Arquivo do mês: março 2010

COLUNA DA REVISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO – 28/03/2010

Depois de explicar como se dá um pensamento autoritário contra as minorias e de apontar quem o está utilizando para reforçar antigas imagens – a TV Globo e os falsos simpatizantes – encerro essa saga do “crepúsculo” (de razões que a televisão desafina) refletindo sobre o que sobrará desse veneno de vamp que inundou o país nesses primeiros meses de 2010.

Com o Big Brother Brasil ficou claro a quantidade de mulheres misógenas que ainda não aprenderam que para um homem ser macho, ele não precisa ser machista. Também aflorou a homofobia de muitas bees, ao condenar que os gays participantes do programa não os representava (Gente, a única pessoa que me representa sou eu). Como também chocou muitos telespectadores que se indignaram com a atração de Serginho, um gay, por uma mulher, como se isso fosse algo ou do outro mundo ou impossível. Enfim, como diz o professor negro e antropólogo Kabengele Munanga: “O brasileiro nunca vai aceitar que é preconceituoso. Foi educado para não aceitar isso”. Nisso, o BBB foi um “avanço”.

Mas mesmo antes de terminar o reality, está óbvio que os grandes perdedores foram os direitos gays. Se há pouco tempo atrás, muitos diziam que não gostavam dos viados com certa vergonha e silêncio, hoje – em um retrocesso civilizatório – eles dizem com orgulho, batendo no peito. Por isso que falo que vivemos uma oposição à clásscia novela de Gilberto Braga. Se antes nos envergonhávamos de nossos atrasos e corrupções, hoje nos orgulhamos de nossos preconceitos. Será que realmente vale tudo – pelo Ibope?

COLUNA DA REVISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO – 14/03/2010

Nesses dias obscurantistas de Big Brother Brasil nasceu uma polarização entre os adoradores do personagem Dourado e os gays, que enxergam em sua mise-en-scène algo de nefasto para os homossexuais. Acredito que para além de Emilinhas versus Marlenes, devemos transcender essa caricatura criada pela edição do programa como se fosse realidade e perceber o imbroglio maior que essa questão nos coloca.

Ao tatuar em um dado momento o logo do programa, o lutador se funde simbolicamente com a corporação que “o apoia” – “A edição está fazendo a coisa certa” é um “douradofacts”. Aliás, realmente é muito espontâneo (NOT), característica elogiosa dos que idolatram Dourado, tatuar símbolos de empresas no corpo, mas ela denuncia o gaúcho como mero peão nesse xadrez de intolerância. Oras, não podemos esquecer que é exatamente nessa emissora que o beijo gay é sempre vetado. E é sempre bom lembrar que o Ministério Público investiga suposta responsabilidade de homofobia da Globo no reality.

Tentando escapar, a emissora do plim-plim diz em voz baixa a baixaria de não ser responsável pelas “declarações e opiniões pessoais de participantes de reality shows”.

Somando a essa covardia, temos também o silêncio ruidoso de muitos simpatizantes. Na cartilha das antigas revoluções dizia-se que o povo não tomaria o poder sem a ajuda de alguns burgueses. O mesmo acontece com os gays que não mudarão sua posição de sub-cidadãos sem a ajuda de héteros mais progressistas. Mas hoje percebemos que muitos deles eram simpatizantes pelo hype [dá um ar de modernidade ter um amigo viado, não?]. E dentro do fosso escuro que se encontram, abrem precedentes para discursos de ódio de outros que até então se envergonhavam de sua raiva para com os homossexuais.

Realmente , no paredão da idiotização, esses supostos simpatizantes e essa emissora “global” formam uma bela dupla – de extermínio.


Nosso verdadeiro Grande Irmão

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Só gente fodida tem dia: Mulher, negro, gay…
Só isso que tenho a dizer

PENSAMENTO FRACO DE DOMINGO

Beth Ditto é a nova Tim Maia!

DUAS QUESTÕES IMPORTANTES MUITO PRÓXIMAS

Ler dois textos escritos por pessoas diferentes, de backgrounds diferentes, – mas nem por isso um melhor que o outro – foi uma das delícias desse fim de semana. Renato Janine foi meu professor na minha breve passagem pela Filosofia da USP, antes de me jogar no curso de Cinema. E Lalai foi minha professora de como conseguir conciliar a noite e o trabalho de forma intensa e divertida, aliás sua atitude ao promover inúmeras festas na noite de São Paulo é fundamental para que a vida noturna da cidade se torne agitada e diversa. Os dois têm meu profundo respeito. E adoro quando ambos , cada um do seu jeito e com seu recorte particular discutem a ética – essa mesmo que anda em falta no mercado.

