Arquivo da categoria: editores de moda

SOBRE A EDIÇÃO DAS IMAGENS DOS DESFILES

Penso muito como na moda – e não só nela– caimos em fórmulas preguiçosas e esquemáticas como verdades prontas sem questioná-las. Tentei discorrer sobre isso no post sobre a fotografia de passarela. Para mim não ter detalhes muitas vezes muito importante das roupas e mais – não ter quase fotos das costas das roupas é um exemplo de como fotógrafos e editores se acomodaram em uma fórmula e uma visão de moda engessado. Como disse, muitas vezes a parte importante ou o complemento do que vemos na frente se fecha nas costas, mas os responsáveis pelas escolhas das fotos de moda parecem ignorar esse quesito.
Outro vício e que me dá uma agonia tremenda é ver fotos de desfiles empilhadas de qualquer forma tanto em sites, revistas e jornais. O mesmo acontece quando um editor quer mostrar uma tendência, eles nos abarrota e nos entupe de imagens sem o menor discernimento como que gritassem para nós: Olha quantas marcas fizeram tal silhueta! E isso ocorre sistematicamente em quase todas as publicações nacionais – seja ela virtual ou impressa – como esse essa fosse a regra e a maneira de se fazer.
Fala-se tanto que moda é imagem, ou que todos os fashionistas tem interesse por artes plásticas, mas a mínima relação entre volume, forma, cor não é sequer sugerida quando vemos uma edição de fotos de um desfile ou de uma tendência. Coloca-se uma série de fotos (que para o meu olhar parecem mais jogadas) e pronto, sem o menor cuidado para que elas façam uma composição de uma página ficar visualmente interessante. Pensar uma página, – seja de jornal, revista ou virtual – como um quadro, essa é a dica. Esse é o único momento que deveríamos nos curvar ao conhecimento de milênios das artes plásticas (ficar babando em peformance tosca de arte contemporânea é muito de quinta, quinto plano do que é exatamente ter conhecimento das artes visuais).
Escrevo isso porque mais uma Caras Moda está nas bancas, a de verão 2010, e ela é exatamente a exceção que comprova a regra. E folheando, me veio conversas que tive com Oliveros e Jorge Wakabara sobre o processo de edição de Regina Guerreiro. Lá existe lição de edição e licão de composição – recomendaria a todos os editores e todos que editam fotos de desfile uma olhada atenta. Percebe-se nas lições de Regina que amontoar fotos não conta nada, é preciso contar algo, que os modelos tem que estar em certas posições pois assim compõem a página melhor, tem equilibrio de cores.
Não podemos criticar uma imagem se somos ou aparentamos ser totalmente analfabetos visualmente. Existe um processo de educação do olhar que o leitor poderá captar melhor se bem feita.
Abaixo 3 imagens da Caras de Inverno 2009 [fotos super caseiras que tirei só pra ilustrar e dar uma ideia visual do que comentei acima]. Vejam como a edição cuida da passagem de cores, da tessituras dos tecidos, do jogo de volumes de cada página e da composição das duas páginas abertas e tem até um look de costas [para a minha felicidade]
P1000255
P1000256
P1000257

AS EDITORAS E JORNALISTAS DE MODA

 

A Oficina de Estilo fez na semana passada um texto convidando eu, Oliveros, Maria Prata, Luigi e Sylvain para explicarmos qual a importância de ler as editoras  e as jornalistas de moda.

O texto super bem editado falou dessas personalidades que tanto fascinam o mundo da moda lá e aqui na terrinha.

Só o que escrevi daria um post “em si”, por isso abaixo tem tudo o que escrevi sobre elas, as amadas diabas:

 

 

BRASIL

 

O pensamento crítico de moda no Brasil é muito recente. Pensar que deve ter menos de 40 anos que começou a se pensar moda no país e nem era de forma sistemática podemos então visualizar todo um terreno a ser explorado.

A formação de uma corrente crítica de moda passa por diversos problemas: o papel de periferia de idéias que o país ainda se reconhece, o colonialismo cultural, a produção muito recente de semanas de moda etc etc.

Mesmo assim temos desbravadores:

 

Regina Guerreiro – Atualmente escrevendo na Caras Moda, seu destaque é óbvio pois desperta o interesse de em um mundo cheio de festas de medalhas como o da moda brasileira, ela põe o dedo na ferida e fala que não ta nada bom. Apesar de todos saberem, ela é quase única nesse papel de desafiar o coro dos contentes publicamente. Sem medo dos bafos e com muita coragem, já que no mundo fashion os trabalhos são sempre embrenhados com as marcas, ela se livra de certa maneira dessa promiscuidade com um alto teor de humor, não é não, queridinha?

