A IMAGINAÇÃO NO PODER: 40 ANOS DE MAIO DE 68

Um dos grandes orgulhos do povo de cinema é proclamar que Maio de 68 começou na realidade em fevereiro quando Henri Langlois, amado por quase todo mundo da 7ª arte (fato em si já bem raro!) foi demitido da presidência da Cinemateca Francesa pelo Ministro da Cultura, André Malraux, famoso escritor, uma espécie de Gilberto Gil do governo De Gaulle.

estudantes contra De Gaulle Estudantes X De Gaulle

O intelectual e pesquisador de cinema provocou uma série de protestos de estudantes, intelectuais e classe artística e acabaram ficcionados por Bernardo Bertolucci em seu filme “Os Sonhadores” (The Dreamers, 2003).

O poder nas ruas

Gosto de pensar nessa alegoria pois o cinema sim, na década de 1960 era A manifestação, A expressão mais antenada que o mundo dispunha. Não à toa que todo jovem tinha planos de fazer um filme na época.

Sim, muitos vão me perguntar, e a música? Diferentemente da música e igualmente à moda, o cinema tem a indústria, a reprodução/cópia em seu DNA, no seu específico. Realiza-se sempre em uma escala que o único, o precioso não se impõe (apesar da moda sofrer com o paradoxo da Alta Costura). O que se chama indústria fonográfica é a tentativa da música de acompanhar esse novo momento do Homem que o sempre citado e lido nas universidades Walter Benjamin chama de reprodutibilidade técnica. Outro fator, o cinema assistido na época e comentado era o que de mais moderno e avançado em termos de linguagem estava sendo feito, aliás o cinema fez um tour de force e avançou em menos de 100 anos o que as artes estavam discutindo durante mais de 3 mil anos. Os Cinemas Novos colocavam a discussão da imagem em pé de igualdade e logo “avant-garde” (desculpa o termo mas acho que posso usá-lo em se tratando de Maio de 68 ) em relação a qualquer outra arte visual. Já a música consumida era a pop, que tem os seus méritos mas estava longe da pesquisa de ponta que a música fazia com os pós-serialistas, concretos, aleatóriose eletrônicos. Não era Berio ou Boulez que era consumido e sim Beatles, nenhum problema, mas não era a informação nova de linguagem em música que estava sendo absorvida.

Voltando aos 24 quadros por segundo: Godard em 67 ao filmar “A Chinesa” já contava em imagens aquilo que iria se tornar realidade. Um grupo de jovens esquerdistas querem mudar o estado das coisas durante as férias. Eles alugam um apartamento, vivem em torno das palavras de ordem, tentam matar um líder político e no fim devolvem o apartamento e voltam para as suas vidas normalmente. Exatamente como aconteceu um ano depois.

A Chinesa”: premunição

Mas quando o evento ocorre no calor da hora, ele e seus amigos de Nouvelle: François Truffaut, Alais Resnais, Eric Rohmer, Claude Lelouch com o apoio de Monica Vitti, Milos Forman, Roman Polanski e Carlos Saura impedem a realização do Festival de Cannes que ocorria ao mesmo tempo que os estudantes estavam protestando na rua. As salas de projeções viraram foruns acaloradas. Romantismos à parte, para eles era inconcebível realizar um festival enquanto o mundo estava mudando.

Só coloco esse adendo pois lembrei de uma edição do SPFW que aconteceu durante ameaças de ataques do PCC e tirando o nosso fashionista trotkista Alcino Leite e sua companheira Nina Lemos, ninguém se manifestou em crítica sobre o absurdo que estava acontecendo na cidade. Como se moda e vida não tivessem nenhuma ligação! Aliás tento acreditar que hoje a moda é A manifestação, mas ainda no armário, pois nos falta auto-estima e sofremos de um complexo de inferioridade avassalador, basta ver como pagamos pau pros artistas plásticos, designer e arquitetos que ainda estão quando muito com idéias do século 20 e criando igualmente se nesse época vivessem.

A moda deve encontrar seu específico e não depender de outras artes como assim fez o cinema na década de 1960 que abandonou a literatura e o teatro para encontrar-se.

Apesar das muitas mudanças que Maio de 68 trouxe, a maior de todas, para o bem e para o mal, é o estrelato da subjetividade, prova maior que isso são os blogs e EU um exemplo.

Anúncios

6 Respostas para “A IMAGINAÇÃO NO PODER: 40 ANOS DE MAIO DE 68

  1. eu gosto do filme A Chinesa do Godard sobre esse corre-corre todo em Paris

  2. Pingback: A IMAGEM NO PODER: 40 ANOS DE MAIO DE 68 « dus*****infernus

  3. Pingback: YVES SAINT LAURENT FINALMENTE JÁ ERA (MAS SERÁ SEMPRE) « dus*****infernus

  4. Pingback: trecos&trapos.org » Blog Archive » O Maio de 1968

  5. Pingback: Citizen Langlois « na periferia da cinelândia

  6. Acho que esse papo de estilista , explicando coleção, que se inspirou no Oscar Niemeyer e no Picasso é tudo venda, pq no fundo é sempre um corte, uma costura e uma estampa!!!E o truque do stylist

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s