Lalai escreveu esse brilhante texto sobre a mentira. E Renato sobre a política das minorias e das classes. Como nem todo mundo é assinante do Uol, transcrevo o texto de Janine abaixo:

A DEVASSA DA DEVASSA

Suspensão de propaganda de cerveja estrelada por Paris Hilton escancara os limites do “politicamente correto” e aponta para o desgaste do erotismo na sociedade atual

RENATO JANINE RIBEIRO
ESPECIAL PARA A FOLHA

Provei a cerveja Devassa num dia no aeroporto. Mas, quando vi na TV sua propaganda com uma norte-americana rica que deve a fama a um vídeo pornô que circulou na internet, achei de mau gosto e perdi a simpatia pela bebida. Ponto. Agora, quando o Conar retirou a propaganda do ar, vale a pena discutir um pouco o assunto.
O Conar é um órgão privado -Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária. Quando alguém fala em regular os excessos da televisão, a mídia costuma citar o Conar como exemplo de como fazê-lo sem o Estado intervir. Quando se para de falar em regulação social, esquece-se o Conar. De todo modo, ele nada tem a ver com o governo.
Numa pesquisa de 2000 que publiquei em meu livro “O Afeto Autoritário” (ed. Ateliê), analisei os julgamentos do Conar que encontrei. Notei uma certa contradição. Quando o Conselho de Enfermagem reclamou de quatro propagandas mostrando enfermeiras como mulheres fáceis, o Conar concordou e as publicidades sumiram.
Já quando psicólogos reclamaram duas vezes porque sua profissão era ridicularizada, o Conar disse que as propagandas eram, só, engraçadas. Em suma, onde para uns há humor, para outros há preconceito; mas a linha de corte depende, muito, do grau de mobilização dos que se sentem ofendidos.
A questão do humor ou do preconceito é ponto em que a publicidade converge com uma preferência dos jornalistas que tratam de entretenimento e variedades: segundo eles, o politicamente correto se distinguiria pela falta de humor. O elogio-padrão a uma peça de teatro engraçada diz que ela é “politicamente incorreta”.
“Politicamente correto” é um termo pejorativo, usado para criticar a preocupação, nascida nos EUA, de movimentos sociais com expressões que depreciam grupos historicamente perseguidos. Por exemplo, os verbos denegrir e judiar vêm do preconceito contra negros e judeus -embora ninguém pense nisso hoje, quando os usa.

Piada de português
É difícil, mas necessário, separar o que é justo, para combater um preconceito de largas raízes históricas, e o que é excesso de algumas pessoas que levam, com boa-fé ou mesmo sem ela, longe demais a suscetibilidade. Denegrir, judiar, humor negro não me parecem exprimir, hoje, preconceito. Tampouco vejo problema em piadas de loira, de português, de papagaio e do Juquinha. Já afirmar que “o asfalto é o preto de quem todo mundo gosta”, como disse um ministro dos Transportes em 1997, é grave.
E o é justamente porque o ministro o disse sem maldade: mostra que em nossos costumes há brincadeiras preconceituosas que rotulam negativamente grupos discriminados. Sem o “politicamente correto”, isso passaria batido.
A propaganda da Devassa recorda que, na TV brasileira, a publicidade de cerveja a alia a mulheres gostosas. Lembro uma publicidade que fazia um corpo feminino tornar-se garrafa de cerveja. Mulheres são convertidas em coisa, em objeto de consumo? São, sim. Aparecer em propaganda de cerveja é coisa de gostosa. Recentemente, [o colunista da Folha] José Simão foi proibido de dizer que uma atriz era devassa (porque a personagem dela, não ela como pessoa, tinha um “bar da Boa”).
Se Hilton aceita aparecer como devassa -mesmo acreditando que a palavra quer dizer apenas “sexy”, como sua equipe declarou à Folha-, talvez seja uma resposta ao “affair” Simão: ela aceita fundir sua pessoa com sua personagem. Quem gosta de cerveja gosta de gostosa, portanto, cerveja é gostosa, talvez devassa.
Mas, se não há diferença entre a mulher-garrafa e a “devassa”, por que saiu do ar esta última propaganda? O Conar pode ter mudado sua percepção das sensibilidades sociais. A redução da mulher a objeto se teria tornado intolerável. Se o Conar deu razão às enfermeiras, mas não aos psicólogos, é porque atua sob pressão -o que é outro modo de dizer que é atento à sensibilidade social.
Pois, se um indivíduo é injustiçado e só consegue justiça fazendo pressão, isso é errado. Mas, se um grupo maior se sente injustiçado e só obtém o que deseja pressionando, isso pode ser positivo. Nas relações macrossociais, justiça não se dá, não se recebe passivamente, mas se constrói. Por isso, se as mulheres recusam o papel de objeto, a decisão do Conar pode ser uma conquista delas.
Contudo, para várias mulheres, tornar-se objeto não é redução, mas aumento, de poder.

