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VINTAGE, O VINHO BOM

Nos anos 80, era uma fúria entre os modernos [pelos menos em São Paulo] comprar em brechó. Muito antes mesmo de sabermos e de existir no vocabulário fashionista a palavra vintage, ir a um brechó, escolher uma roupa e depois ter todo o cuidado para consertá-la (com sorte era só lavá-la, por que sempre tem aquele cheirinho de velho) era um aval pra hoje a palavra descolado. Brechós no Bom Retiro, no Brás, no Pari, em Santana… nada muito perto dos centros fashions. A viagem até sua roupa era parte importante, existia uma expectativa, existia a garimpagem, existia a descoberta pois nunca se sabia o que poderia encontrar. Você ia na esperança de achar um terno sóbrio e saia com um cardigã caramelo. Lembro de uma amiga que achou um Givenchy no meio das roupas. Isso era possível, mas não era marca em si que nos preocupava, mas como aquelas roupas refletiriam o nosso estilo. Era uma peregrinação e muito tem sobre o que escrevi sobre a espiritualidade das roupas.
Essa fé nas roupas usadas, nos dias de hoje se modernizou e se sofisticou, até mercado de roupas vintage existe e não estou falando de mercado das pulgas. Claro que o selo vintage torna a roupa um pouco mais cara do que as que comprávamos em brechó. Mas o exercício de ir ao brechó ainda é atual, como Jana sempre faz.
Acho que como a fé, a roupa usada, seja ela vintage ou não, carrega uma esperança. A esperança de que nem tudo no mundo [materialista?] é tão descartável assim.
Delírio a parte: vintage se relaciona a safra de vinhos antigos e o vinho é um a bebida espiritual do cristianismo.
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Aqui uma divertida e inteligente dica de Simone Esmanhotto sobre os 10 mandamentos do vintage. Não falei que tem algo realmente espiritual nisso tudo [ahahahahah!].

BLOGVIEW REVISITED: DA ESPIRITUALIDADE DAS ROUPAS

De alguma maneira esse texto tem alguma relação com a resenha que fiz do último desfile de Ronaldo Fraga, por isso resolvi revisitá-lo nesse momento que os olhos estão voltados para os negócios desfeitos na moda. É sempre bom também olhar para o espírito das roupas que com certeza nos dão mais alento nesse momento decepcionante da moda brasileiro com o caso I’M.

As roupas têm alma. Elas carregam em suas tramas as memórias, os sentimentos e as idéias de quem as vestem. Em seus fios estão registrados afetividades, vontades e desejos.Mesmo em total época consumista e que o descartável é tido como valor positivo, sempre tem aquela peça que na hora da chamada “reciclagem do armário”, você não consegue se desfazer. Em geral, porque nela estão contidas memórias e desejos em toda a sua estrutura.Olhando para as fotos de August Sanders, não posso deixar de notar as roupas dos trabalhadores alemães que ele tanto fotografou no começo do século 20, em uma época de grandes dificuldades econômicas para o país.
Mas apesar de retratar a matéria (ou a necessidade dela), as fotos de Sanders focam roupas cheias de espiritualidade. São as dobras destas roupas que conviviam 24 horas com seus donos que trazem todo o sentimento de quem a veste. Elas se moldam ao corpo, fazendo parte da vida do retratado. Em cada dobra está seu esforço, sua luta, seu trabalho. Em cada nesga está a sua dignidade. Isso é com certeza o que mais gosto nas fotos dele.
Penso nos brechós como depositórios dessas histórias, uma biblioteca espiritual. Conheço pessoas que não compram roupas em brechós, pois os enxergam como cemitérios. Como acredito na espiritualidade das roupas, acho que não são nos brechós que elas devem acabar e sim é lá o local onde elas devem transcender.
Elas evidenciam que as roupas carregam as nossas histórias. Ao nos desfazermos de uma peça do vestuário não estamos nos desfazendo de nossa história, mas transferindo para outro, deixando um certo legado nosso nas manchas que caíram no tecido, no rasgo cerzido e principalmente das dobras de tecido que se amoldaram ao nosso corpo. È uma espécie de legado como os filhos, os livros, as fotos, os amigos.
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foto: August Sanders