MODA É ARTE? A CONSULTORA MARIANA ROCHA AQUECE A DISCUSSÃO

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Mariana Rocha é professora, consultora e crítica de moda, além de estilista. Foi com bastante satisfação que recebi esse e-mail. Ela pede para mostrar para o Oliveros, mas resolvi compartilhar com todos aqui no blog, dada a excelência do pensamento e das observações dela. Enriquece muito a discussão sobre moda e arte e moda é arte. Ou não.

Abaixo o texto de Mariana Rocha na íntegra:

“A partir das colunas de Biti Averbach, dos comentários de Vitor Ângelo e da coluna do Oliveros.

Defendo o ponto de vista do Oliveros quando diz que moda não é arte. Com isso ele não quer subestimar a importância da moda, mas fortalecer uma manifestação nova, que ainda está se estruturando. Concordo plenamente com Vitor Ângelo no que diz respeito ao desfile de Jum Nakao e ao valor artístico de certos trabalhos. Entendo também a paixão que envolve essa discussão e acredito que a reflexão é fundamental para a evolução de uma linguagem que cresce em importância e significação na nossa sociedade. Mas a verdade é que se moda é ou não é arte, tanto faz.

Cercada por preconceitos, formação precária e más intenções, a moda, querendo ou não, transforma e influencia a vida contemporânea. Além de vestir, abrigar, resolver, enfeitar, expressar, esconder, seduzir, problematizar, excluir, integrar, negar, postular, significar, classificar, etc. e tal, quando a moda é boa , pode, por vezes, até se aproximar da arte. Mas ela é boa na medida em que se apropria e domina seu universo próprio, seu repertório particular e afirma o que tem de único. Nesses momentos, de muita técnica e domínio criativo, é possível haver uma reação parecida ao que se experimenta ao ver um trabalho artístico.

No caso do desfile de Jum Nakao, o debate está aberto. A moda, por definição, está vinculada à adesão da coletividade e tem que ter uma repercussão. O desfile de Jum Nakao tocou a moda, se utilizou de elementos da moda e usou o altar da moda para discuti-la. Contestou-a criticando sua fragilidade e efemeridade – utilizando-se do papel, matéria frágil, logo destruída pelas mãos das modelos robôs-bonecas, representando a massificação – e, ao mesmo tempo, exaltou-a, servindo-se lindamente de seus elementos constitutivos tradicionais, tais como a silhueta histórica, a decoração de superfície, a mão de obra artesanal e o formato desfile. Mas não fez, exatamente, moda. Nem por isso foi inadequada sua apresentação. Pelo contrário, foi divisora de águas. Desde aquele momento, houve uma consciência coletiva de onde estávamos nos metendo.

A Moda não só revela, mas constrói a sua própria época. Não é apenas o reflexo de uma sociedade, mas um fator constitutivo da mesma. Walter Benjamin, numa de suas análises da moda, a compara aos museus de cera, onde as imagens são tão impressionantes que são como aparições, reveladoras das entranhas do que é humano.“Na moda, o traje, a aparência externa é representação das ‘entranhas’. Enquanto fenômeno (aparição), a moda mostra o que está dentro. Essa consideração significa conferir uma outra importância à aparência: ela não é aparência que se opõe à essência, mas é aparição, aquilo que se mostra, num jogo entre o que aparece e o que se ausenta: ‘a expressão do inconsciente de uma época'”¹.

Quando Vitor trata dos conceitos de arte em Joyce, cita o desejo, comparando-o à pornografia, como algo inferior. Para Benjamin a moda é o desejo daquilo que não é. É fetiche, o que nunca se satisfaz. Quem sabe então a moda mais verdadeira não seja aquela que nunca se satisfaz? A que possui aquele “algo mais” citado por Vitor, que nos encanta e também nos aprisiona?

Inspirador de Benjamin, Baudelaire tem uma visão da moda ainda mais positiva: “ …aproximação qualquer de um ideal cujo desejo faz cócegas sem cessar no espírito humano não satisfeito”. Ela usa artifícios para colocar o belo acima da fragilidade da vida, da decadência das coisas.”

Agora, se é arte ou não é arte, tanto faz. Classificar coisas não é mais tarefa para o nosso tempo.

Mariana”

1)Todas as citações estão contidas no excelente ensaio “Mercadoria e moda: o fetiche e seu ritual de adoração”, de Sonia Campaner Miguel Ferrari. O livro é Leituras de Walter Benjamin, organizado por Márcio Seligmann-Silva, uma publicação da Fapesp infelizmente esgotada.

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8 Respostas para “MODA É ARTE? A CONSULTORA MARIANA ROCHA AQUECE A DISCUSSÃO

  1. É isso. Compartilho da opinião de que moda PODE SER arte, mas não o é em sua essência. Principalmente nos dias bicudos de hoje em que que o comercial é fator essencial na criação dos estilistas mundo afora.

  2. Ai que fino! Adorei me encontrar com vocês aqui. Já que não tenho ido aos rituais sagrados, pelo menos nos encontramos na profanidade.

  3. Já vi então que o negócio é começar a andar pelado levando em mente a essência da moda, num mundo onde todo tipo de rótulo e escolha visual já é banalizada.

  4. “A moda, por definição, está vinculada à adesão da coletividade e tem que ter uma repercussão”
    Esta frase deixa claro para mim que moda não é arte.Não quer dizer que seja de menor valor.
    Não significa também que não se possa encontrar arte dentro da moda.
    Mas, desenvolver produto – que é a função do designer de moda – não é arte.

  5. Bom dia,gostaria de receber alguns artigos sobre moda se possivel,para ilustrar minha revista on-line sou de Londrina Pr,fotografo,minha cidade é muito carente deste tipo de moda.Fico no aguardo de um retorno.Obrigado,Valdemar Santos
    Meu blog http://www.revistavbs.blogspot.com

  6. adoro moda gostei muito do sete

  7. Pingback: ARTE E MODA: MOMENTO DR « :) VESTIDO DIVERTIDO !!! :)

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