A DEUSA CLAUDIA WONDER

Claudia Wonder, uma das performers mais espetaculares que conheço ,lança livro hoje, confira o flyer:

Abaixo texto que escrevi para a DJ Mag nº 6 de junho de 2007 sobre Claudia, a Wonder:

Em tempos que as travestis parecem confundir candidatos a galãzinho de novela das 6 e jogadores de futebol, Claudia Wonder, que nasceu como Marco Antonio Abrão, nunca teve dúvida do que queria ser: Artista. E foi com essa certeza que se construiu uma das figuras mais importantes da cena underground no país.
Quando criança sonhava em ser Miss Brasil. “Sabe o filme ‘Minha Vida em Cor de Rosa’(de Alain Berliner, que narra as desventuras de um garoto que tem certeza que nasceu no corpo errado, pois se sente uma menina)? Pois é exatamente igual aquele menino que eu me sentia’, declara Wonder para a DJ Mag.
Apesar de seus pais reagirem de forma positiva quando Claudia resolveu sair de seu corpo, a sociedade, na época, não via com bons olhos os “transviados”. “Na década de 70, você podia ir presa só por dar pinta na rua”, lembra.
Mas seu sonho era o palco: “A primeira vez que recitei um poema em público, quando recebi os aplausos fiquei emocionada!”. Claudia percebia naquele instante, na expressão artística, uma maneira de ser aceita como ela é.
Nos começo dos anos 80, Claudia conhece uma turma da pesada literariamente falando: Glauco Mattoso e Roberto Piva, resolve raspar a cabeça, mergulha nas leituras do filósofo Nietzsche e do psicólogo Jung e participa da peça transgressora de Jean Genet, “Nossa Senhora das Flores”, com Luiz Armando Queiroz em 1984.
Com essa bagagem se sente pronta para seguir o conselho de seu amigo, o produtor Beto Rochenzel: “Claudia, se você fizer um show de rock nós vamos arrebentar”. E em 1985 fez uma série de apresentações históricas com sua banda “As Novas Flores do Mal” que depois se transformaria em “Jardim das Delícias” e por último “Truque Sujo”. O show que recebeu críticas super elogiosas e fez Claudia ter fãs do calibre de Cazuza e do escritor Caio Fernando Abreu tinha versões de músicas de Lou Reed, Nina Hagen, e até um poema de Glauco Mattoso musicado. Mas o ápice e a grande comoção eram quando Claudia ficava nua em uma banheira cheia de groselha e espirrava o líquido nas pessoas. “Não podemos esquecer que nos anos 80, a AIDS era chamada de peste gay e essa era minha resposta para toda uma perseguição contra os homossexuais que se construía na época”. Quem assistiu a essa cena como esse repórter jamais esquecerá o impacto da nudez de uma travesti molhada daquilo que parecia sangue.

“Agora eu vou te confessar uma coisa, nós éramos muito undergrounds, não tínhamos ‘holdies’, então éramos nós mesmos que carregávamos a banheira que era super pesada. Depois de um tempo aquela banheira virou um estorvo”, relembra Claudia de maneira iconoclasta.
Os anos foram passando e apesar do sucesso, a carreira parecia não engrenar, além disso, a cena rock estava mudando assim como uma certa agonia em relação à AIDS ainda se sentia no ar. Claudia sente que é hora de deixar o país como outros milhares de brasileiros. Passa 11 anos na Suíça. Lá, ela se casa, tem uma clínica de beleza, mas a saudades aperta e resolve voltar.
Aos poucos volta à cena. Sua primeira aparição foi no Lov.e fazendo uma personagem do filme “Marte Ataca”, de Tim Burton, a marciana que masca chiclete. Mas a música a persegue e começa a tentar novamente prosseguir sua carreira. Em setembro de 2007 lança seu primeiro álbum solo “FunkyDiscoFashion”, novamente com ótimas críticas.
Hoje Claudia divulga seu cd, prepara um livro de crônicas chamado “Olhares de Claudia Wonder” (ed. Sumos) para lançar ainda esse ano e é tema do documentário de Dácio Pinheiro, “Meu amigo Claudia”.
Sem mágoa ou rancor, comenta: “Eu poderia estar hoje no mesmo patamar de todas as bandas de rock dos anos 80 que começaram comigo e simplesmente não estou porque sou diferente”. Diferente como todo bom artista!

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2 Respostas para “A DEUSA CLAUDIA WONDER

  1. Tá a cara da Gabi Gabriela!

  2. Claudia; pessoas que são especiais; jamais deixarão de brilhar e por sorte, pude conhece-la; que sua estrela brilhe, tanto quanto a luz e a energia do Sol.
    Muitos beijos; Vc sabe fazer a diferença…

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