ATENÇÃO PARA O REFRÃO

Eis a seguinte conversa entre uma amiga brasileira que está morando em São Paulo com o marido austríaco que está temporariamente em Viena:
– Aqui na Áustria a coisa tá feia, a crise chegou. Como está a crise aí no Brasil, você está sentindo?
– Desculpa, mas aqui desde que eu me conheço, a gente vive em crise. O Brasil sempre viveu na crise.

Quando ela me contou essa conversa, me veio a quantidade de textos que leio hoje na blogolândia – inclusive os meus – e nas revistas de moda brasileiras que começam ou terminam, “em tempos de crise”, “com a chegada da crise”, “a crise afeta a moda”, crise, crise… Tive uma crise de nervos!
Sempre vivemos em crise, ora nossa indústria de tecidos está em crise profunda antes mesmo da “crise” – os chineses que o digam. Nunca tivemos uma classe média que teve o direito de consumir bens e produtos de bom designer com dignidade sem entrar em crise, pelo menos no saldo do cartão de crédito. Sem falar na questão de crise de identidade, colonialismo, etc.
Aliás é por essa questão e não outra que a palavra “crise” inundou textos de moda com a pretensa intenção de deixá-los mais em sintonia com os fatos do mundo. Como se a moda de um dia pro outro resolvesse por si só acordar desse sonho louco que adormeceu há séculos. Pura falseta. A moda brasileira está tão interessada na crise quanto sempre esteve, pois lembrem-se: Nunca saimos da crise.
A crise é o novo preto só faltam escrever… Pronto, já escrevi!

É claro que a crise financeira mundial existe e está ai nas manchetes de jornais, não podemos negar, mas a banalização das palavras levam ao seu esvaziamento. Crise é uma palavra forte, origina-se do grego krisis; em latim escrevia-se crisis e seu significado semântico era ação ou faculdade de distinguir, ação de escolher, decidir, julgar. Quer dizer, o sentido não é de negatividade, mas prefiriu-se escolher desgastar a palavra, banalizá-la. Por um modismo tosco e culturalmente subdesenvolvido, já que a imprensa internacional de moda não pára de falar sobre o assunto.
crackde1929
A crise substituiu o DNA que substitui o perfume e hoje já nenhuma das 3 palavras têm muito sentido nos textos de moda. Fruto não de uma poética crítica pessoal, mas de um assombro de imitação. Pois não é só os estilistas que copiam o que acontece lá fora, os textos de moda também. Atenção!
dna_rgb
Atenção para o refrão: Por uma liberdade e poesia das palavras nos textos de moda. E chega de crises!

Anúncios

25 Respostas para “ATENÇÃO PARA O REFRÃO

  1. Tava na hora da lucidez. Imagina se os modelos assentados do bom viver do primeiro mundo servem pra gente de cá?!! Crise passamos com inflação inimaginável pro qualquer cidadão de outro país. A nossa crise é mais de auto-estima antes e bom mesmo que paremos de imitar, inclusive as tendências. Quanto aos textos em moda comecei a ver nestas últimas ediçõs nacionais uma mudança ou pelo menos mais respeito aos criadores. Será que teremos de dizer aos vários estilistas e jornalistas que eles são bons quando são originais? A crise é a nova esperança…

  2. Nossa, obrigada pelo seu texto excelente. Também tenho reparado que a @#&@#@* da palavrinha crise é uma das mais faladas atualmente.
    Trabalho há mto no mercado financeiro, e esta não é a primeira crise que vivo, nem a pior (na minha opinião). Mas,
    tem sido sem dúvida a crise mais comentada, mais na boca e no pensamento de todos… e o que eu já estou pensando é: será que o fato de todos estarem mais do que saturados e conscientes da crise, não ajudará de alguma forma – ou até mudará o desenrolar da #$@*&* da crise, a deixando menorzinha???
    As crises não são novas, mas isto, este coletivo grandão (consciente) é diferente….

