Arquivo da categoria: inverno 2008

ROLOU UMA GLORIA COELHO EM PARIS


inverno 2008 de Gloria Coelho


verão 2009 Louis Vuitton


verão 2009 Martin Margiela para Sonia Rykiel


verão 2009 Jean Charles de Castelbajac

E SUBIU PRA CABEÇA


verão 2009 Chanel


verão 2009 John Galliano

BLOGVIEW REVISITED: DA ESPIRITUALIDADE DAS ROUPAS

De alguma maneira esse texto tem alguma relação com a resenha que fiz do último desfile de Ronaldo Fraga, por isso resolvi revisitá-lo nesse momento que os olhos estão voltados para os negócios desfeitos na moda. É sempre bom também olhar para o espírito das roupas que com certeza nos dão mais alento nesse momento decepcionante da moda brasileiro com o caso I’M.

As roupas têm alma. Elas carregam em suas tramas as memórias, os sentimentos e as idéias de quem as vestem. Em seus fios estão registrados afetividades, vontades e desejos.Mesmo em total época consumista e que o descartável é tido como valor positivo, sempre tem aquela peça que na hora da chamada “reciclagem do armário”, você não consegue se desfazer. Em geral, porque nela estão contidas memórias e desejos em toda a sua estrutura.Olhando para as fotos de August Sanders, não posso deixar de notar as roupas dos trabalhadores alemães que ele tanto fotografou no começo do século 20, em uma época de grandes dificuldades econômicas para o país.
Mas apesar de retratar a matéria (ou a necessidade dela), as fotos de Sanders focam roupas cheias de espiritualidade. São as dobras destas roupas que conviviam 24 horas com seus donos que trazem todo o sentimento de quem a veste. Elas se moldam ao corpo, fazendo parte da vida do retratado. Em cada dobra está seu esforço, sua luta, seu trabalho. Em cada nesga está a sua dignidade. Isso é com certeza o que mais gosto nas fotos dele.
Penso nos brechós como depositórios dessas histórias, uma biblioteca espiritual. Conheço pessoas que não compram roupas em brechós, pois os enxergam como cemitérios. Como acredito na espiritualidade das roupas, acho que não são nos brechós que elas devem acabar e sim é lá o local onde elas devem transcender.
Elas evidenciam que as roupas carregam as nossas histórias. Ao nos desfazermos de uma peça do vestuário não estamos nos desfazendo de nossa história, mas transferindo para outro, deixando um certo legado nosso nas manchas que caíram no tecido, no rasgo cerzido e principalmente das dobras de tecido que se amoldaram ao nosso corpo. È uma espécie de legado como os filhos, os livros, as fotos, os amigos.
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foto: August Sanders

POR UMA CRÍTICA DE MODA

O mundo da moda reclama muito da falta de uma verdadeira crítica de moda ou de um esforço de um pensamento crítico no Brasil. Tendo a pensar que algumas editoras e editores de moda se esforçam nessa construção, mas muitas vezes são impedidos de realizar algo mais profundo por culpa de diversos mecanismos.

Um deles é que os meios que representam (revistas e jornais) têm parte de sua receita vinda da publicidade de inúmeras das possíveis marcas criticadas. Outro ponto que também é um agravante faz parte de uma certa diplomacia que os editores fazem com assessorias e estilistas para a entrada nos desfiles, pois diferentemente das pessoas de fora da moda, sabemos da importância não só de assistir a coleção de uma marca como estar bem posicionada para poder perceber detalhes que podem construir uma certa visão. Essa diplomacia acaba sendo crucial para o acesso ao backstage, outro lugar importante para compreender uma coleção.

Acho engraçado que todo mundo acha compreensível se um crítico de música reclama do áudio de um show ou mesmo da visibilidade da performance do artista caso ele fique sentado em frente a uma pilastra, mas com a moda, parece frescura querermos estar na sala de desfile ou mesmo em um lugar que informações igualmente importantes como acessórios e make up (esse cada vez mais relevante) não possam ser percebidos. Mas isso será assunto para outro post.

Voltando ao povo da moda, crítica não significa falar mal. Não considero Regina Guerreiro uma pessoa que pensa moda porque fala ”mal” dos desfiles, mas sim porque tem um pensamento e uma visão de moda e é fiel a ele. Tão fiel que é capaz de cometer um grave delito para os fashionistas: criticar negativamente uma coleção em público (algo que sabemos é muito praticado a boca miúda). Talvez aí resida sua superioridade e a atenção que os fashionistas, e não só eles, têm para com a editora. Falo isso porque acredito que hoje, nesse momento, os sites e mais ainda os blogs seriam os lugares ideais para se fomentar um pensamento de moda, ou vários. 

