LINHA DE PASSE E GLORIA COELHO

“Linha de Passe”

Existe algo de Rosselini nesse que é o melhor filme de Walter Salles e sua parceira Daniela Thomas: “Linha de Passe”. Existe algo de Gloria Coelho em Cleuza, a personagem de Sandra Corveloni que levou o prêmio de melhor atriz no último Festival de Cannes, assim como tem algo de Anna Magnani do clássico “Roma Cidade Aberta” em um tom abaixo na interpretação da Corveloni. A dama Anna Magnani sempre de preto, pelo menos o filme é em P&B, e seus looks são variações do cinza e do preto, cor preferida de Gloria Coelho.
Mas o que liga a estilista de vestidos tão sofisticados a esse filme que se passa na periferia pobre de São Paulo é outro drible.
Faz algum tempo Jum Nakao e Kiko Araújo organizaram uma excelente exposição coletiva no Sesc Pompéia, “Conflitos e Caminhos”. E chamaram duplas de estilistas pra trabalharem juntos na construção de uma roupa-instalação. Gloria Coelho foi escolhida para fazer seu trabalho junto com seu filho Pedro Lourenço. Junto a cada roupa tinha um vídeo que era possível ver o processo da feitura de cada roupa. Gloria civilzadamente discute muito com seu filho a ponto de resolverem que um faria a parte de baixo do vestido e o outro a parte de cima. O trabalho fica muito interessante e Gloria, que tem um ateliê ao lado do Largo da Batata, encerra o vídeo falando que aquela região – para quem não é de São Paulo o Largo da Batata é um lugar que sai muitos ônibus para a periferia da cidade – sempre ofereceu inspiração para ela e coloca uma modelo desfilando pela região como forma de retribuição – existia algo do vestido ser feito de um material popular que eu não me recordo agora, se alguém se lembra, por favor …
Cleuza, em “Linha de Passe” é uma empregada doméstica que com certeza deve pegar ônibus no Largo da Batata. Cleuza tem 4 filhos. Cleuza educa seus filhos mas também os deixa ser, assim como Gloria com Pedro na feitura de seu vestido.
Cleuza usa e abusa da gola rolê. Seja torcendo pelo seu time Corinthias, seja em casa, ela usa essa gola que muito tem da armadura que tantas vezes está presente na roupa de Gloria Coelho – ela fez no verão 2005 uma coleção inspirada no filme “Tróia”. Aliás muitas vezes se criticou Gloria por esse gosto por uma roupa como armadura mas no fim ela estava mesmo pensando na mulher de sua cidade, uma mulher independente, que cria seus filhos, se defende e por isso a armadura. No caso de Gloria, ela reinventa com sofisticacão essa mulher urbana, essa mulher de São Paulo que o filme de Walter Salles e Daniela Thomas tão bem retratam como um comentarista narrando um gol de Pelé, ou melhor, Sócrates.


verão 2009 Gloria Coelho


“Linha de Passe”


inverno 2005 Gloria Coelho


“Linha de Passe”

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3 Respostas para “LINHA DE PASSE E GLORIA COELHO

  1. vitor ângelo, quanta sensibilidade. ler seu post me deu vontade de viver mais, pra rechear o meu repertório de referências e pra ir aprendendo, com a vida e com vc de amigo, a relacionar elementos assim, tão lindamente. eu a-mei esse post, tipo top favorito.

  2. ahhh vitor angelo. que texto primoroso, quanta referência e reverência. Metáforas lindas, mulheres lindas. O jeito como você olha me faz querer ser espectadora através dos seus olhos sempre.
    parabens demais.

  3. Realmente você tem um jeito totalmente diferente, de olhar a moda e outras artes!
    Me apaixonei pelo seu post.

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