O JEANS E O MILK

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Quem me conhece sabe do meu desprezo pelo chamado jeans premium, essa sofisticação leviana que retira de um dos impérios da contracultura seu status libertador e igualitário. O jeans nasce como uniforme operário e ruralista no século 19, e torna-se, nos anos 60 e todas as décadas seguintes até metade dos anos 90, a melhor tradução em roupa da palavra igualdade.
Me recuso a pagar R$1000,00 em um jeans desde sempre e não só agora por causa da chamada nova política da moda perante à crise que os fashionistas estão adorando anunciar. O jeans deve ser sofisticado em sua excelência, em seus valores, não em suas lavagens e rasgos propositais. Não digo isso contra a técnica de lavanderia que acho muito interessante, mas pelo abuso nos preços exorbitantes do chamado valor agregado que algumas marcas pregam em suas peças.
Para mim, jeans bom, é aquele que envelhece no seu corpo, não o que envelheceram pra você. A manobra para encarecê-lo – com a desculpa que o tradicional jeans já não tem o apelo que tinha – tem como resultado a descaracterização da própria essência do jeans. Não que ele não possa ou não deva mudar, mas a perda de seus elementos primordiais como o ideal de uniforme e igualdade fazem dele mais uma roupa de outra ideologia, ou por fim, uma roupa banal, sem caráter, muito mais do que aquilo que os críticos na época diziam sobre os exércitos de jovens vestidos com seus jeans pelas ruas nos anos 60 e 70.
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Apesar disso o jeans tem seu lado fetichista. Esse, talvez, o único elemento primordial que permaneçou no chamado jeans premium.
Sempre tive uma atração pelo jeans five pockets e em especial o 501 da Levi’s. Fiquei um pouco reticente quando soube que a marca também quer apostar mais em suas linhas premium. Bom, pouco importa contanto que ainda faça jeans com preços razoáveis e o sempre clássico 501.
Acho que combina mais com a idéia de jeans que eu gosto de usar, a idéia de uma igualdade diferenciada, de uma igualdade possível, mas não de um igualitarismo.
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Essa idéia de igualdade diferenciada está muito presente no excelente filme “Milk – A voz da igualdade”, de Gus Van Sant. A história de Harvey Milk, um ícone da militância gay, é interpretada por Sean Penn que acabou ganhando o Oscar de melhor ator pelo filme. O militante quer o direito de igualdade pela diferença, não à toa, sua plataforma política é apoiada não só por gays, mas sindicalistas, idosos, deficientes físicos.
O filme tem a palavra igualdade no título traduzido para o português e respira liberdade a 24 quadros por segundo. E o mais engraçado e coerente é que o clássico jeans com suas carcterísticas de uniforme, igualitárias, fetichistas e libertárias é um elemento presente e essencial durante toda essa história.
É esse jeans que me interessa e que eu gosto, pois é legítimo em sua essência, não precisou de nenhuma lavagem – cerebral – pra se tornar melhor ou mais bem aceito!
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14 Respostas para “O JEANS E O MILK

  1. Adorei o post! É verdade, analisando toda a trajetória da história do jeans (Levi’s 501 que saudades!!!) chegamos a conclusão que o jeans nos dias atuais ‘banalizou’!!! Bjs

  2. Arrasou no post!!! Mas sobre a Levi’s eu acho que cada vez mais ela tá caminhando em busca desse jeans premium. Última vez que fui tentar comprar um jeans lá quase cai duro, pq achei bem mais caro do que era antes….

  3. Amei o post, Vitinho!
    Aliás seu blog é duca… virei fã!
    Beijo e abraço!

  4. Que show! Quando crescer quero escrever assim!

  5. vitor, acho mais que pertinente esta tua reflexão e ultimamente tenho achado que a injustiça no preço X valor simbólico das coisas tem atingido um nível absurdo. A gente não pode nem deve aceitar este desejo imposto que coloca um sapato custando 200, 300 reais e achar natural. 200 é muito dinheiro. não importando quanto você ganha. é muito dinheiro. dá pra 20 cinemas, por exemplo…
    e o jeans é a pior vitima, logo ele filho deste espírito americano que vai de Kerouac a Milk engendrando essa loucura e maravilha que tem a urbanidade.
    jeans de 1000,00? não que não seja bonito só não é justo.!!
    parabens pelo texto, as always!

  6. Ótimo post Victor, quem precisa de um jeans de R$1000,00? Diesel sucks…

    abração.

  7. No pais onde vivemos e que a moda masculina ainda caminha a duras penas devido a uma sociedade que busca a sua identidade. O jeans presente em todas as esquinas onde passamos e que adotamos como parte de look de trab, estudo e festas e onde a inovaçao e o investimento de um produto básico transformado em objeto de desejo, e que o ingrediente principal do mercado de jeans é a inovaçao para competir com o mercado interno e externo elevando a valores exorbitais adotados por marcas. um abraço

  8. Jeans sempre Levi’s 501, e tenho dito! Otimo Vitor!

  9. Angel, vc gosta de leite quente??!

    outro dia cruzei aqui na Micronesia com um estilista que faz parte da sua lista migus-hypes da moda. Bem, aí pensei no Ale e vários outros fashion designers e chegay a conclusão que o bom mesmo é ser estilista brasileiro (eles tem medo da moda), porque vc lança mil tendências, mas se veste de forma despojadinha, tipo moletom, camisetinha e jeans! Tipo assim, olha como eu sou low profile!
    Eu sempre falo pra uma editora/produtora de moda, se vc não sabe se vestir e vai sempre fazer a basiquinha, para passar uma imagem de despojada e não arrogante… desiste, afinal, moda serve para que??? Quem melhor que vc para ousar???! Nesse sentido temos que aplaudir a DUDU!!!

    ;0)

  10. O jeans é e sempre será uma peça indispensável do vestuário de quem preza pela praticidade e despojamento.O jeans para mim nunca foi sinônimo de desleixo e sim um baluarte que ao longo dos anos vem fazendo a cabeça de todos.Seja de moderninhos,descolados ou simplesmente de pessoas que são avessas á moda.Quando Calvin Klein introduziu a peça nas passarelas,tudo indicava que o êxito seria concreto.A peça que originalmente foi criada para marinheiros italianos e mineiros americanos,faz a cabeça de todos.Sem exceção.

  11. Vitor, amei!
    Você é demais… bjs e obrigado

  12. OI Vitor,
    Acho muito que este post tudo-junto-ao-mesmo-tempo-agora rende mais! Ou: dá para tirar mais leite deste post.

    abç

  13. Vitor, muuito bom esse post! Até falamos dele lá no nosso blog
    Beijos

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