 

Costanza Pascolato – Eu ainda não entendi como não teve nenhum editor ou editora de livros que não pegou os textos únicos que ela escreve na Vogue Brasil e os copilou para um livro de moda. Ali tem muito pensamento de moda e como já escrevi sobre a importância de ler Costanza acredito que “sempre as entrelinhas de seus textos são espaços imensos de reflexão”. 

 

Fernando de Barros – ele não escreve mais na Playboy pois já faleceu, mas desde que abandonou o cinema e invadiu a moda, não deixou de investigar e educar sobre a moda masculina. Então vale pesquisa de seus textos em revistas antigas. Outro que deveria ter seus textos copilados em livro.

 

Com a semana de moda em são Paulo e depois no Rio a crítica começou a crescer.

 

Lílian Pacce – Como já falei em entrevista para o Fora de Moda, ela é minha mestra, então acompanho o trabalho dela bem de perto. Já colaborei em seus cadernos especiais para O Estado. Tem um texto impagável sobre a roupa que Lula e que FHC usaram na visita a Rainha da Inglaterra.mas foi com “Pelo Mundo da Moda – Criadores, Grifes e Modelos” que existe ali uma primeira sistematização de uma editora de moda perceber seu pensamento.

 

Alcino Leite – Intelectual, culto, bem humorado, zeloso e respeitoso em relação ao passado de moda do país, Alcino é sem dúvida leitura obrigatória todas as sextas na Ilustrada, caderno da Folha de São Paulo. Seu último editorial na Revista de Moda do jornal dizia: “Abaixem os preços, democratizem a cultura de moda e parem, então, de reclamar que os brasileiros se vestem tão mal!”, Com certeza, um manifesto da maior importância hoje, sem falar de um que ele defendia as modelos as chamando de operárias do mundo da moda e terminava assim, bem marxista: “Modelos de todo o mundo, uni-vos”. Genial!

Carol Vasone – Um texto independente, explicativo, cheio de idéias, adoro acompanhar o que escreve durante a temporada internacional no site da Uol. Sua rapidez e concisão faz dela uma das principais jornalistas online do país.

 

Alexandra Farah – Outra da internet, tgexto delícia, diversão garantida e informação de moda.

 

Lula Rodrigues – Moda masculina é com ele e o Sylvain, é claro.

 

Apesar de ser no Rio e não ter pouco acesso aos textos,  respeito muito a escrita de Iesa Rodrigues e de Gilda Chatagnier.

 

 

INTERNACIONAL

 

Amo muito Suzy Menkes, principalmente pelo acesso à informação privilegiada e como ela abre o leque com essas informações em seus textos sempre tão bem escritos (fora o topete e o fato de ser obesa, quase um crime no mundo da moda).

 

Ultimamente a jornalista que tenho considerado mais interessante é sem dúvida Cathy Horyn do New York Times, onde exerce aquilo que considero crítica de moda desde 1998. É ainda mais interessante o seu blog, o On the Runway. Numa mesa de fashionistas bacanas, quase boteckers, o fotógrafo Marcelo Gomes levantou a qualidade dela de surpreender e sair do óbvio e da reverência sem criticismo do mundo da moda, como por exemplo: ela teve a coragem de perguntar qual a relevância de Rei Kawakubo hoje, quase uma ofensa aos adeptos do japonismo. Essa liberdade faz com que pague um preço, como ser banida de alguns desfiles como o de Giorgio Armani, mas ao mesmo tempo a faz conseguir cada dia mais leitores, pois sabemos que ali tem um pensamento crítico e sólido. E o mais bacana, sem medo de ficar no lugar comum.

 

 

 

 

POR UMA CRÍTICA DE MODA

O mundo da moda reclama muito da falta de uma verdadeira crítica de moda ou de um esforço de um pensamento crítico no Brasil. Tendo a pensar que algumas editoras e editores de moda se esforçam nessa construção, mas muitas vezes são impedidos de realizar algo mais profundo por culpa de diversos mecanismos.

Um deles é que os meios que representam (revistas e jornais) têm parte de sua receita vinda da publicidade de inúmeras das possíveis marcas criticadas. Outro ponto que também é um agravante faz parte de uma certa diplomacia que os editores fazem com assessorias e estilistas para a entrada nos desfiles, pois diferentemente das pessoas de fora da moda, sabemos da importância não só de assistir a coleção de uma marca como estar bem posicionada para poder perceber detalhes que podem construir uma certa visão. Essa diplomacia acaba sendo crucial para o acesso ao backstage, outro lugar importante para compreender uma coleção.