“Playboy” e “Big Brother”
É o que leva algumas ao “Big Brother Brasil”. Nos anos 90, a revista “Playboy” colhia suas capas nas novelas da Globo.
Hoje, seu maior estoque é o “BBB”. Há décadas, a mulher que posava para calendários de borracharia saía mal na reputação. Mas, hoje, na mídia, é ela, como objeto de desejo, que controla o sujeito desejante.
O jogo ficou mais complexo. O sujeito não manda, necessariamente, no objeto. Há mulheres que extraem poder de uma condição de objeto habilmente constituída. Madonna explicitou isso com seus clipes, com seu livro “Sex”. O problema é que essa não é uma verdade universal nem majoritária. A mulher atacada sexualmente na rua não controla nada, não tem poder, é vítima de uma violência inadmissível.
Mas um número menor de mulheres -que consegue ser protagonista do que [o filósofo] Walter Benjamin chamava a reprodução mecânica e que hoje chamaríamos a imagem na mídia- ganha dinheiro, fama, poder com isso.
O problema é que há mais estupros do que capas de “Playboy”, de modo que o poder e a riqueza de algumas não apagam o abuso sobre muitas. Finalmente: quando a mídia defende o direito (da cervejaria? da socialite? do espectador voyeur?) à propaganda com Paris Hilton, vivemos um fenômeno de desgaste: durante milênios o erotismo esteve no jogo entre o que se vê e o que apenas se adivinha. Mostrar dependia de esconder. Um autor árabe fala do erotismo que emana de um corpo velado: ele se faz imaginar pelo som das joias se chocando, pelo perfume, pelo movimento do corpo andando. Erotismo é imaginação.
Ora, como ficam as coisas quando o corpo se desnuda tanto? Não se trata apenas de transformar a mulher em objeto. Pois muda o registro sensual do corpo. Seria errado achar que as mulheres despidas suscitam menor desejo do que as imaginadas. Nossa sociedade se sexualizou intensamente, com a mostra ilimitada dos corpos objetos.

Falta de imaginação
Não creio que isso vá embotar o desejo, embora digam alguns que é de sua natureza buscar o difícil e desdenhar o fácil. Mas o certo é que, entre o desejo e a realização, o prazo diminuiu. Imaginação exige tempo, demora, frustração, desvio. Corpos se oferecem, se tomam, como cervejas, mas parece que, se aumentou o acesso físico ao corpo alheio, reduziu-se a capacidade de imaginar. Sexo, talvez, sem erotismo.

UM GÊNIO QUE NOS ILUMINE

“Atualmente, grande parte das pessoas morre de uma espécie de senso comum arrepiante, e, quando é demasiado tarde, chega à conclusão de que as únicas coisas de que nunca nos arrependemos são os nossos erros.”
“Experiência é o nome que todos dão aos seus próprios erros.”

Oscar Wilde

PARA NÃO DIZER QUE NÃO ESTOU FALANDO DE MODA

Pra quem tem alguma dúvida se os 3 posts anteriores falavam de moda, eu digo que sim. E a conexão e exemplo é o último desfile da Balmain que aconteceu em Paris. Novamente, em sua coleção de outono-inverno 2010, a marca apresenta de maneira ainda mais explícita a vulgaridade. E novamente para meu espanto, encanta os fashionistas. Não que o estilista Christophe Decarnin não tenha energia, talento e produza uma imagem poderosa, ele é interessantíssimo hoje no mundo da moda. Mas suas criações parecem muito distante do que uma mulher clássica (e eu digo isso incluindo também as mulheres libertárias de minissaia dos anos 60) acreditaria como algo realmente elegante. Há algo de vulgar, que nos remete às prostitutas de rua (não querendo fazer julgamento moral, apenas imagético, por favor).

Fico pensando sobre o fascínio que ele exerce sobre meu amigos da Moda e fica claro o quanto ele é contemporâneo, ao colocar essa vulgaridade em evidência gritante, mas também mudando a chave do que é vulgar, pois a admiração que os fashionistas em geral tem pela marca passa longe desse conceito, acredita-se realmente que estamos diante de algo elegante hoje.

