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BLOGVIEW REVISITED: DA ESPIRITUALIDADE DAS ROUPAS

De alguma maneira esse texto tem alguma relação com a resenha que fiz do último desfile de Ronaldo Fraga, por isso resolvi revisitá-lo nesse momento que os olhos estão voltados para os negócios desfeitos na moda. É sempre bom também olhar para o espírito das roupas que com certeza nos dão mais alento nesse momento decepcionante da moda brasileiro com o caso I’M.

As roupas têm alma. Elas carregam em suas tramas as memórias, os sentimentos e as idéias de quem as vestem. Em seus fios estão registrados afetividades, vontades e desejos.Mesmo em total época consumista e que o descartável é tido como valor positivo, sempre tem aquela peça que na hora da chamada “reciclagem do armário”, você não consegue se desfazer. Em geral, porque nela estão contidas memórias e desejos em toda a sua estrutura.Olhando para as fotos de August Sanders, não posso deixar de notar as roupas dos trabalhadores alemães que ele tanto fotografou no começo do século 20, em uma época de grandes dificuldades econômicas para o país.
Mas apesar de retratar a matéria (ou a necessidade dela), as fotos de Sanders focam roupas cheias de espiritualidade. São as dobras destas roupas que conviviam 24 horas com seus donos que trazem todo o sentimento de quem a veste. Elas se moldam ao corpo, fazendo parte da vida do retratado. Em cada dobra está seu esforço, sua luta, seu trabalho. Em cada nesga está a sua dignidade. Isso é com certeza o que mais gosto nas fotos dele.
Penso nos brechós como depositórios dessas histórias, uma biblioteca espiritual. Conheço pessoas que não compram roupas em brechós, pois os enxergam como cemitérios. Como acredito na espiritualidade das roupas, acho que não são nos brechós que elas devem acabar e sim é lá o local onde elas devem transcender.
Elas evidenciam que as roupas carregam as nossas histórias. Ao nos desfazermos de uma peça do vestuário não estamos nos desfazendo de nossa história, mas transferindo para outro, deixando um certo legado nosso nas manchas que caíram no tecido, no rasgo cerzido e principalmente das dobras de tecido que se amoldaram ao nosso corpo. È uma espécie de legado como os filhos, os livros, as fotos, os amigos.
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foto: August Sanders