Do mundinho

Um outro problema é que todos na moda se conhecem ou sabem mais ou menos que são ou ouviram falar, etc,etc. O primeiro passo é entender que os laços de amizade não devem ser escondidos, mas sim amenizados principalmente se for uma crítica em choque com o que foi visto na passarela ou no editorial.

Existe um paradoxo, os estilistas e criadores de moda sempre reclamam dessa falta de crítica, mas entram em pequenas rusgas com os editores e jornalistas quando a crítica não os favorece. E isso é generalizado, já vi estilista com carreira consolidada chateado (no sentido infantilóide) com a crítica negativa de uma editora. Ao que me parece vivemos um momento que ainda eles enxergam a crítica e os editores como aduladores de seus egos. Isso não é bom nem pra moda nem pra um pensamento crítico.

Exemplifico com algo que está causando polêmica aqui no meu blog: A nova campanha de Giselle Nasser.

Antes de qualquer coisa, adoro muito a Giselle e amei sua coleção e sobre os fotógrafos, por ignorância minha, assumo que não conheço o trabalho da dupla, por isso nenhum pré-julgamento.

Nota: No futuro, com uma crítica mais acentuada e consolidada, não precisaremos mais dos parágrafos acima, pois entenderão, principalmente os leitores, que a questão não é pessoal.

Quando disse que não gostei da campanha e que acredito que erraram no conceito da coleção, foi baseado na minha primeira crítica ao desfile de Giselle, que, aliás, coloquei o link. Lá estava a base do meu pensamento sobre a coleção ao qual não está muito distante do que a própria estilista pensava pois conversamos depois sobre o que escrevi.

Mas o que pra mim não fez sentido: 

1) A experiência religiosa ou o xamanismo visto como iluminação: o que pra mim não caberia fotos tão escuras, mesmo no que barrocamente está iluminado. Penso que talvez se o iluminado estivesse estourado como a luz do transe faria mais sentido pra mim. Era uma coleção iluminada, de cores, era felicidade, a felicidade do absoluto.

2) Não rolou o foco privilegiando o rosto da menina em detrimento à roupa ou estampas que eram de uma psicodelia formal muito rica, ou os debruns como limites. O rosto dela, apesar de bela, me diz muito pouco sobre a imagem da coleção.

3) O esforço de Giselle de mudar sua imagem de estilista correta dos vestidos de festa para algo mais livre e solto como ocorreu no desfile com a sua própria participação, não corresponde aos enquadramentos extremamente corretos, quase caretas de tão acertados formalmente. Uma anarquia formal e de enquadramento aqui seria inesperada e benvinda. 

Não acho incorreto o escuro, a foto privilegiar mais a atitude do que a roupa, fazer enquadramentos que chamei de caretas e corretos, (mas não no sentido pejorativo, por favor), mas acho que vão na contra mão da coleção da estilista. Por isso me desagradou. 

Por outro lado, alguns fashionistas como o Romeu e a Fernanda Resende enxergaram a coleção muito pela imagem da vocalista da banda Bat for Lashes, Natasha Khan. E para eles também não rolou. 

As defesas da campanha me pareceram mais emocionais e com o traquejo do desafio tecnológico tipo na internet, a definição, o papel…Tudo vai melhorar. Mas afinal pergunto para os que gostaram da campanha e para os que discordam de minha visão, o que a campanha tem em relação a coleção e a imagem criada na passarela? Ou isso não tem importância nenhuma, são coisas diferentes? 

O debate é sempre bom para críticos e criadores.  

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Alexandre, que eu considero grande, fez uma das campanhas mais feias que eu já presenciei e um dia eu explico o porquê.

CAMPANHA DE INVERNO DE GISELLE NASSER ERRA CONCEITO

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Graças a Deus eu estudei cinema porque Paulo Emílio via Jean Claude e Maria Rita me descolonizou e não é porque os fotógrafos são bombados de Nova York significa que eles fizeram a coisa certa.

Eu simplesmente não gostei nada das fotos da campanha. É uma coleção luminosa como bem escrevi, cheia de detalhes, debruns, vivos e os fotógrafos Esther Varella e Gil Inoue Sardenberg, que assinam Stella & Inoue fizerma algo dark, escuro que esconde detalhes preciosos da roupa. Dessa vez, ficou devendo. giselle_nasser__campanha_inv_08_2_b.jpg

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COLEÇÃO DE INVERNO DE RONALDO FRAGA CHEGA ÀS LOJAS

As coleções de inverno estão chegando, mas essa do Ronaldo Fraga para o inverno 2008 eu gostaria muito de poder tocar em todos os tecidos para ter de volta à memória de como foi poético esse momento!

