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LÉVI-STRAUSS: SEXO, MENTE, ARTE, MÚSICA E PINGA

Lembro – quando você começa a lembrar muito é sinal que ficou véia – de Ismail Xavier em uma aula na ECA comentar que era engraçado como todos pensam o intelectual como alguém sem corpo, assexuado, como fosse apenas uma mente emitindo sinais sem pau como essas recentes revistas gays.
O Jorge Wakabara recentemente fez um post ótimo, declarando sua queda [sexual] por Foucault. Personagem que eu também atenderia fácil assim como o Roland Barthes, já o Lévi-Strauss eu preferiria sair pra beber.
Confira esse trecho divertido na Revista de Antropologia que Beatriz Perrone Moisés, em 1999, entrevista Lévi-Strauss.

Beatriz: O senhor gostava de pinga?
Lévi-Strauss: Ah, sim, gostava muito! E me lembro também, da fabricação, uma vez por semana, da rapadura, nas fazendas do interior, para o consumo dos peões, de seus filhos e de suas famílias, isso também tinha um cheiro e um gosto muito especiais.

Tipo mamava mesmo…

Mais um pouco dessa entrevista improvável:

Beatriz: No início do “Prólogo” a Saudades do Brasil o senhor se refere a uma memória olfativa das expedições pelo interior. De que outros odores o senhor se lembra?
Lévi-Strauss: Como se sabe, na época em que fui para o Brasil [1935], viajávamos de navio, não havia aviões, e os navios eram também cargueiros, e faziam muitas escalas [o navio em que veio Lévi-Strauss partiu de Marselha e fez escala em Barcelona, Cádiz, Argel, Casablanca e Dakar antes de aportar em Santos]. Nunca me esquecerei que, ao chegar — estávamos em alto mar havia dezenove dias, acho — e a primeira percepção que tivemos do Novo Mundo — ainda não se podia ver a costa — foi um cheiro. Um cheiro difícil de descrever, porque as associações são fáceis demais: cheiro de tabaco, cheiro de pimenta… enfim, tudo isso está ligado ao Novo Mundo, não sei se é exatamente isso. Mas é sem dúvida uma das dimensões da natureza brasileira, que não é apenas visual, ou tátil, é também olfativa.

Esse congraçamento de todos os sentidos faz muito sentido em um antropólogo que se deu a possibilidade de sair de seu quadrado e pensar em todas e muitas áreas. Quando escrevi sobre a pixação na Bienal traçei um parelelo de como a música erudita se manteve íntegra ao recusar a anarquia a qualquer preço e as artes plásticas [pelo menos a que hoje exerce vassalagens medonhas] se tornaram autoritárias e contraditórias no pior sentido dos meus 5 sentidos.
Meu interlocutor Leo Seabra escreveu que “é preciso pontuar bem que discussão sobre arte, é sobre arte, musica é sobre musica”. Discordei dele de imediato pois estava falando de estética.
Pois bem, Lévi-Strauss coloca mais lenha nessa discussão em entrevista de 1993 para o Caderno Mais da Folha

Folha: Em “Olhar, Escutar, Ler”, o senhor escreveu que há momentos na história da arte em que a qualidade estética diminui quando crescem o saber e a habilidade técnica. É o que acontece hoje?
Lévi-Strauss: Não. Quando escrevi isso, estava pensando na história da tapeçaria. A mais bela tapeçaria que conhecemos é a dos séculos em que o tapeceiro dispunha de número limitado de cores. Esse número de cores só aumentou nos séculos 18 e 19. Em vez de cem cores, hoje temos 10 mil ou 100 mil. A qualidade se enfraquece. O problema da arte moderna, ao menos nas artes plásticas, não é um enriquecimento dos meios técnicos, mas, ao contrário, um considerável empobrecimento. Isso é verdade para as artes plásticas, mas não para a música, que se torna cada vez mais erudita. Não gosto nem um pouco da música contemporânea, mas reconheço que ela é extremamente erudita.

Folha: Para que serve a crítica de arte hoje?
Lévi-Strauss: Desde sempre, o papel da crítica foi tanto traduzir, por meios literários, a emoção do espectador diante da obra, quanto tentar compreender justamente as razões e os mecanismos dessa emoção. O problema é que acho que hoje não existe mais arte. Há alguns modos de expressão, que continuamos chamando por nomes tradicionais – pintura, música, literatura -,mas creio que sejam outras coisas. Não são mais as mesmas artes.

Eis o papel da crítica, mas se pensarmos que no Brasil é feita por intelectuais, estudantes universitários, jornalistas que não mudaram muito a postura desde essa ótima descrição em “Tristes Trópicos” sobre os alunos do antropólogo na USP…

“Os estudantes queriam saber muito, porém apenas das teorias mais recentes. Nunca liam as obras originais, preferiam as publicações abreviadas e mostravam enorme entusiasmo pelos novos pratos. É uma questão de moda e não de cultura. Idéias e doutrinas não apresentavam aos seus olhos um valor intrínseco, eram apenas instrumentos de prestígio, cuja primazia deveriam obter. Partilhar uma teoria conhecida por outros era o mesmo do que usar roupa pela segunda vez. Uma concorrência encarniçada estabelecia-se com o fito da obtenção do modelo mais recente e mais exclusivo no campo das idéias”.

Agora com licença que eu vou tomar minha pinguinha em homenagem aos 100 anos do véio.


a boca banguela também canta