  3. Disse tudo, Vitor! Superpertinente teu texto, adorei.

  4. outro dia comentei isso no blog do Luigi. sempre estivemos em crise, ainda mais na moda. povo não tem $ pra comprar coisas supérfluas… e se for, vai comprar na marisa e olhe lá
    eu mesma, como me toquei outro dia, gosto de moda, estudo moda, trabalho em assessoria de moda, mas não tenho NADA das marcas q desfilam. so coisas antigas da época que as marcas não eram tão caras. há 10 anos atrás, quando eu era adolescente, eu até era cliente da cantão e osklen, por exemplo. agora nem entro mais. e olha q, de acordo com o ibge, eu sou classe média alta.

    mas, fora isso, esse pânico de crise está em todo lugar. quem trabalha em empresas multinacionais está com o C* na mão, quem trabalha em empresas de prestação de serviço também… acho que é mais alarme do que crise. e o panico gera a crise de verdade.

    sem contar que talvez a nossa eterna crise tenha salvado o brasil da crise pior como tá nos EUA. q está falindo pelo excesso de consumo da população né (nego era milionário de cheque especial).

    aff, falei demais!
    bjssss

  5. Estou na crise da meia idade com 37 anos, serve?

    beijão

    PS- “A crise é o novo preto só faltam escrever… Pronto, já escrevi!”

    heheheh ,por essas e outras que eu sempre volto aqui.

    beijão 2

  6. oi, querido! mas os números são reais, depois de alguns anos de otimismo em que muita gente abaixo da linha da pobreza vem parcelando o celular em muitas vezes. é tudo muito caótico e, como sempre, a moda, que nunca fala com um mundaréu de gente mesmo (só com uma microparcelinha), fica mais sem sentido ainda. eu confesso que venho sofrendo desde o ano passado de um reajuste dos bons para o menos é mais, com mais foco e mais responsabilidade nas compras. esse arzinho mais pesado mexeu comigo de verdade. bjs
    ps. desculpa, mas eu adorei o crise é o novo preto. perspicaz, acidinho e extremamente bm humorado, como sempre.

  7. ai fiquei com a consciência pesada.

    me ajuda? ahhahaah
    :*

  8. parei de usar a palavra crise oficialmente a partir de agora. só vou mencionar pra repetir nosso slogan na oficina: “crise? decidi não participar”.

  9. Manifesto Ciganista Tropical Uplifting

    ANGEL, Tô aqui na Micronésia mas senti saudades do Macrocosmos então resolvi dar um Oi! pra minha miguxinha.

    Claro que não existe CRISE, afinal eu, vc e a outra ainda estamos trabalhando. Sorry, minhas crises sempre foram existências, as financeiras nunca havia sentido, apesar de “loca” sempre soube administrar bem as finanças.

    Mas claro não existe CRISE, nem AIDS!!!
    O governo sul-africano de Mbeki, afirmou durante anos era tudo uma conspiração. A ministra da saúde local, dra. Mato Tshabalala, disse que medicamentos anti-HIV eram venenos, era melhor usar alho, beterraba e limão.

    ANGEL, vamos levar adiante este Manifesto Ciganista Tropical Uplifting e pensarmos mega-positivo, NÃO EXISTE CRISE é só uma conspiração! teremos apoio total do Lula!

  10. Pela poesia em tudo que é texto! sempre. (acho que em jornal não cabe.. mas no resto sim, sempre)

    ps =ninguem acreditou meeeesmo que ele ia embora.rs.

  11. nucool, sempre fraco nas leituras, perdeu as aulas de compreensão de textos na escola, bee?
    crise sempre existiu no país assim como colonialismo e gente oportunista
    bjs
    adoro que o bom filho sempre à casa retorna

  12. é por essas e outras que sou muito muito muito sua fã!!!

  13. vitor te amo mais que a própria vida.

