PENSE MODA: O BRASIL NÃO CONHECE O BRASIL

Depois de assistir o incrível filme de Julio Bressane, Cleópatra, cheguei a uma triste constatação: a moda não se comunica-dialoga diretamente com as outras artes e manisfestações culturais do país e vice-versa. Por parte dos produtores culturais do Brasil tem um pouco de preconceito, desconhecimento e muito desprezo.
No Pense Moda, onde a discussão do DNA brasileiro permeou muitas das discussões, pra mim ficou a certeza que os fashionistas são completamente ignorantes sobre a longa discussão sobre identidade brasileira travada a mais de 500 anos no país e principalmente nos séculos 19 e 20. Acho que todo o debate estaria em outro patamar se o povo de moda no Brasil se debruçasse verdadeiramente sobre essa questão do mesmo jeito que finge entender uma cultura longígua pra inspirar a sua coleção ou mesmo pra fazer a “imagem” de sua revista, isto é, de maneira superficial mas que o assunto verdadeiramente passasse por essas cabeças que depois nos irão brindar com discursos lamentáveis no palco de um teatro italiano em uma fundação britânica.

Para tanto, eu, um mero blogueiro, coloco aqui uma pequena bibliografia de livros fundamentais que se não for ler, faça algum curso nas Casas do Saber – Escola São Paulo da vida pra saber do que se trata. Porque queridinhas, a discussão é bem mais embaixo e bem mais adiantada, eles já inventaram a roda, tá?!

Casa-Grande & Senzala – Gilberto Freyre. O livro é ponto de partida para entender a miscigenação brasieira, a influência dos negros na cultura e o que se denominou como lifestyle brasileiro. Depois da década de 60, marxistas e revisionistas fizeram uma crítica drástica a essa visão, mas ela ainda é ponto importante para o debate de identidade nacional.

Raízes do Brasil – Sérgio Buarque de Holanda. Junto com o clássico de Freyre e o de Antonio Candido, é um dos 3 chamados livros formadores da brasilidade, explica como Portugal criou e forjou uma sociedade diferente da dos espanhóis na América. Nele cria-se o termo “homem cordial”, fundamental pra entender várias nuances de nossa identidade como o imobilismo e a receptividade com o outro, o estrangeiro. Talvez o homem cordial imperou durante toda a discussão mais importante do Pense Moda, e aqui está um dos papéis do blog pra furar essa cordialidade de maneira cordial.

Formação da Literatura Brasileira – Antonio Candido. Na década de 1950 ele escreve sobre a literatura do nosso país exatamente essa frase. “Comparada às grandes, a nossa literatura é pobre e é fraca. Mas é ela, não outra, que nos exprime”. Será que eu preciso escutar a mesmo coisa mais de 60 anos depois num debate sobre moda como se isso fosse uma grande novidade?

Cinema: Trajetória no Subdesenvolvimento – Paulo Emilio Sales Gomes. Gênio, gênio. A questão das cópias está toda aí. Não há novidades em Erika Palomino hoje dizer que pode copiar porque Paulo explicitou isso na década de 60 de maneira muito mais profunda nesse maravilhoso tratado.

Retrato do Brasil – Paulo Prado. Com o subtítulo de “Ensaio sobre a tristeza brasileira” e escrito em 1928, é peça fudamental pra entender a nossa felicidade como objeto ideologizado. Brilhante, nos mostra uma outra face da chamada brasilidade e como reiterar que o lifestyle do brasileiro é a alegria e o despojamento pode ser uma grande repetição de antigos clichês.

O Mistério do Samba – Hermano Vianna. Pra não dizer que fiquei só no passado, esse livro recente de Vianna é fundamental pra entender como todos os nossos valores: feijoada, samba, caipirinha foram forjados como valores míticos-atemporais, mas não tem mais de 100 anos, todos elegidos pelo governo Getúlio Vargas.

Existe uma vasta literatura sobre esse assunto, passando por Darcy Ribeiro, Ferreira Gullar, mas só isso já dá uma idéia da miséria dos debates que estamos travando em moda hoje. Como eu disse, hello: eles já descobriram a roda!

