionistas. Os noticiários não cansaram de falar de sua morte como só acontece com as verdadeiras personas que o país venera. Clodô agora é purpurina!


Infelizmente não tem nenhum registro no youtube de Clodovil na TV Mulher, mas tem essa homenagem dupla de Elis, que era sua amiga e cliente, porque, apesar de pitizeiro, no fundo Clodô parecia ser alguém carinhoso!

Clodovil Hernandes (Elisiário, 17 de junho de 1937 — Brasília, 17 de março de 2009)

PS: Apesar de popularmente na época ser chamado de Clodô, como bem lembrou Marcelona, ele odiava esse apelido, mas era assim que as pessoas se referiam a ele.

8 Respostas para “CLODÔ

  1. Sabe que ele odiava esse apelido, né? Kkkkkkk…

    bj

  2. era clodô sim, vitinho. e olha ele aqui na tvmulher. bjsz
    http://g1.globo.com/Noticias/Politica/0,,MUL1046250-5601,00-VEJA+VIDEOS+SOBRE+A+CARREIRA+DE+CLODOVIL.html

  3. ai que docura a nossa Pimentinha…a suprema…doce, querida, dramatica…puro talento sem EQ…

  4. vc esqueceu da ala szermann!!! ela falava de pele e “capélo” na tv muler. kkkk. mas vc tem razão, o clodô era fenômeno entre gregos e goianos.

  5. Que texto tudo!
    Eu era uma das crianças que assistiu a Martinha falando de um trem lá qu’eu num entendia, mas peguei trauma do olho torto dela que só pode ser congênito, porque ela sempre teve. Mas sabe que eu gostava mesmo era dos pitis ótemos do Clodovil, como num dia que uma senhorinha se descreveu… 1,50, 90 kg com um corte de tecido vermelho, o que fazer com ele? E o Clodovil respondeu: vai de tomate, minha senhora!

    Bisous.

  6. Pre-ci-so agradecer. Seu texto me poupou ANOS de análise: eu sou geração da TV Mulher, e não da geração Xuxa! Aaaaaaah, então é por iiiiiisso… *rs*

    Quanto ao apelido, assisti ele um dia dizer: ‘Clô para os amigos, Vil para os inimigos, e DÔ pra quem quiser’. Juro! Fina, néam?

  7. … ela era mesmo um babado !!!

    bjks😉

  8. Adorei o texto! Valeu por me lembrar que eu assistia ele qdo criança!🙂

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