POR UMA CRÍTICA DE MODA

O mundo da moda reclama muito da falta de uma verdadeira crítica de moda ou de um esforço de um pensamento crítico no Brasil. Tendo a pensar que algumas editoras e editores de moda se esforçam nessa construção, mas muitas vezes são impedidos de realizar algo mais profundo por culpa de diversos mecanismos.

Um deles é que os meios que representam (revistas e jornais) têm parte de sua receita vinda da publicidade de inúmeras das possíveis marcas criticadas. Outro ponto que também é um agravante faz parte de uma certa diplomacia que os editores fazem com assessorias e estilistas para a entrada nos desfiles, pois diferentemente das pessoas de fora da moda, sabemos da importância não só de assistir a coleção de uma marca como estar bem posicionada para poder perceber detalhes que podem construir uma certa visão. Essa diplomacia acaba sendo crucial para o acesso ao backstage, outro lugar importante para compreender uma coleção.

Acho engraçado que todo mundo acha compreensível se um crítico de música reclama do áudio de um show ou mesmo da visibilidade da performance do artista caso ele fique sentado em frente a uma pilastra, mas com a moda, parece frescura querermos estar na sala de desfile ou mesmo em um lugar que informações igualmente importantes como acessórios e make up (esse cada vez mais relevante) não possam ser percebidos. Mas isso será assunto para outro post.

Voltando ao povo da moda, crítica não significa falar mal. Não considero Regina Guerreiro uma pessoa que pensa moda porque fala ”mal” dos desfiles, mas sim porque tem um pensamento e uma visão de moda e é fiel a ele. Tão fiel que é capaz de cometer um grave delito para os fashionistas: criticar negativamente uma coleção em público (algo que sabemos é muito praticado a boca miúda). Talvez aí resida sua superioridade e a atenção que os fashionistas, e não só eles, têm para com a editora. Falo isso porque acredito que hoje, nesse momento, os sites e mais ainda os blogs seriam os lugares ideais para se fomentar um pensamento de moda, ou vários. 

Do mundinho

Um outro problema é que todos na moda se conhecem ou sabem mais ou menos que são ou ouviram falar, etc,etc. O primeiro passo é entender que os laços de amizade não devem ser escondidos, mas sim amenizados principalmente se for uma crítica em choque com o que foi visto na passarela ou no editorial.

Existe um paradoxo, os estilistas e criadores de moda sempre reclamam dessa falta de crítica, mas entram em pequenas rusgas com os editores e jornalistas quando a crítica não os favorece. E isso é generalizado, já vi estilista com carreira consolidada chateado (no sentido infantilóide) com a crítica negativa de uma editora. Ao que me parece vivemos um momento que ainda eles enxergam a crítica e os editores como aduladores de seus egos. Isso não é bom nem pra moda nem pra um pensamento crítico.

Exemplifico com algo que está causando polêmica aqui no meu blog: A nova campanha de Giselle Nasser.

Antes de qualquer coisa, adoro muito a Giselle e amei sua coleção e sobre os fotógrafos, por ignorância minha, assumo que não conheço o trabalho da dupla, por isso nenhum pré-julgamento.

Nota: No futuro, com uma crítica mais acentuada e consolidada, não precisaremos mais dos parágrafos acima, pois entenderão, principalmente os leitores, que a questão não é pessoal.

Quando disse que não gostei da campanha e que acredito que erraram no conceito da coleção, foi baseado na minha primeira crítica ao desfile de Giselle, que, aliás, coloquei o link. Lá estava a base do meu pensamento sobre a coleção ao qual não está muito distante do que a própria estilista pensava pois conversamos depois sobre o que escrevi.

Mas o que pra mim não fez sentido: 

1) A experiência religiosa ou o xamanismo visto como iluminação: o que pra mim não caberia fotos tão escuras, mesmo no que barrocamente está iluminado. Penso que talvez se o iluminado estivesse estourado como a luz do transe faria mais sentido pra mim. Era uma coleção iluminada, de cores, era felicidade, a felicidade do absoluto.

2) Não rolou o foco privilegiando o rosto da menina em detrimento à roupa ou estampas que eram de uma psicodelia formal muito rica, ou os debruns como limites. O rosto dela, apesar de bela, me diz muito pouco sobre a imagem da coleção.

3) O esforço de Giselle de mudar sua imagem de estilista correta dos vestidos de festa para algo mais livre e solto como ocorreu no desfile com a sua própria participação, não corresponde aos enquadramentos extremamente corretos, quase caretas de tão acertados formalmente. Uma anarquia formal e de enquadramento aqui seria inesperada e benvinda. 

Não acho incorreto o escuro, a foto privilegiar mais a atitude do que a roupa, fazer enquadramentos que chamei de caretas e corretos, (mas não no sentido pejorativo, por favor), mas acho que vão na contra mão da coleção da estilista. Por isso me desagradou. 

Por outro lado, alguns fashionistas como o Romeu e a Fernanda Resende enxergaram a coleção muito pela imagem da vocalista da banda Bat for Lashes, Natasha Khan. E para eles também não rolou. 