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quanta brasilidade existe nessa imagem…

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25 Respostas para “PENSE MODA: O BRASIL NÃO CONHECE O BRASIL

  1. Isso mesmo!
    Pena que não fui ao Pense Moda. Mas esse seu post me faz pensar em Ronaldo Fraga como brasil = moda. Ao mesmo tempo vivems uma onda cosmopolita que sintetiza tudo…

  2. meu helicóptero não conseguiu pousar no quintalzinho do pense-moda e daí voltei pro iguatemi pra comprar umas coisinhas importadas… uma pena…

  3. ai vitor, me deu vontade de chorar… acho que ainda falta muuuuuuita escola e interesse pra todo mundo (e eu me incluo no todo mundo) pra começar a poder ter uma discussão dessas, né!?! será que tá tudo invertido ou discutir por discutir já é um começo?
    beijos

  4. adorei o post, porque essa é realmente uma questão que deve ser discutida (no melhor estilo add eternum) tanto na moda, quanto na cultura, música, etc.

    O Brasil tem uma cultura riquíssima, e é uma sociedade única. É uma pena que as pessoas estudem tanto baseado na Europa e EUA e se esqueçam de olhar para o próprio umbigo.

    adorei o post mesmo.

  5. vitor ainda bem que sou tua namorada, óbrégada.
    beijos.

  6. Pingback: PENSE MODA? « dus*****infernus

  7. estes teus textos são a luz no fim do túnel para eu continuar fazendo faculdade. é isso que quero, pensar a moda, não imagina-la, nem acha-la. ainda bem que (parece) as pessoas estão despertando para isso, então fica mais fácil discutir quando se há conhecimento de “causa’.

    beijos

  8. vitor! clap, clap, clap sempre pra você e pra sissi esmanhoto, viu?
    Ia sugerir o Darcy mas tá lá no final. Tem um da companhia que investiga nossas relações com o futebol que é genial também.
    Alguem disse um dia desses que vc era o agitador da moda-blogueira.
    acho mais, acho provocante, ponto díspar.
    o punctum do Roland Barthes, saca?!
    bom demais!

  9. Estou estudando sobre artistas contemporâneos africanos e a questão da autenticidade é toda hora posta em dúvida nas obras deles, parece ser um dos pontos em comum de muitos. A autenticidade imposta pelo outro, a identidade (que pode ser criada, recriada, quantas vezes você quiser) que o outro tenta te vestir, são questões que eles combatem de maneira extremamente hábil e complexa. Mas todos eles estudam história, são conhecedores do seu passado e do passado do outro. Sem esse conhecimento, dificilmente atingiremos a liberdade. A liberdade para encontrar o novo. O nosso novo. E ficaremos presos a criar imagens trágicas como aquela da Isabeli Fontana abrindo os braços fazendo a cristo. afff

  10. Tem uma coisa que no fundo acabo me orgulhando de certa maneira. Eu fiz outros cursos na vida, me formei arquiteto, e esta bibliografia eu tive que ler, sim, mesmo porque minha dissertação de mestrado era sobre a formação da arquitetura moderna brasileira. Eu não sei se é por pura preguiça ou presunção da moda não querer falar de identidade brasileira. Porém, fico sempre me perguntando qual seria a contribuição do Brasil para o cenário da moda internacional? Pois se pelo menos a gente soubesse disso não teriamos que aguentar tanta Chanel pela Forum ou Marni pela Maria Bonita Extra e por aí vai. Continuo achando que este tema não está tão batido assim em termos de globalização. Na época do Blog View quando a gente era “obrigado” a pensar moda, fiz um post sobre esta questão. Foi na época da Lenny e arquitetura, Maria Bonita e o movimento construtivista brasileiro, o Ronaldo Fraga, Erika Ikezili e Beatriz Milhazes… Não é uma questão de ser folclórico ou clichê. E sim, de auto estima.
    Mas vamos seguindo na nossa missão de pensar moda de um modo mais amplo. Sempre!

  11. ai to com uma mini-vergonha de mim mesma.

