AINDA SOBRE O SADISMO E O FILMEFOBIA

Depois da experiência que descrevi no post sobre minha participação do “Filmefobia”, fiquei com a questão do sadismo muito presente na minha cabeça e me lembrei de imediato de um trecho do livro “Plataforma” do francês Michel Houellebecq.que o casal central da história vai parar em um clube de SM.

Ele escreve:

“… o Bar-bar, dedicado, com exclusividade, desde o princípio às práticas sadomasoquistas, mas sem exigir um dress-code muito estrito – exceto em certas noites –, não parava de ficar lotado desde que abriu. Pelo que eu sabia, o ambiente SM era bastante específico, composto por pessoas que não sentem o menor interesse pelas práticas sexuais comuns e por isso rejeitam uma clássica boate de surubas. […]

A crueldade é antiga no ser humano, já existe nos povos mais primitivos: nas primeiras guerras de clãs, os vencedores tinham o cuidado de conservar vivos alguns prisioneiros para mais tarde matá-los com torturas abomináveis. Esta tendência se repete constantemente na história, e podemos encontrá-la intacta em nossos dias: assim que uma guerra – externa ou civil – tende a apagar as coerções morais cotidianas – e isso seja qual for a raça, a população, a cultura – aparecem seres humanos prontos para desfrutar das alegrias da barbárie e do massacre. Isso é comprovado, permanente, indiscutível, mas nada tem a ver com a busca do prazer sexual – igualmente antiga, igualmente forte.[…]A música que se ouvia no recinto eram acordes extremamente graves de órgão, aos quais se superpunham os berros dos condenados. A amplificação dos baixos era enorme; espalhados por toda parte havia refletores vermelhos, máscaras e instrumentos de tortura pendurados em grades[…]

– Eu aceito a existência de algozes […] que sentem prazer em torturar os outros; o que é demais pra mim são as vítimas. Não consigo aceitar que um ser humano possa preferir o sofrimento ao prazer. […] o que me dá medo é que não há mais nenhum contato físico. Todo mundo usa luvas, todo mundo usa instrumentos. As peles nunca se encostam, não há um beijo, um toque, uma carícia. Para mim é exatamente o contrário da sexualidade […] mas suponho que os adeptos do SM considerem sua práticas como a apoteose da sexualidade, sua forma última. Cada qual fica encerrado na própria pele, plenamente entregue às suas sensações de ser único; é uma maneira de ver as coisas […] Quando não há mais possibilidade de identificação com o outro, a única modalidade que resta é o sofrimento – e a crueldade.”

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De Abu Ghraib à publicidade, os sádicos continuam fortes no mundo contemporãneo, dominando todos os sentimentos.

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