A IMAGEM DO EU EM DOIS DOCUMENTÁRIOS BRASILEIROS

Os documentários “Person” e “Santiago” já trazem no nome as personagens que serão focadas nos filmes, mas eles são coadjuvantes de seus diretores, esses sim, os verdadeiros protagonistas das histórias narradas.

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“Person” conta a trajetória do cineasta Luiz Sérgio Person, diretor de importantes filmes da cinematografia brasileira como “São Paulo S. A.” e “O Caso dos Irmãos Naves” (clássicos que merecem serem vistos por formatarem uma outra dimensão do nosso cinema).  

Detalhe essencial: “Person” é feito por sua filha, a VJ Marina Person, que perdeu o pai quando tinha 7 anos de idade. O filme é revelador da influência da ausência do seu pai em sua vida e a imagem que ele deixou nela. Ela declara para a mãe no meio do filme: “Da época que ele estava vivo eu só me lembro dele, eu não me lembro de você”. 

Além da personagem incrível que era Person e que o filme nos deixa encantado com sua presença, uma outra figura se mostra espelhada nela, o de sua filha, a diretora do filme. Ela caça a imagem de seu pai para poder entender a sua própria e de sua família.   

Ao final, com um belo e longo plano dela e sua irmã saindo de um túnel caminhando e se afastando da câmera, – como nos finais felizes dos clássicos filmes do cinema mudo – você percebe que agora ela encontrou-se nessa viagem (abençoada por São Cristóvão).

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“Santiago” é sobre o mordomo de João Moreira Salles, o autor do filme. Poucas vezes vi um diretor com tanta coragem de se expor de maneira tão crua e nem um pouco positiva fazendo desse documentário, o melhor, de longe, da sua carreira de cineasta. 

O mordomo é uma delícia, não tem como não se apaixonar pela personagem, sua erudição, sua elegância, seu humor. Amo quando ele termina um depoimento e fala: “C’est tout” ou “Stop”.  Só isso já valeria o filme, mas ele vai além, João coloca também a história de um projeto fracassado.  

João Moreira Salles filmou o depoimento do mordomo em 1992. Tentou, através de um esquematismo bizarro, concluí-lo e não conseguiu. Quase 15 anos depois ele volta para o material para ver o porquê do fracasso. E percebe que não estava interessado realmente no mordomo e sim em descobrir quem ele era.  Desde seu enquadramento em planos abertos que era uma maneira de não se aproximar de Santiago, até as perguntas sem um pingo de cerimônia ou respeito pela personagem, faz-nos pensar quem afinal é o diretor do filme. E eis a sua coragem de nos revelar.

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PS: Sobre o enquadramento distanciado e geométrico, ele me lembrou as pinturas flamengas de Vermeer ao retratar uma nova classe, a burguesia nascente na época, mas que aqui nos mostra um tipo de ser humano em extinção. Salve Santiago!

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2 Respostas para “A IMAGEM DO EU EM DOIS DOCUMENTÁRIOS BRASILEIROS

  1. vc deveria ser contratado para fazer a divulgação do filme, deu super vontade de assistir já!

    😛

  2. Vitor tenta um convite para o Natal dos Moreira Salles há 20 anos, Pedro.

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