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MINHA MODELO PREFERIDA NA TEMPORADA DE INVERNO 2008 DE PARIS

Amanda Laine. Esse é o nome que me encantou. Fui pesquisar mais sobre e soube que ela venceu um concurso promovido pela V Magazine, é canadense e tem apenas 16 anos, isto é, está no começo de tudo.Mas já arrasou na Prada e na Marni, em Milão, mas realmente eu a vi abrindo o deslumbrante desfile do McQuenn e fiquei impressionado.  

Amanda abre desfile de McQueen narrado por Hilary Alexander 

Ela como Daiane Conterato que eu adoro tem levado para outros parâmetros os conceitos de beleza.

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McQueen inverno 2008

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Givenchy inverno 2008

UMA IMAGEM: UNDERCOVER

Se tivesse que eleger uma imagem no inverno 2008 da semana de moda de Paris, seria essa da Undercover:

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O jeans, as franjas, o masculino-feminino, o perfecto, o tecido inteligente: a imagem

SORRIA, SORRIA, SORRIA

Caetano Veloso, uma vez, bem baianamente, comentou que ao assistir um desfile de moda falou meio apreensivo para “Paulinha” que achava que as mulheres que estavam desfilando pareciam estar bravas com ele. E ainda exagerou na ironia: pensei que iam me bater!

A cara fechada dá neutralidade na passarela e é quase um comportamento padrão hoje em dia nos desfiles, mas nem sempre foi assim. Uma vez entrevistei a top modelo dos anos 70 Veluma que me contou que as modelos riam muito na passarela naquela época, e que isso deixava o ambiente mais agradável.

E é bem verdade, pois a energia de um clássico desfile da marca Amonstro no antigo Amni Hot Spot para o inverno 2006 estava no fato de todas os modelos entrarem sorrindo. Foi incrível!

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O sorriso prateado da Amonstro!

Agora em Paris, um dos meus preferidos, Hussein Chalayan, pediu a mesma atitude para as modelos no seu inverno 2008, pois o começo de tudo, o Big Bang – tema de sua coleção - certamente na visão do estilista não foi algo nada triste ou sério.

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Os carrancudos europeus adoraram o riso da gata!

BIG BANG

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Depois de todo o esforço de artistas e pensadores do século 20 para um mundo que as representações sejam mais livres do simulacro e da imitação, parece que voltamos para o mesmo bueiro. Haja visto o sucesso dos realities shows.

Agora os cientistas querem simular o big bang, o grande começo.Mas prefiro as representações da Viradouro e de Hussein Chalayan, pois injetam poesia já no começo de tudo!

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Viradouro 1997

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Hussein Chalayan inverno 2008

LANVIN: TIRA-ME DO EIXO!

Alber Elbaz é um dos grandes pensadores da Moda! Suas coleções são sempre um desfio para o olhar, pois atrás de suas criações para a Lanvin, uma das maisons mais tradicionais da França que ele revitalizou com elegância e discrição, estão sempre suas pesquisas mais profundas sobre a estrutura da roupa e sua relação com o corpo.

Ele já tinha investigado a força dos quadris, da cintura, do busto e confundido muito fashionista que pensava que ele discursava sobre as tais “mangas importantes” quando ele dialogava com a sustentação da roupa apoiada pelo ombro. Isso foi na memorável coleção de inverno 2007.   

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Lanvin deu de ombros para as mangas importantes.

No verão seguinte, ele aparece completamente fluido como que se as roupas não precisassem mais de sustentações. O fluido era seu último resultado, o que fez que muita gente se perguntasse: e agora para onde assoprará sua imaginação? Pois ele já tinha testado todas as possibilidades e chegado ao que parecia no limite: na insustentável leveza da roupa.  

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Pra onde os ventos levarão a Lanvin?

Esse luto do fim de um caminho parecia estar delineado nos primeiros looks todos fechados na estrutura e nas cores, além de completamente austeros de sua recente coleção de inverno 2008. Até que aparecem as primeiras listras, que na verdade são tiras, como que ele fatiasse a roupa para poder introduzir em sua estrutura aquilo que antes era estampa, que era externo à roupa. As listras agora em tiras dão volume, modelagem às criações de Elbaz.

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As listras como estrutura!

Ele insere as listras na estrutura de uma roupa e ao final ao ter tiras-bijoux talvez nos faça pensar que algum dia fará o mesmo com os acessórios.

Bravo!

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Possibilidades para uma nova pesquisa!