Arquivo da categoria: verão 2010

DASPU (E A MODA?)

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Minha amiga Sueli, que mora faz muito tempo no Canadá, me mandou esse link sobre a Daspu que saiu em terras estrangeiras. A matéria contextualiza a ONG de Gabriela Leite, Davida, voltada às doenças sexualmente transmissíveis e aos direitos das prostitutas e sua marca Daspu, que nasceu de uma paródia à grife de luxo Daslu, que na época até pensou em processar a criação de Gabriela.
É interessante ver que apelo e a simpatia que a Daspu desperta vai além das fronteiras. Lembro bem que em 2005 quando a marca foi criada, logo chamou atenção da mídia. Em um ato corajoso, elas apresentaram sua coleção fora do calendário carioca, mas durantes os dias que ocorriam o Fashion Rio. Mais corajoso ainda foi escolher o mesmo horário do desfile da Colcci que trazia ( e trará até quando?) a über model Gisele Bündchen. Lembro muito claramente dos jornalistas fashionistas se dividirem entre ir à Praça Tiradentes ver a estréia da Daspu ou ficar na Marina da Glória e ver Gisele. Na época, eu ainda trabalhava com Lilian Pacce e o GNT Fashion comeu bola e ninguém da equipe foi na Praça Tiradentes. Outros sites, revistas e jornais foram. Se minha memória não falha, Jorge Wakabara, Ivi Ivánova e Nina Lemos foram. A diferença da cara de saco cheio dos que ficaram na Colcci constratava com a cara de felicidade dos que foram na Praça Tiradentes no café da manhã do Gloria, o hotel que ficavam todos os fashionistas durante a temporada carioca.
E assim foi imediata a simpatia de muitos, mas muitos mesmo jornalistas e fashionistas que escreveram resenhas apaixonadas. A da Nina Lemos tinha a desfaçatez deliciosa de tirar ainda um sarro de quem ficou vendo a Gisele.
Com isso, quando a grife veio pela primeira vez para São Paulo trazida por Facundo Guerra e com desfile no Vegas, fui convocado para entrevistar Gabriela Leite. Só um detalhe do apoio que o povo da moda deu pra grife: o stylist Daniel Ueda foi convocado para esse desfile e se não me engano por um cachê baixíssimo ou mesmo de graça… Ai um fosfoxol nessa memória!
Bom, voltando a Gabriela, ela é uma figura espetacular, articulada, defensora das putas e me disse: “As putas tem seu lugar na moda, um lugar importante, afinal o que era Coco Chanel?”
Adendo: Pensando nesse viés, “o que é a última coleção da Balmain?” Ropahrara já!
Sou do time que tem imensa simpatia pela Daspu e a marca mostrou sua coleção de verão 2010 na Praça Tiradentes, Rio, no dia 26, e na quadra da Vai-Vai, em São Paulo, no dia 27. Não fui a nenhum dos desfiles, mas vendo as fotos, foi profunda a minha decepção. Acho que existe um estereótipo pobre de puta feito pela estilista Alzira Calhau, do Rôdo Coletivo de Belo Horizonte [não acredito que toda a responsablidade seja da estilista, pois algumas passaram pela marca e o resultado sempre parece emperrado na primeira coleção]. Tudo parece muito mais uma piada do que algo que o nosso imaginário possa encontrar de “glamouroso” e afirmativo que as garotas de programa, principalmente daquelas que dominam a situação, devam ostentar. E depois de 4 anos, a grife deve dar espaço também (já que não quer abolir as camisetas com estampas engraçadinhas) para mais informações de moda. Nada depois desse tempo, é desculpa para subdesenvolvimento. A ideia excelente de Gabriela de ter uma marca que seja algo afirmativo da profissão de prostituta deve sair do papel e se transformar em roupa. Tenho imensa simpatia pelo projeto, mas já é hora de rodar a bolsinha pra outra direção, porque esse ponto já deu.
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A FOTOGRAFIA DE PASSARELA E A TRIDIMENSIONALIDADE DA MODA