  14. Bee, obrigado pelo esclarecimento! Eu não sabia que essa tal crise era real, achei que fosse jogada de marketing da balada nova que vai abrir na Augusta, Crise Club.

    Bjo! :-*

  15. Vitor, te adoro, mas não vou babar ovo só pq vc é do contra e as pessoas adoram alguém que se destaque do bolo, não importa de que maneira seja. Só te digo uma coisa: o pior cego é aquele que não quer ver. Que a gente sempre teve que rebolar mais do que o primeiro mundo para sobreviver, é fato. Que nosso jogo de cintura para com as “crises” é, e sempre será, maior do que o dos gringos, também admito. Que a palavra em si está massacrando nossos olhos leitores há alguns meses, verdade absoluta. Mas fazer pouco caso da desgraça alheia é um pouco de anarquismo demais, desculpa. Os milhares de empregos suprimidos, as dívidas da indústria mundial, neguinho desistindo de desfilar em NY, Marc reduzindo tamanho da tenda, todos os reflexos que sentimos na passarela (cores, formas, apostas) são devaneios? Se a gente tem mais know-how em crise, acho bom praticar, pq quanto maior a merda lá fora, pior vai ser pra gente. A água tá batendo na bunda sim, Vitor, e é bom a gente assumir isso pra nossa vida também. Dito isso, seu texto tá mto bem escrito, viu? Bjo pra vc.

  16. syl, eu também te adoro e não sou do contra não. fui da turma que amou o Ronaldo Fraga, sou da turma que suoer acha válido os abravanistas, sou a favor de muita coisa.
    como escrevi iniciando um páragrafo: “É claro que a crise financeira mundial existe e está ai nas manchetes de jornais”. Assim como existe DNA e perfume
    O que eu me recuso é o uso clichê da palavra. Nesse sentido já perceber na moda brasileira um sinal da crise atual é alienação e colonialismo pois a crise sempre esteve presente. Essa desculpa eu não aceito. E espero mais poética, novas palavras nos textos, pois enfim, eles copiam análises que dona Menkes, dona Horyn fazem se disfarçando de atuais. Ninguém eprcebe que a indústria de tecidos está em crise no BR faz muito, mas muito tempo. Mas agora tudo é culpa dessa crise atual, que em parte influencia, mas que essa análise up to date é falaciosa nos textos de moda. Pra mim, como disse, colonialismo puro, até no escrever temos que copiar os termos de fora com as mesmas conclusões. Pelamor
    é isso, é Barthes puro!
    bjs

  17. adoro nossos embates, Vitor. Necessários, eu digo. I love you.

  18. Nucool, quanta mágoa neste coraçãozinho!

  19. Vitor, eu que adoro acompanhar seu blog. Cada vez mais aprendo tanto nas postagens quanto nos comentários. Há vida inteligente e com atitude na blogsfera, obrigada!!

    Beijos

  20. Pingback: CRISE? « dus*****infernus

  21. O sistema financeiro brasileiro vem sendo abalado desde os primórdios da República.Cotidianamente enfrentamos crises que já viraram verdadeiras mazelas sociais tais como:crise aérea,na saúde,na educação,na política,na segurança,no poder público,no trabalho,etc…Além daquelas crises pessoais que vira e mexe permeiam nossas vidas:crise existencial,crise de identidade,crise criativa e crise de ciúmes.Essa última bem mais fatal e avassaladora que a própria crise financeira,pois ela ceifa vidas e tudo vira um espetáculo para a mídia.A crise está aí para quem quiser vê,mas não vamos fazer desse momento o mais catastrófico da história.Fui!!!

  22. Arrebentou, Lino! beijos

  23. Pingback: NY Fashion Week - moda sem emoção » About Fashion

  24. Pingback: About Fashion » Blog Archive » Pausa nos desfiles para uma (prolíxa) reflexão…

  25. Pingback: POR UMA POÉTICA FASHION « dus*****infernus

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s