RONALDO FRAGA: A MEMÓRIA DA MUDANÇA

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Apaga-se as luzes do desfile do estilista mineiro Ronaldo Fraga. Entram senhores e senhoras de mais de 75 anos na pssarela. Comento com a editora de moda Mariana Rocha que as roupas estão estranhas, que existe algo de muito esquisito. Será que é o casting de velhinhos? Será que é a modelagem? Será que é a trilha?
Minutos depois eu descubro que o que existe de estranho é meu olhar. Acostumado com o padrão de modelos magras em que todas as roupas caem com perfeição, ou melhor, com toda a magreza e juventude que acabam escondendo as imperfeições, tive dificuldades de enxergar essa quebra de paradigma, esse cisco no meu olhar fashion estacionado em uma idade das pedras. O que era estranho e antigo era o meu olhar,
A velhice afirmativa exposta na passarela pelos elegantes senhores e senhoras denunciavam a velhice dos meus hábitos fashion, da minha visão cheia de discursos politicamente corretos, mas sempre legitimando o contrário, legitimando a beleza da juventude, da magreza e da falta de diversidade.
Estava na passarela a idade que avança e a idade que se inicia; um oroboru, a cobra que come seu próprio rabo. Na velhice está a memória, elemento essencial na criação de Ronaldo Fraga. Essa memória marcada em cada ruga, em cada passo lento no andar, toda a lembrança da mudança de um ser humano marcado no corpo, que aparece viva na relação com a infância, por isso a presença de crianças como sombra e luz de uma idade que já se foi.
O filósofo Henry Bergson diz: “Meu corpo é portanto, no conjunto do mundo material, uma imagem que atua como as outras imagens, recebendo e devolvendo movimento, com a única diferença, talvez, de que meu corpo parece escolher, em uma certa medida, a maneira de devolver o que recebe.”
E recebemos modelagens que lembravam silhuetas ovos, casulos, com mangas amplas como se daqueles corpos estivesse prontos pra lançar em todos nós borboletas e novas crias para uma imaginada e desejada – mas talvez apenas sugerida – idade de ouro da moda.

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Ronaldo novamente comentou sobre o tempo e a memória para nos trazer um outro tempo e uma outra memória: a memória do que ainda seremos.
Bergson diz “o que seria uma dor separada do sujeito que a sente?” e eu parodiando o filósofo pergunto “o que seria uma emoção separada do sujeito que a sente?”
Longe de todo o dicionário cool=frio que pretende justificar o vazio emocional de muitos fashionistas, a platéia veio ao delírio.
Como os cometas ou como pessoas que vivem mais de 100 anos, Ronaldo Fraga nos deu um momento raro, que nem sempre acontece nas semanas de moda. Nos lembrou que é possível mudanças, não aquelas de releases da imprensa que dizem que tal objeto ou desfile ou a moda vive de novidades – outro grande clichê mentiroso sobre a moda -, mas sim de mudanças reais.
Foi a sabedoria da velhice que nos apontou o que era verdadeiramente novo!

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19 Respostas para “RONALDO FRAGA: A MEMÓRIA DA MUDANÇA

  1. O Ronaldo Fraga é realmente um grande artista, sempre com um trabalho incrivel e cheio de referencias.
    Parabêns pela alegria que ele proporcionou as jovens senhoras do casting.

    abração.

  2. chatissimo. é incrivel como ninguem comenta que as roupas do r.fraga parecem de festa junina, que vestem mal e transformam mulheres em seres sem a menor sensualidade, exemplo: fernanda takai.
    mas tenho que concordar que as roupas dele ficaram otimas em pessoas idosas e em criancas.

  3. Será que já esquecemos as campanhas publicitárias de Jean Paul Gaultier dos anos 80? Os velhinhos, as pessoas com aparelhos?

    Como levantou Bern, no blog Nave de eter:
    ” Hoje, num mundo dedicado para ”Microtrendências”, onde cada vez mais se fala para nichos, algo realmente relevante e que já pode ser considerado como uma “Macrotendência”: uma sociedade mais velha. Nas próximas duas décadas crescerá a porcentagem de pessoas entre 60 e 80 anos e a razão é bastante simples: a expectativa de vida tem aumentado e o número de nascimentos diminuído. Simples a equação, não?