As defesas da campanha me pareceram mais emocionais e com o traquejo do desafio tecnológico tipo na internet, a definição, o papel…Tudo vai melhorar. Mas afinal pergunto para os que gostaram da campanha e para os que discordam de minha visão, o que a campanha tem em relação a coleção e a imagem criada na passarela? Ou isso não tem importância nenhuma, são coisas diferentes? 

O debate é sempre bom para críticos e criadores.  

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Alexandre, que eu considero grande, fez uma das campanhas mais feias que eu já presenciei e um dia eu explico o porquê.

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8 Respostas para “POR UMA CRÍTICA DE MODA

  1. Realmente tem muito site e blog sobre moda, mas com críticas, principalmente negativas, pouquíssimos. O legal é fazer a crítica embasada, como a sua. Não sou expert em editoriais mas concordo com vc em genero e numero, a mensagem principal que é a roupa ficou ofuscada. Espero um dia ter bagagem para entrar neste universo das críticas.

    bjos

  2. ei ei ei vitor ângelo é nosso rei ei ei ei vitor ângelo é nosso rei ei ei ei vitor ângelo é nosso rei ei ei ei vitor ângelo é nosso rei ei ei ei vitor ângelo é nosso rei ei ei ei vitor ângelo é nosso rei ei ei ei vitor ângelo é nosso rei ei ei ei vitor ângelo é nosso rei ei ei ei vitor ângelo é nosso rei ei ei ei vitor ângelo é nosso rei ei ei ei vitor ângelo é nosso rei ei ei ei vitor ângelo é nosso rei ei ei ei vitor ângelo é nosso rei ei ei ei vitor ângelo é nosso rei ei ei ei vitor ângelo é nosso rei

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    Bis (10x)

  4. OI ANGEL, estou aqui no Berkeley, Londres, com Miuccia e Edna Woolman Chase, que conheci agora. Uma mulher fantástica que atuou anos na direção da Vogue e estavamos falando justamente dessa falta de um pensamento crítico de moda no Brasil. Miss Edna me contou em off que só lê o seu blog e adora, mas não acredita nessa coisa de infant terrible na moda brasileira.

    Saudades!
    NUCOOL
    http://nucool.wordpress.com/

  5. Bom, li o seu post e os comentários e ficou uma dúvida: você chegou a apagar algum mais agressivo? Porque, pelo que vi, a maioria das pessoas concordou contigo. Fato que quem discordou fez isso de um jeito meio bocó, heeeee. Mas, enfim, acho que do mesmo jeito que as coleções nem sempre agradam, as críticas também não. E, pra própria crítica crescer, também é importante o exercício metalingüístico, penso. By the way, também não gostei da campanha.

  6. Vitor,acho que crítica de moda só da pra ser feita qdo. o editor não tem rabo preso.O que é dificil. Como é o $ que manda no mundo e sustenta esse macro universo que é a moda – incluindo ai sites e revistas – fica complicado para o editor dizer – na maioria dos casos – o que acha REALMENTE de uma coleção. Acho que no Brasil temos todo tipo de crítica,da ácida-doa-aquem-doer de Regina Guerreiro aos “comentários” do especial Vogue,por ex. Quando alguém se propõe ao papel de “crítico”,antes de mais nada precisa entender a idéia-base de uma coleção,por quais caminhos o designer seguiu até chegar à confecção das peças e aí sim,se esse produto é vendável,se tem a cara do cliente, de seu publico-alvo. Fico perplexo quando leio resenhas de desfiles comentando o comprimento e as cores das roupas. Pelo amor de Deus. Eu acho que quem está lendo não é cego !!!!!! Por esse e outros motivos sou eternamente apaixonado pelo trabalho da Guerreiro. Além de não se prender à esses comentários RIDICULOS e OBVIOS, ela tem um know-how único e vê a coleção muito além da maioria absoluta dos outros críticos. Basta ler seus especiais.E olha que eu guardo material dela à 20 anos.Falar mal não é o critério para definir um critico e sim,sua capacidade de entender a moda muito além do tecido usado,da tal “nova silhueta”,etc,etc. Espero que surja um dia um crítico que tenha essas qualidades pois caso contrário, vamos ficar lendo aquelas criticas-jabá-pseudo-didáticas… cruz-credo!!!

    Adoro cada vez mais seu blog. Um espaço de moda inteligente. Parabéns,Vitor.
    Abraço, Stuart

  7. essa foto do editorial pro AH parece uma maria mijona com cabelo de gysele bbb8 sobre fundo de grama articial. parece mesmo uma perdida na ilha de Lost. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  8. quando ví as fotos da campanha da Giselle tb nao acreditei, além de não ter nada a ver com a marca não soou fresh ,nem ouve algum tipo de comunicaçao com o cliente, como imagem de moda não funcionou, ficou muito sombrio, e até triste, e como produto tb não , porque é pseuconceitual demais,como opnião pessoal, achei muito europeu e com cara de editorial da ID, nada contra a revista, lí muito nos anos 90, mas acredito que o público alvo dela não é este , ou seja tiro no pé.

    Isso que dá babar ovo de gringo.

    ;D

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