SEMANA LULA RODRIGUES: A MODA MASCULINA, SUA HISTÓRIA, SEU RITMO E A IDENTIDADE SEXUAL


Quando se fala em moda masculina, Lula Rodrigues é referência, sabe muito! Sempre que o encontro nas semanas de moda, quero saber suas opiniões antenadas sobre o que está acontecendo na esfera da moda para os homens. Nessa última SPFW, depois do incrível desfile da Reserva, falei que queria muito conversar com ele, com mais tempo sobre questões que me inquietam. Combinamos que eu escreveria para ele e travaríamos uma conversa por e-mail – Lula escreve no O Globo, é um dos blogueiros de moda mais antigos do país, tem uma revista de streetwear e cultura de rua – a Street Magazine -, sabe também muito sobre HQ e mora ainda no Rio (digo ainda porque São Paulo vai ganhar esse carioca de presente em pouco tempo). Ueba, como ele mesmo diz.
Bom, o Lula é tão querido e generoso que fez um tratado sobre minhas perguntas e como tem muita informação valiosa resolvi fazer uma semana Lula Rodrigues aqui no blog para que todos tenham tempo de digerir a quantidade de boa informação que ele traz.
Antes disso quero dizer que mais do que os criadores, acredito que os críticos da moda masculina realizam uma profissão de fé, (além do Lula, hoje Sylvain com seu blog e Oliveros na Playboy são boas indicações para entender melhor a moda para os homens) pois investem em um assunto que aparentemente parece menor na moda, já que todos ficamos mesmo atento ao que acontece na moda para mulheres, mas o amor deles com as roupas para os homens parece que começa a surtir efeito e a se espalhar.
Bom meu papo com Lula começa assim:

Na sua opinião, um dos entraves da moda masculina passa pela questão da identidade sexual ou não?

Com certeza, queiramos ou não, a identidade sexual é sinalizada pela moda masculina. Deixando de lado os arquétipos primitivos, este é um comportamento que rola desde o século 18, com o advento da Revolução Francesa. Foi logo depois deste evento, que o estilo da aristocracia inglesa, ligada no campo e numa vida menos cortesã, passou a ser referência na moda para homens.
É uma história longuinha, mas temos uma boa nova: estamos no pico de uma era de mudanças, de mudanças nas identidades homem X mulher, mas para fruir todos os movimentos, precisamos entender o papel do homem no seu tempo histórico.
Flash back: com Luis 14_o período barroco_ou século francês – ou ainda 17, o pavão atinge o seu ápice. A moda masculina de Versailles dava o tom e era copiada por toda a Europa e, conseqüentemente, por todas as colônias espalhadas nos outros continentes.

Luis 14
A moda da aristocracia era suntuosa e o Rei Sol controlava tudo. Depois, no período do rococó, o homem super luxuoso, delicado e super vaidoso virou um acinte, gerou mudanças sociais. Com a Queda da Bastilha, em 1789,onde ficavam presos os inimigos do rei Luis 16, a burguesia ascendente tomou conta da cena. Ser confundido com aristocratas, com suas roupas bordadas a ouro e prata, poderia resultar em guilhotina.

os ingleses ditam a moda masculina
A austeridade_ou melhor_ a simplicidade e praticidade do estilo dos aristocratas ingleses virou a refêrencia, que se adaptou aos novos tempos, e que dura até hoje. Por incrível que pareça, foi daí que começou um comportamento que travou a fantasia na roupa masculina e que chega aos nosso dias, revelado na pérola machista que questiona os mais audaciosos perguntando: “onde você comprou essa roupa, tem para homem ?”
No século 18, o dândi Beau Brummell – ao contrário do que muita gente pensa _ foi o responsável por um estilo “less is more” [menos é mais], que reforçou a discrição na moda masculina. Em termos de simplicidade no estilo, ele batia de frente com o príncipe regente e futuro rei George 4, que o bancava, pagava suas dívidas no jogo. Brummell “ajudou” aos homens a trocarem os culotes pelas calças. A data? Foi a partir de 1830. Foi ele também o responsável por instigar no inglês a paixão pela alfaiataria de Saville Row, que começou a ser construída entre 1731/35, no coração de Londres. Mais tarde se tornaria – até hoje – a meca dos adeptos da elegância discreta. O alfaiate inglês, é uma espécie de couturier para homens.

Beau e chic
A moda se torna mais austera no período vitoriano e a Revolução Industrial, no século 19, editou um burguês rico e discretíssimo, a sua mulher, ou amantes, vestidas com roupas ricas, criadas pelo pai da couture, Worth, usando muitas jóias, tais como parures de diamantes, por exemplo, eram o seu cartão de visitas. Davam o seu aval de poderoso, mas discretíssimo em sues trajes pessoais.
Isso rolou no auge do Império Britânico e foi replicado por todo o planeta_inclusive no Brasil. Vivemos um momento em que os ricos tem que se disfarçar, se esconder em carros blindados. Alguma semelhança ??? É preciso que reflitamos.
Aí entramos no século 20_ o século que tentou_eu disse tentou_editar um homem moderno, colorido, alegre e nada discreto. Foram muitas as tentativas_com força nos anos 1920 e depois a partir dos anos 1960, começou uma saga. A moda se propôs a mudar o homem, tentou reeditar o pavão do século 17.

Duque de Windsor, referência de elegância masculina
As tentativas resultaram em mudanças encabeçadas por homens de estilo. Do Duque de Windsor a Gianni Agnelli, por exemplo, chegando aos dândis modernos.