    Estes serão os consumidores das próximas décadas e desde já é bom começar a tratar bem quem vai comprar o seu produto amanhã. Respeito é bom e a boa idade já começa a reclamar seus direitos. A velhice não será mais enfadada pela idéia embotada das gerações anteriores. Psicologicamente mais ativos, confiantes e com boas reservas financeiras poderão levar uma vida repleta de novas aventuras dirigidas.”

    MONEY! MONEY!MONEY! MONEY!MONEY! MONEY!MONEY! MONEY!MONEY! MONEY! CONSUMO! CONSUMO! CONSUMO! CONSUMO!!

  4. nucool, você grita consumo, consumo, consumo como se quissese disfarçar que também gosta, -são mais de 40 mil pageviews, não? – e muito que te consumam principalmente quando você reduz tudo a um assunto obsessivo. Parece aqueles totalitaristas que dizem: o mundo é design, tudo é política, a psicanálise explica a vida.
    Quem você quer se enganar?

  5. mais dificil do que perceber isso nos outros é perceber em si mesmo

  6. eu AMEI a parte em que as mangas podiam fazer pensar que eles iam ser borboletas.

  7. Vitor Ângelo e NUCOOL,
    Sim, quero que a minha velhice seja uma Idade de Ouro, onde eu possa consumir sim e estar ativo mentalmente. Envelhecer com dignidade é uma das minhas metas. Coisa que neste país corremos um risco medonho de ser jogado às traças. Infelizmente não dá pra viver de luz e éter.
    Eu trabalho para o mercado, desenho tendências/microtendências para consumo e não tenho nenhum problema com isso. Atualmente faço um trabalho gigantesco sobre perfumaria e acho um tesão desvendar caminhos que possam ser inspiradores para fabricação de produtos, principalmente quando existem alguns que falam de ética, dizem respeito ao holístico, falam de comportamentos e caminhos mais bacanas que a sociedade pode construir… Quer saber?!? Esse é um trabalho fabuloso e é o que sempre sonhei fazer.
    Quanto ao desfile do Ronaldo Fraga, durante toda minha pósgraduação ouvi todas as interpretações semióticas possíveis sobre seu trabalho. De cada 5 professores, 5 falavam dele e cheguei a encher o saco, pois é como se não existisse mais ninguém na moda brasileira. Até que abri o “bocão” e mandei ver, porque não sou obrigado.
    Conheço toda a história de seus desfiles. Confesso que existem pérolas tanto com relação ao design, como com relação aos conceitos (A coleção “Judeus”, a coleção “China”, A coleção “Rio São Francisco” são exemplos). Mas apesar de lindas estórias contadas, Ronaldo também faz desfiles sofríveis como qualquer outro estilista. Este último foi verdadeiramente dodói e os “senhores e senhoras” da passarela são os últimos a terem culpa nesta estória. Não tem poesia certa para garantir o trabalho apresentado. Vitor, seu olhar não estava enganado, apesar de ter se sentido culpado por um olhar preconceituoso.
    A “INDÚSTRIA” da moda em si, não vive só de conceitos e poesia, mesmo que a bandeira seja a mais nobre possível como HUMANIZAR a moda. O que ela era antes? Tenho certeza que ele não quer suas araras abarrotadas de produtos que não vendem. Recomendo que você assista uma entrevista dada por Ronaldo para o programa da Marília Gabriela na estação passada.
    Uma das declarações mais sensatas que já ouvi sobre moda partiu de Alexandre Herchcovitch quando perguntaram para ele se moda era arte, e ele respondeu: Não, moda é business! Concordo, e acrescento moda é OFERTA, de expressão de subjetividade, fabricação de estilo pessoal, poesia, roupas em si…Mas, no fundo é um produto de consumo como outro qualquer. Nenhuma roupa vem com “release” e a poesia no” tag” pra explicar o espetáculo midiático.
    Beijos, tchau! Feliz envelhecer para vocês também.
    Não vou participar de polêmica online.