Desculpem, mas moda é 3-D! Tenho certeza disso. Apesar da fotografia de passarela, os editoriais e ilustrações das revistas com imagens dos catwalks serem quase sempre bidimensionais ou trazerem esse caráter.
Claro, dirão, o suporte de uma revista ou de um jornal pede a bidimensionalidade e mesmo a profundidade de campo sendo uma técnica mais que comum no meio para tirar o caráter achatado das fotos, ele tem pouca utilidade no caso da moda, pois pouco resolve na compreensão do foco principal que é a roupa.
Em uma conversa com Thais Mol antes dela embarcar pra Inglaterra, a gente comentava as poucas fotos que eram tiradas das costas das roupas. Aliás quase nunca se tem na sequência de fotos editadas de um desfile, as costas das roupas, o seu outro lado. Como o lado escuro da Lua, quase nunca, se não estiver no desfile, conseguimos captar a totalidade da roupa, pois ela não é feita só de frente.
Thais sempre se preocupou com as costas da roupa pois ali estaria a graça, a brincadeira (um exemplo afetado disso no bom sentido é o triquini de Malana no desfile de verão 2010 da Neon) e sim, a completude da roupa. Ela brilhantemente me disse: “Quando vemos alguém que achamos interessante na rua que passa por nós, o que fazemos? Viramos o rosto e vemos as costas dela e assim também é com uma roupa”. Queremos conhecer a totalidade da pessoa assim como da roupa.
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Lembrei de um desfile importante de Clô Orozco pra Huis Clos que a modelo parava propositalmente de frente e de costas para que essa parte fosse clicada e mesmo assim não temos, em vários álbuns de fotos desse desfile de verão 2006, todos os looks das costas que eram magistralmente mais superiores do que a parte da frente.
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Pior aconteceu com Wilson Ranieri em sua coleção de verão 2010 que fez belas costas e não temos quase fotos publicadas delas. A desse modelo, podemos perceber pelas tecido que sobra na foto tem costas maravilhosas (e tem, eu vi!), mas não temos registro disso por enquanto nas fotos dos desfiles.
É como se faltasse parte de uma história. Será que aquela roupa tem um final feliz? Repensar essa questão e tentar solucioná-la é um desafio para os fotógrafos e editores de moda.
Ao conversar sobre essa assunto com Thais, falei de um fotógrafo fundamental: Man Ray e de seu trabalho excepcional na Vogue e Harper’s Bazaar durante os anos de 1930 e 40. Tudo bem que ele fotografou editorais e não passarela, mas mesmo assim acho sua pesquisa válida para aquilo que comento. Conectado com a questão da experimentação, da velocidade, do movimento e principalmente da simultaneadade, ele em diversos momentos captava o mesmo modelo em diversos ângulos, na tentativa de devolver uma tridimensionaldiade que só a moda pertence. Enfim, ele não deu as costas para o problema!
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AS RESPOSTAS DE GLORIA & REINALDO

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Gloria Coelho disse que esse vestido acima foi inspirado na arquitetura de Frank Gehry, Glauco Sabino de pronto disse que era Instituto Tomie Ohtake.
Mas pra mim foi inspirado no diálogo que ela tem com Reinaldo Lourenço. E pode ter partido de um Reinaldo que olhou pra arquitetura art déco norte-americana:
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Ou poderia ser também o desenvolvimento das ideias laterais e de arquitetura desse vestido também de Reinaldo:
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Mas, quem sabe, podem ser as aberturas de todos esses zíperes de uma outra coleção de Reinaldo inspirada em motociclistas:
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Que com certeza tem relação com mesmas mulheres fortes dessa coleção de Gloria Coelho inspirada no filme “Tróia”, de onde as tiras, emendas e fatias também aparecem. E talvez muito do que Reinaldo fez seria uma resposta dele a ela:
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Esse adorável diálogo entre os dois estilistas a cada temporada se torna mais caloroso, ganha peso histórico e comoção estética. Poder acompanhar esse improvisos de vozes é sempre um privilégio, pois tem ali, além do fator criação, muito amor pela moda e respeito mútuo como só nos bons diálogos é possível.

BALANÇO SPFW VERÃO 2010 – PARTE 2

É sempre bom contextualizar. Sempre me irritou ou me incomodou e depois achei super mistificação [um exercício old fashionista por excelência], indicar tendências (será ainda uma palavra justa de usar?) como:
1) uma moda certa que irá pegar e que você tem que seguir;
2) não tentar compreender quais os sinais que aquelas “tendências” apontam.
Falar que agora é nude, ou que a cintura alta continua em alta pouco revela ou quase nada diz sobre a complexa rede e sistemas que a moda dialoga.
Sendo assim, sempre tentei evitar comentar tendências de uma temporada por total falta de cultura de minha parte, mas dessa vez, tentei me arriscar e fiz um texto para o Metrojornal sobre os rumos [palavra que Gloria Kalil usou com propriedade para substituir tendência em seu último editorial sobre o SPFW e que já adotei] do verão 2010
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Aqui está o abre da matéria que fiquei satisfeito por conseguir fechar certas idéias:
Como já tinham previsto há algum tempo atrás a editora de moda Regina Guerreiro e o diretor artístico do São Paulo Fashion Week, Paulo Borges, não faz mais sentido falar em tendência. São tantas as apostas nas passarelas e se atira para tudo quanto é lado que, como bem definou outra poderosa editora, Gloria Kalil, o certo é falarmos em rumos. E rumamos na moda – e no mundo também – para um novo sexy . Depois dos anos “pornô chic” de Tom Ford, na passagem do milênio, parecia que demoraríamos algum tempo para que o sexo estivesse em alta [PS: É importante contextualizar historicamente o sexo na moda e o incrível texto de Marco Sabino chamado “Moda Tarada”, feito em 2000/2001 é um ótimo ponto de referência] . Mas nada como tempos mais bicudos para que a sensualidade quase picante volte, afinal sexo vende, e muito! Não à toa, uma marca sempre muito bem comportada como a Balmain, causou frisson na última temporada de inverno parisiense propondo comprimentos de saias mínimos, dignos das garotas que praticam a profissão mais antiga do mundo. Mas no Brasil, durante a temporada de verão 2010, o exercício dos estilistas sobre o sexy foi mais elegante e menos explícito. A sensualidade aparece em certas dissimulações da nudez como a cor nude, as transparências e os vazados das peças. Claro que quando Malana passou com seu triquini fio dental no desfile da Neon, com sua derriere de fora, a geral foi ao delírio.
Mas tirando o corpão, nada é muito ostentatório na temporada, até porque vivemos um tempo (de crise?) que isso não faz o menor sentido. Por isso até mesmo o brilho, como os metalizados, que apareceram nas coleções do SPFW, é mais opaco. E como é um momento de não chamar muita atenção, o jeans delavê, mais clarinho, brilha nas passarelas pela sua força discreta.
Sem falar que começamos uma era do drapeado, a técnica usado pelos clássicos da moda para fazer uma espécie de franzido na roupa, nos remete aos gregos e à ordem que tanto esperamos depois dos momentos turbulentos que o mundo está vivendo.
Já no terreno masculino, essa volta aos valores clássicos começa a se tornar presente também, com a releitura da alfaiataria e de sua peça maior: o terno.
Enfim, se por um lado caminhamos para uma revalorização dos clássicos da moda, por outro, 2010 promete ser bem mais periguety com as meninas batendo cabelo com muito mais sensualidade.

