ARTE CONTEMPORÂNEA: DOS CASTELOS FEUDAIS ÀS MATILHAS

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Como já falei, além da relação senhor-feudal/vassalo que a arte contemporânea propõe para sua possível existência, ela também se entrincheira em castelos.

Castelos dogmáticos, avessos a qualquer debate que possa soprar mais forte e derrubar a frágil estrutura de areia que a sustenta. Por isso é muito comum o meio desabonar qualquer crítica que venha de fora de sua lógica. Não digo nem de seu próprio meio, pois Ferreira Gullar é um gigante das artes brasileiras e sua opinião é sempre vilipendiada por um: “mas ele é um reacionário, conservador”, como se toda operação que a arte contemporânea constrói não a fosse. E se o discurso vem de fora do meio, o resultado é mais desalentador: “o sujeito que nos critica tem inveja, recalque, quer ser artista como nós”, é sempre a mesma ladainha repetida faz décadas.

O mesmo ato de um clã fechado em suas próprias idéias e que age como matilha foi realizado recentemente contra o texto do jornalista e editor Luciano Trigo (ainda colocarei o texto na íntegra aqui no blog). Ele simplesmente teve 3 réplicas na Ilustrada contra seu texto que levanta questões pertinentes da chamada arte contemporânea. Nunca tinha visto isso para um assunto que é considerado menor (artes) em um caderno de cultura (e eu sei que assim o é na Ilustrada também.)

Tipo matilha mesmo em ação como explica um dos maiores escritores da atualidade, o francês Michel Houellebecq,   

“No fundo, eu tinha pouquíssimo apreço pelo mundo da arte contemporânea. A maior parte dos artistas que conhecia se comportava exatamente como empresários: eles vigiavam com atenção os novos espaços e procuravam ocupá-los o mais rapidamente possível. Tal como empresários, saíam por atacado das mesmas escolas, eram fabricados no mesmo molde. Há, porém, algumas diferenças: no terreno da arte, o prêmio por inovar é mais alto que na maioria dos outros setores profissionais: além disso, os artistas funcionam muitas vezes como matilhas ou em redes, ao contrário dos empresários, seres solitários, cercados de inimigos – os acionistas prestes a largá-los, os executivos sempre prestes a traí-los. Mas era raro encontrar nas pastas dos artistas com quem eu lidava os rastros de uma verdadeira necessidade interior”.

Tenho que assumir que a imagem de matilha casa tão perfeitamente com os grupos de artes plásticas que conheço como não casa pra nenhum outro grupo, por mais coesos e fechados que esses outros grupos possam parecer.

Houellebecq escreveu isso antes dos anos 2000 e a questão empresarial avançou depois de 2001 e como bem me explicou Nucool, agora existe de maneira nomeada os benchmarks:  

“A expressão ‘benchmark’ é comumente utilizada no meio empresarial para definir estratégias de comparação e balizamento entre empresas, produtos e serviços de sucesso. Em outras palavras, as empresas utilizam a técnica do benchmark para conhecer quem faz melhor algum produto ou serviço, e a partir daí aprender com suas estratégias de sucesso e erro. Afinal, para se atingir o sucesso é necessário arriscar e quem arrisca está exposto às duas situações. O importante disso tudo é poder tirar o melhor proveito destas lições que a vida e os negócios nos dão. Estar aberto para reconhecer que o trabalho do outro é melhor do que o meu e, portanto, procurar conhecer como ele fez para alcançar este sucesso. Com base neste princípio é possível eliminar algumas etapas que não deram certo para o outro, e assim ganharmos tempo e dinheiro investindo corretamente em uma estratégia vencedora”. (texto de Rogério Martins)

Oras não é isso que vemos curadores, galeristas e artistas fazendo a todo momento. Reatualizando Duchamp e a arte conceitual principalmente para incorrem menos nos riscos e terem formas mais prontas de sucesso transfigurado em inovação? Talvez a arte pop tenha alguma participação nisso, mas com certeza a noção de corporação, corporativismo e empresa nunca esteve tão forte em uma expressão artística (muito além do cinema, uma arte corporativista por natureza).  

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8 Respostas para “ARTE CONTEMPORÂNEA: DOS CASTELOS FEUDAIS ÀS MATILHAS

  1. Tô adorando esse momento de desabafo contemporâneo.

  2. dada da dada, sempre.
    nada mais que dada.

    muito pertinente o seu postulado.

    outro tópico muito interessante.

  3. arte contemporânea s.a.
    joguei todas as minhas obras de arte contemporânea na bolsa nasdaq. deu em nada. daria algum rendimento? só se hypassem bastante as obras. o que interessa é que nem fui contemporâneo de duchamp e tenho de chamá-lo assim. Acho que tudo isso não passa do pós-modernismo, da reciclagem maquiada com rococós. Rococós conceituais, dadaístas, neo-expressionistas, minimalistas… porque o minimalimo e o conceitual são tudo, né? a gente não precisa saber desenhar nem pintar nem esculpir, a gente só precisa usar um rolo e pintar uma parede de vermelho, só precisa copiar o desenho com papel carbono e escultura é coisa do passado, tem é de instalar fita crepe num pedaço de pau e tá pronta a obra de arte. acho super democrático, eu também sou artista contemporâneo, sabia fofolete?

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  7. caramba cade o castelo merta

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