O dandismo passou a significar um homem afetado, colorido, extravagante, contrariando tudo o que pregava o Beau Brummell, pasmem, que era hetero convicto, e morreu de sífilis no exílio, na França, por ter caído em desgraça, ao, inadvertidamente, chamar o rei de gordo. No cenário masculino, dândi passou significar gay.
A partir dos anos 1960, o segmento gay começou a “sair do armário” e, a partir dos anos 1970, a mostrar o seu poder de consumo, de voto etc. e ganhar a simpatia da platéia em peça e depois filme Gaiola das Loucas, de 1973, e filmes tais como Priscila, a Rainha do Deserto, de 1995. Na entrada dos anos 2000, passou a interferir no visual do hetero. Com a edição do nosso último pavão_o metrossexual_ rolou um começo de uma nova era masculina. Eu disse o começo.


David Beckham, símbolo do metrossexual
O homem brasuca ficou com medo de dormir metrossexual e acordar gay. O susto passou. O metro e seus similares acabaram em 2005. O homem nunca _ eu disse nunquinha_esteve tão no foco da mídia com está agora. Nem mesmo Luiz 14, que tinha o seu estilo e elegância, difundido pelos journals de modes da época. Hoje, vivemos a era do homem mais bem informado de toda a história da humanidade. Começamos um novo ciclo masculino.

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23 Respostas para “SEMANA LULA RODRIGUES: A MODA MASCULINA, SUA HISTÓRIA, SEU RITMO E A IDENTIDADE SEXUAL

  1. dorei o passeio… ,D

  2. Me senti lendo “O Mundo Fashion de Sofia”!

  3. Adorei a matéria com o Lula! Uma senhor aula. E principalmente pros homens, que ainda têm alguns conceitos fechados com suas vestimentas e poderiam ousar mais, sem receio.

    Ah, sobre o selo Dardos, eu tb não faço a menor idéia daquilo, Vitor. Hahaha, mas achei fofo vc ter seu blog lembrado, as pessoas se remeterem ao blog da gente. Isso já é bacana demais.
    Beijos!

  4. Pingback: . ABOUT FASHION . » Blog Archive » engrossando o coro

  5. E tomara que a moda masculina de hoje, comece a mostrar muito mais o seu poder,sem que os “homens”(aqueles se se acham “macho”), pense que cores, modelagens e tamanhos diferentes do “normal”, são meio bicha!
    Já estamos num ótimo começo, já que hoje não é dificil encontrar um metrossexual.

    Ótimo post!

  6. Parece que há mesmo um inconsciente coletivo, ou o que incomoda uns incomoda também alguns… eu tava preparando um post manifesto sobre a antifeminilização da moda feminina… até anunciei no blog… agora fico na obrigação de fazê-lo… hehehe

    Beijão

  7. EEBBBAAAA!!! Uma minisérie imperdível de acompanhar. O primeiro capítulo já me ganhou de cara. Amei!!!

  8. gente, como tá chique o terno marinhão e o sapato marrom, não? =)

  9. Pára Vitor,isso não é um post. É uma materia de luxo para sei lá…a Vogue Hommes ou para a Numerò…heheh.
    D+, cara !!

  10. Pingback: SEMANA LULA RODRIGUES: A MODA MASCULINA, OS GÊNEROS E A RELAÇÃO GAYS E MULHERES « dus*****infernus

  11. Sou fã sua e do Lula!!!!
    Muito bommmmmm!!!!

  12. Pingback: OFICINA DE ESTILO: MODA PRA VIDA REAL » Blog Archive » aulas de compreensão da moda masculine

  13. que delícia uma revisão das minhas aulas de hist. da moda! mto bom!

  14. Maravilhoso o post.

    Estava mesmo procurando alguns significados para o homem de hoje.
    Adorei o flashback e vou acompanhar o resto, e depois terei algumas questões para o Lula!
    O Homem bem Vestido agradece as informações e queremos mais.

    beijos

    Fabio Allves
    http://homembemvestido.wordpress.com/

  15. nossa gente, que informação mais maravilhosa! Muito obrigada aos dois, muito legal mesmo… vou ler tudinho. posso postear isto no meu blog? se chama blogcouture e é “Made in Uruguay”. Saludos!

  16. Pingback: About Fashion » Blog Archive » tem que ler…

  17. Um bom site para comprar artigos de moda masculina:
    http://www.m0daexecutiva.com.br

    São rápidos na entrega.

  18. Pingback: CARIOCAS EM AÇÃO: LULA RODRIGUES E MARCIANA « dus*****infernus

  19. Sinceramente não acho que os homens de hoje tenham nenhuma elegância comparados a homens como o Duque de Windsor ou seja Edward VIII por exemplo que era um exemplo não somente de elegância como também de beleza e galanteios!
    Essas roupas que os homens de hoje usam tenha dó é ridículo, esses bermudões é tudo muito feio, precisamos desesperadamente de homens mais bonitos e elegantes com toda certeza!

  20. adorei. estou lendo um livro incrível, “homens de preto” (de john harvey), sobre como o preto deixou de ser a cor do luto e se tornou sinônimo de elgância, principalmente no vestuário masculino. aconselho pra quem quer saber mais sobre moda masculina. fala de como os dandis, hoje identificados com um visual rebuscado, foram, na verdade, os primeiros a adotar o preto e cores escuras como uniforme masculino para ocasiões formais.

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