    Recomendo: O caso de Marx/ Peter Stallybrass
    http://www.autenticaeditora.com.br/livros/item/42

    http://advancedstyle.blogspot.com/

  8. bom, nem tudo que o Ronaldo faz realmente é sublime , mas é importante o entendimento dele de moda para além das roupas. E o melhor está no final do texto de Alcino no Última Moda: Maysa, Capítulo Dois (E Como Evitar a Tele-idiotia) em 07/01/2009. Parece que ao apreciador da moda só pode falar de roupas, pois tem que ser bem raso como tudo que imaginam que a moda é ou melhor, para permanecer no limbo do pensamento.

  9. É necessário uma relativização. O olhar preconceituoso existe e muda diante de uma proposta bem feita. Tocar no assunto e fazer poesia deixa menos árida qualquer verdade. Moda é bussiness, mas é comunicação e Ronaldo aproveita esta deixa para fazer seu discurso. Se a roupa não vem com o tag do espetáculo e nem o release do show, o homem nasce sedento de se acolher na utopia e na dignidade. Alexandre H. faz uma roupa com estes tons, e Ronaldo reforça o tom. Se deixarmos o olhar cair no vazio onde a graça?

  10. Vitor, esse assunto não vai ser uma nova Bienal. Outra hora conversamos sobre o assunto. Seu texto é tão brilhante quanto a análise de Alcino sobre Maysa, mas não partilho da mesma emoção e “visão” quanto ao desfile de Ronaldo. Sucesso e “vai fundo!” Tou bem feliz aqui no meu pires.
    Arrasa!

  11. Bernardo, não existe nada de ruim de não compartilhar da mesmo visão, isso é salutar, e o debate também.
    nada de vada um no seu quadrado pois isso é hit 2008 como talvez diria o analizador de tendências – essa foi só pra provocar amigavelmente.

  12. vitor, to lendo TUDO sobre o desfile do ronaldo pq fiquei meio flora com donatela com o assunto – a ponto de pensar em falar de moda e idade na monografia da ´pós hehee
    e seu texto foi um dos melhooooooooores, ate agora
    e a discussão aqui nos comentários melhor ainda.

    acho que as roupas foram o de menos no desfile, sei lá se faço mal em dizer isso. ronaldo quis, eu acho, mudar os nossos olhares velhos, como você disse. mas, mesmo assim, gostei das peças e achei bem coerentes com o estilo dele, com sua trajetoria (que pode até ter cara de festa junina e eu AMO me vestir de caipira).

    alguns estão chamando de teatro, golpe de marketing… e tem coisa mais teatral que andar nos corredores da bienal? um super mise-en-scene!

    e li esse post do alcino, mas nem tinha me atentado pra essa frase, genial!

    bjssssss

  13. Deixando de lado a moda e o Ronaldo.
    Parabéns pelo texto neste post.

    bjs e te vejo

    Jussara

  14. Pingback: O Curioso Caso de Benjamin Button « nave de éter

  15. Adorei sua questão do olhar, aquele cansado e previsível. Como é difícil abandonar a idolatria da juventude e da beleza, grande mestra a idade, que nos impõe a falta de vergonha na pele, na cara e no corpo e tanto nos ensina o tempo. Muito boa sua percepção. Love!

  16. Talvez agora as revistas de moda e entendidas em moda desse brasilvaronil, parem de classificar roupa por faixa etária. Não tem essa de revista (cola americana) de fazer páginas e mais páginas para quem tem 20+, 35+, 40+, 50, 60++. Isso é totalmente cafona , preconceituoso e muito ridículo.

  17. Pingback: A VELHICE « dus*****infernus

  18. parabens ronaldo fraga pela aideia de olhar pela a terseira idade , e aqui e apenas mais uma,um beijao meireles

  19. Pingback: IGGY POP E RONALDO FRAGA « dus*****infernus

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