  12. Pingback: OFICINA DE ESTILO: MODA PRA VIDA REAL » Blog Archive » pense moda ao vivo e a cores (tudo na internê)

  13. com licença vitor, vou usar um palavrão no seu blog: CARALHOOOOOOOOOOOOOOOOO
    que puta tapa de luva, ca-ra-lho!

    me deu até saudade do professor Daniel Mesquita, de cultura brasileira, lá na puc-rj. dessa pequena lista só nao lemos com ele o antonio candido e o paulo (alias, vou caçar esse pra ler JA! meu projeto de mono da pós vai ter um viezinho assim)

    fiquei empolgada com o post da ivi, citei o seu e o dela lá no meu

    bjssss

  14. paula chrispiniano (ou paulinha anti-cristo, não ear assim que vc me chamava, seu monstro?)

    Pensei exatamente nisso que você escreveu durante alguns debates do Pense Moda. Parabéns! E graças ao debate de hoje sobre blogs resolvi cair nessa rede e me deparo com meu amigo Vitor mandando ver nos textos, nas opiniões, que ótimo.
    Só queria propor uma cosita: uma listinha de filmes, começando pelo Terra em Transe, passando por tantos do Bressane (vc citou o Cleópatra, que eu não vi – vou ver), Bandido da Luz Vermelha, etc etc… Um dia vc podia fazer uma lista né? Porque o cinema também ajuda muito a entender esse nosso caos. E lembrei que hoje no programa tem uma matéria com os gringos que vieram no Rio Summer e o Godfrey da FWD cita entre as coisas que ama no Brasil os filmes do Glauber Rocha. É… talking about referências… os caras não são bobos não. Por isso são gringos, ricos, brancos, bem vestidos, fazem bons editoriais, já nascem sabendo falar inglês, as vezes francês, veja você, uma loucura! Beijos, vamos nos ver mais!

  15. Pois é…fazer o quê? E por falta de conhecimento de obras primas constroem eventos vexames pelo Brasil. E a lista é grande né? Sem citar Darcy Ribeiro, Mário Pedrosa, Hélio Oiticica, Guerreiro Ramos e por aí vai…

  16. Eu super pensei em Raízes do Brasil em muitas das palestras!!! Mas eu concordo com o que o Oliveros disse, principalmente na questão da formação diversa de moda. Acho que isso ajuda e muito abrir os olhos e entender melhor outras áreas da nossa cultura. Aquela história de sair da casinha, sabe?

    Puxando um pouco para o lado do jornalismo, acho que é por isso que a gente gosta e admira tanto o trabalho do Alcino. Ele não veio de uma escola de moda, nem começou trabalhando focado nisso. Daí que ele traz um bagagem muito mais ampla e super interessante para suas interpretações e opiniões sobre a moda tanto aqui como lá fora.

    Mas quanto a questão da identidade brasileira, tenho que confessar que tenho um pouco de preguiça dessa discussão. Sinceramente não sei até onde isso é uma implicância minha, ou um mal de eu ter crescido já meio inserido nessa era globalizada, ou se de fato não faz mais sentido ou é ultrapassada essa questão dada as condições gerais de mundo que vivemos… Enfim, temos que continuar pensando sobre isso…

  17. Pingback: Identidade(s) brasileira? » About Fashion

  18. ANGEL, depois desse flop! só pude transferir para o blog A VINGANÇA DOS ACADÊMICOS (tão desdenhado pelos “modernos”) aquele texto que escrevi em 2006, onde vc é inclusive personagem…
    ;0)

  19. …acho oportuno publicá-lo aqui no blog, quando o conhecimento virou mercadoria e alguns criam eventos com qualidade de informação duvidosa, cobrando altíssimo preço pelo acesso a esse tipo informação…
    ;0)

  20. Pingback: Turn Back Time - identidade(s) brasileira » About Fashion

  21. Você não imagina a loucura
    O ser humano ta na maior fissura porque
    Tá cada vez mais down o high society….

  22. Faltou citar o livro de Gilda de Mello e Souza, “O Espirito da Roupas”, que congrega moda, literatura e informação cultural de grande relevância para a compreensão da identidade nacional. 😉

  23. E quando eu disse para uma amiga que ela devia estudar mais sociologia para enriquecer sua dissertação (e seu trabalho) sobre moda ela me soltou:” o que diabos sociologia tem a ver com moda?”

    o.O
    Vai entender…

  24. Pingback: ::O CHINFRIM DA PRADA NO CORTIÇO:: « Saia Lapis

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