Acho engraçado que todo mundo acha compreensível se um crítico de música reclama do áudio de um show ou mesmo da visibilidade da performance do artista caso ele fique sentado em frente a uma pilastra, mas com a moda, parece frescura querermos estar na sala de desfile ou mesmo em um lugar que informações igualmente importantes como acessórios e make up (esse cada vez mais relevante) não possam ser percebidos. Mas isso será assunto para outro post.

Voltando ao povo da moda, crítica não significa falar mal. Não considero Regina Guerreiro uma pessoa que pensa moda porque fala ”mal” dos desfiles, mas sim porque tem um pensamento e uma visão de moda e é fiel a ele. Tão fiel que é capaz de cometer um grave delito para os fashionistas: criticar negativamente uma coleção em público (algo que sabemos é muito praticado a boca miúda). Talvez aí resida sua superioridade e a atenção que os fashionistas, e não só eles, têm para com a editora. Falo isso porque acredito que hoje, nesse momento, os sites e mais ainda os blogs seriam os lugares ideais para se fomentar um pensamento de moda, ou vários. 

Do mundinho

Um outro problema é que todos na moda se conhecem ou sabem mais ou menos que são ou ouviram falar, etc,etc. O primeiro passo é entender que os laços de amizade não devem ser escondidos, mas sim amenizados principalmente se for uma crítica em choque com o que foi visto na passarela ou no editorial.

Existe um paradoxo, os estilistas e criadores de moda sempre reclamam dessa falta de crítica, mas entram em pequenas rusgas com os editores e jornalistas quando a crítica não os favorece. E isso é generalizado, já vi estilista com carreira consolidada chateado (no sentido infantilóide) com a crítica negativa de uma editora. Ao que me parece vivemos um momento que ainda eles enxergam a crítica e os editores como aduladores de seus egos. Isso não é bom nem pra moda nem pra um pensamento crítico.

Exemplifico com algo que está causando polêmica aqui no meu blog: A nova campanha de Giselle Nasser.

Antes de qualquer coisa, adoro muito a Giselle e amei sua coleção e sobre os fotógrafos, por ignorância minha, assumo que não conheço o trabalho da dupla, por isso nenhum pré-julgamento.

Nota: No futuro, com uma crítica mais acentuada e consolidada, não precisaremos mais dos parágrafos acima, pois entenderão, principalmente os leitores, que a questão não é pessoal.

Quando disse que não gostei da campanha e que acredito que erraram no conceito da coleção, foi baseado na minha primeira crítica ao desfile de Giselle, que, aliás, coloquei o link. Lá estava a base do meu pensamento sobre a coleção ao qual não está muito distante do que a própria estilista pensava pois conversamos depois sobre o que escrevi.

Mas o que pra mim não fez sentido: 

1) A experiência religiosa ou o xamanismo visto como iluminação: o que pra mim não caberia fotos tão escuras, mesmo no que barrocamente está iluminado. Penso que talvez se o iluminado estivesse estourado como a luz do transe faria mais sentido pra mim. Era uma coleção iluminada, de cores, era felicidade, a felicidade do absoluto.

2) Não rolou o foco privilegiando o rosto da menina em detrimento à roupa ou estampas que eram de uma psicodelia formal muito rica, ou os debruns como limites. O rosto dela, apesar de bela, me diz muito pouco sobre a imagem da coleção.

3) O esforço de Giselle de mudar sua imagem de estilista correta dos vestidos de festa para algo mais livre e solto como ocorreu no desfile com a sua própria participação, não corresponde aos enquadramentos extremamente corretos, quase caretas de tão acertados formalmente. Uma anarquia formal e de enquadramento aqui seria inesperada e benvinda. 

Não acho incorreto o escuro, a foto privilegiar mais a atitude do que a roupa, fazer enquadramentos que chamei de caretas e corretos, (mas não no sentido pejorativo, por favor), mas acho que vão na contra mão da coleção da estilista. Por isso me desagradou. 

Por outro lado, alguns fashionistas como o Romeu e a Fernanda Resende enxergaram a coleção muito pela imagem da vocalista da banda Bat for Lashes, Natasha Khan. E para eles também não rolou. 

As defesas da campanha me pareceram mais emocionais e com o traquejo do desafio tecnológico tipo na internet, a definição, o papel…Tudo vai melhorar. Mas afinal pergunto para os que gostaram da campanha e para os que discordam de minha visão, o que a campanha tem em relação a coleção e a imagem criada na passarela? Ou isso não tem importância nenhuma, são coisas diferentes? 

O debate é sempre bom para críticos e criadores.  

ha2.jpg

Alexandre, que eu considero grande, fez uma das campanhas mais feias que eu já presenciei e um dia eu explico o porquê.