ARTE CONTEMPORÂNEA: EXCESSOS DO EU E MISTICISMO

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Já elaborado o aspecto de matilha na ação em relação ao mundo que os externa, os artistas contemporâneos ensimesmados em seu castelo galeria-museu-bienal sofrem do que chamo excesso do eu.

É tamanha a afirmação do eu, que ele mesmo já é resposta para a existência de uma obra. Hoje a terminologia usada é “a poética de tal artista” que aparece no texto de 10 entre 10 curadores e críticos de arte. E serve para suavizar o peso do grande excesso do eu na construção de suas obras. Quem já não escutou de pessoas muito sérias do meio de artes plásticas referindo-se mais seriamente ainda sobre esse super eu do artista, em um discurso fictício como esse por exemplo: “a poética desse artista faz parte de sua vivência de 2 anos na Patagônia e por isso o gelo, o gelo que derrete e questiona as formas”.

É até patético porque esse discurso pode ser transposto pra qualquer coisa, mas sempre dentro da questão de algo do eu que o artista quer transmitir em sua “poética”. Preferi inventar do que pegar textos de algum curador pra não criar melindres, mas nas próximas exposições reparem como existe um discurso massificador de análise e conceito da obra sobre essa perspectiva, como se esse fato já elevasse o objeto em si em obra de arte.  Com o excesso de subjetividade que os artistas se encontram hoje, o seu próprio eu basta para nominar o seu trabalho como artístico, pois seu pacto com o meio  garante esse gesto. “Eu estou convicto que faço arte mesmo na dúvida”.

O psicanalista Raymundo de Lima escreve:

“Os filósofos da linguagem, como L. Wittgenstein, observam que esse tipo de frase tenta passar uma verdade predestinada mas que no fundo, trata-se de uma verdade apenas sustentada na subjetividade do sujeito que a produz. Ou seja, ‘os limites da linguagem significam os limites do seu mundo’. Quine entende que tais sentenças parecem substituir as idéias. Já o psicanalista lacaniano reconhece nelas uma forma de “mais-gozar” do sujeito tanto em pronunciar e ouvir tais palavras que só o sujeito e os convertidos acreditam serem verdadeiras. Enfim, se há verdade na ‘convicção’, ela só pode ser uma ‘verdade subjetiva’. 

Por que “verdade subjetiva”? Porque apenas indica que o sujeito tem a convicção que sabe, mas apenas porque acredita que sabe, e não porque possui meios ou critérios objetivos que garantem realmente saber. Também o fanático religioso está convencido de sua certeza. O louco, idem”.

Essa total crença no seu Eu lhe dá uma condição demiúrgica ao artista contemporânea. Entendendo Demiurgo como aquele que criou o mundo material ou como os platonistas adotam, o mundo inferior. Juntando esse conceito com o dos gnósticos que acreditam ser o Demiurgo o Deus do Velho Testamento, arrogante, onipresente e prepotente ao exigir que todos se curvem á sua divindade, podemos ter uma alusão do artista que a sua subjetividade o consagra como Deus.

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Um claro exemplo disso é uma obra fundamental da arte conceitual “An Oak Tree”, de Michael Craig-Martin apresentada em 1973. Lembrando que a arte conceitual, mesmo depois de quase 50 anos, ainda é o pilar da arte contemporãnea feita hoje.

A obra de Michael Craig-Martin consiste de uma prateleira de vidro com um copo de água e um texto pregado mais abaixo.

O texto começa assim:

Pergunta:
Para começar, você poderia descrever este trabalho?

Resposta:
Sim, claro. O que fiz foi transformar um copo d´água em um carvalho adulto, sem alterar as características do copo d´água.
 

Em uma espécie de entrevista o artista explica seus conceitos de como aquele copo d´água agora é um carvalho mesmo sendo um copo d´´agua. Para a grande maioria dos adoradores da arte contemporânea  a grande conclusão dessa operação é que a arte é um ato de fé. Eles falam isso com uma desfaçatez de normalistas que nos explicam que irão casar ao findar o curso.

Podemos dizer que se a arte é um ato de fé é porque tem o artista para cria-la, isso quer dizer, a figura demiúrgica. O artista se coloca como Deus. Mas que Deus é esse? Que religião é essa?

Isso responde o comportamento por matilha e o excesso do eu: paranóia (pois o diabo, isto é, os outros, podem tentar destituí-lo desse poder demiúrgico, questionando-o) e mistificação (pois se o copo d’água é um carvalho, ele também pode ser um crucifixo se eu bem assim quiser).  

Paranóia e Mistificação!

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6 Respostas para “ARTE CONTEMPORÂNEA: EXCESSOS DO EU E MISTICISMO

  1. Eu só não entendo porque os técnicos se acham mais importantes que os times, os diretores que os filmes, os romancistas com os livros e os artistas (who?) com as obras.

    Se estamos aqui pra deixar uma marca (what?), porque somos mais importantes que a marca?

    Ao meu ver, é a mesma coisa que: Por que Truffaut seria mais importante que Dario Argento?

    Acho que o mérito do Argento está aqui: você assiste aos filmes do cara porque quer conhecer o giallo. Já Truffaut, você assiste só porque é Truffaut e não porque é nouvelle.

    Soa como algo positivo, mas não é.

    Um bom exemplo do ego, do “eu”, são os diretores que assinam filmes como “Um filme de” quando deveriam finalizar a projeção com “Dirigido por”. Se tem uma coisa que não é dele, é o filme que ele fez.

    Amor excessivo por si próprio é consumismo. E o consumismo, além de alimentar muita gente, é o que move o mundo.

  2. eu sou deus e deus está solto.

    mas deus, além de criar prateleiras, copos, água e papel, também cria criaturas complexas – como golfinhos, monocotiledôneas e artistas plásticos e autistas práticos.

    e eu continuo só acretitando em um deus que beba gin puro e saiba dançar.

    os outros deuses podem preencher a aridez afetiva de igrejas bola de neve e galerias de arte neofasciconcretas.

  3. Olá Vitor, tudo bem? Tenho acompanhado os seus posts sobre arte contemporânea (by the way, gostaria de parabenizá-lo pelos textos) e fiquei me questionando se isso é realmente um problema da contemporaneidade ou se tudo é como tudo sempre foi… Digo isso porque quanto mais estudo a história, mais vejo que o homem continua exatamente o mesmo, mudando apenas o cenário, as roupas, a tecnologia. Imagino que o mundo das artes renascentista, barroca e até impressionista tenha funcionado dessa mesma forma, em matilhas, envolta em ego e poder, com ou sem dinheiro (os artistas sempre tiveram uma relação muito íntima com as altas rodas do poder)… E que até a “edição” da história da maneira como ela chegou até nós passou por esse processo… Pra mim, a arte sempre será um mundo sagrado e espiritual de idéias, através da qual eu me torno consciente da minha existência num sentido maior, mas que há gente com interesses pequenos nesse mundo, é inegável… Se até nas religiões isso acontece (é possível algo mais paradoxal que isso?), porque não aconteceria no mundo das artes? A única coisa que me conforta é que acredito (podem me chamar de ingênuo) que apenas o que genuíno, o verdadeiro sobrevive aos tempos… E que muitos desses “grandes” EUs serão testados pelo tempo, e aí sim, saberemos se sua contribuição para o muito foi tão grande assim… Abraços!

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