BALANÇO SPFW VERÃO 2010 – PARTE 1

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Fui convidado pelas fofas das meninas do Oficina de Estilo para comentar os desfiles do último dia do SPFW no blogue delas. Como era o último dia, fiz uma certa análise do que estava pensando através dos desfiles.
De uma maneira muito tranquila, sem os histrionismos do verde-amarelo ou do regionalismo de algum lifestyle [o carioca, o pior, pois se acentou na cabeça de muitos fashionistas como uma verdade], a moda feita no Brasil passou a refletir de maneira mais clara que é feita no Brasil de forma afirmativa (talvez isso é o que de mais brasileiro a moda feita no nosso país possa alcançar, aliás, todas as expressões sejam elas artísticas ou não).
Tudo bem, a moda sempre refletiu o nosso país, mas até então, sempre na chave negativa e indireta, só víamos a questão da cópia, da vergonha, do colonialismo. Senti nessa temporada que eles encararam de frente a tal da brasilidade de forma mais orgânica, sem bandeiras nacionalistas e sem obviedades, com resultados que estavam na criação de algumas roupas e looks ou mesmo imagens.
Para mim foi uma temporada importantíssima, pois nada de novo aconteceu no front, como a maioria das temporadas, mas de maneira silenciosa, o Brasil começou a se refletir no pensar das roupas e no pensamento de moda dos nossos criadores e pra mim a ráfia (fibras de uma palmeira usada na confecção de sacas de frutas e produtos) é um dos símbolos dessa acontecimento maravilhoso, que assim como tudo no nosso país [a história, a política, a vida social] aconteceu sem revoluções e grandes queimas de fogos de artifício.

SUZY MENKES ENTRE NÓS E OS DOIS MAIS BELOS POSTS DA TEMPORADA

As jornalistas estavam tão na “loucurinhas” que nem notaram a famosa presença de Suzy Menkes na sala de imprensa e seu inseparável laptop.

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Ahahahahah! Essa é a Brisa, querida, bem mais jovem, mais bela e simpática que Menkes, mas já cultivando um topetinho à la editora do International Herald Tribune. Ela tem um blog só de tatoos e eu até mostrei a minha.

Mas o que me tatuou de verdade nessa temporada foram dois posts que explicitaram posições que eu acredito e tento cultivar no meio de moda.

Fernanda Resende escreveu sobre as verdadeiras prioridades
, que todo o circo armado da moda pode nos fazer esquecer.
E Jana Rosa fez as imagens mais lindas de uma verdadeira afetividade fashion, que muitos dizem não acreditar, mas está lá.
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GLORIA KALIL E EU

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Só faltou mesmo a Regina Guerreiro, pra completar a tríade fashion brasileira, mas ela não veio no último dia, quer dizer, deve ter visto o primeiro desfile e se mandado, porque a fofa, queridinha, não é obrigada! Mas consegui conversar com Gloria Kalil, [uma dica, nunca chame ela de Glorinha, tá?] antes do último desfile da temporada. Ela falou de educação, e que nem sempre consegue ser educada já que civilizar-se é um exercício contra a nossa natureza animal. Me contaram que ela era abordada até no banheiro pra tirar foto e dar autógrafo. E falou das tendências, ou da falta delas. Clique nesse link para ver a entrevista.