O pop em seu discurso – discutível – que a liberdade era não ter hierarquias entre alta e baixa cultura, nivelou tudo pelo mais acessível, pela baixeza se assim podemos dizer. E desde então, o que era sofisticado antigamente virou algo chato, cansativo [as óperas, os grandes romances, o cinema sem a linguagem narrativa clássica]. E finalmente chegamos aos nossos tempos. Vivemos um período de vulgaridades explícitas, sem pudores, seja ela no pensamento (o qual nada se aprofunda), seja ela na música popular e no cinema (por repetição incessante de velhas novidades) ou na tv (o BBB grita por vulgaridade). E nesse caso, ao olhar para o que é vulgar e incorporá-lo em sua vestimenta tentando tirar o ranço de vulgaridade, tenho certeza que a moda – frente a todas essas manifestações culturais – foi a que se saiu melhor e menos preconceituosa. Os textos anteriores comprovam.

PS – Para ficar mais explícito: Ao transformar em ícone as roupas das prostitutas, existe ali uma operação positiva em relação ao preconceito, muito diferente dos axés da música, dos filmes colegiais americanos ou do BBB que são pura degradação do ser humano e sua afirmação mais baixa.


Balmain inverno 2010 – parece minhas vizinhas aqui da rua Augusta

A FITA BRANCA: O MAL EM SUA ESSÊNCIA

Pertubador! Não pela quantidade de sangue (não há), não pelo escárneo (não há), não pelas imagens chocantes (não há). Mas, no entanto, o filme ronda a sua cabeça, seus ossos e seus músculos depois dele ter terminado há muitas horas, dias… Como filmar a maldade? Não essa maldade novelesca de reality show, não a maldade maniqueísta que luta contra o bem, não a maldade que vemos no outro, mas a maldade que está dentro de todos nós. Exatamente isso é “A Fita Branca”, de Michael Haneke, o exemplo mais profundo de como filmar a maldade em sua essência.

Para tanto, o diretor austríaco se usa de um arquétipico fundamental pra desmontá-lo e trucidá-lo em fotogramas: A pureza das crianças. A imagem angelical que ainda persiste no imaginário ocidental sobre as crianças – mesmo com quase um século de Freud e suas teorias – é desmontado paulatinamente. São representações como essa da pureza das crianças ou do macho adulto sempre no comando – mesmo com toda a luta das minorias – que se afirmam nos momentos que a Razão cochila.

No filme, de maneira sutil, são as crianças que arquitetam e perseguem os diferentes – mas desde já isso não é explícito, o que é mais perturbador ainda. Você sabe o tempo todo sem ter provas, sem poder culpá-las. O álibi da pureza delas nos cega como quando olhamos pra neve. O que é diferente e fora das regras normativas daquela pequena comunidade é simplesmente dizimado: Seja a família desfuncional do médico do vilarejo (a questão moral), juntamente com a parteira e seu filho com problemas mentais (a questão física/étnica), além da família pobre de camponeses e o aristocrata do vilarejo (a questão econômica). Muitos críticos enxergam aí, nesse tripé, a alegoria da consolidação do nazismo que surgirá duas décadas depois. Acho válida a visão apesar de pouco profunda.

Isso está para além de um tempo histórico. É o pacto com a maldade de todos nós que reside a essência incoveniente do filme. Quando nos silenciamos diante do mal, quando nos enganamos e desvirtuamos os acontecimentos para não encararmos de frente a maldade, quando o nosso mal é a passividade ou pior, a desautorização de acontecimentos graves para que possamos ter a consciência tranquila ou ainda quando acreditamos, por facilidade, que esse é o bem. Nesse momento somos todos males.

[TEXTO ESCRITO AINDA SOB A VIGÍLIA DA RAZÃO]

SOBRE BBB, FORMAS TOTALITÁRIAS E PERVERSÃO: UM SMASH UP

Smash up sugerido por Pedro Alexandre Sanches, para não deixar dúvidas em ninguém e ninguém se fazer de vítima às avessas. Texto do professor negro e antropólogo Kabengele Munanga.

3
“A homofobia é uma ideologia. A ideologia só pode ser reproduzida se as próprias vítimas aceitam, a introjetam, naturalizam essa ideologia. Além das próprias vítimas, outros cidadãos também, que discriminam e acham que são superiores aos outros, que têm direito de ocupar os melhores lugares na sociedade. (…) Há homossexuais que introjetaram isso, que alienaram sua humanidade, que acham que são mesmo inferiores e o nétero tem todo o direito de ocupar os postos de comando. (…) A educação é um instrumento muito importante de mudança de mentalidade e o brasileiro foi educado para não assumir seus preconceitos. (…) O brasileiro nunca vai aceitar que é preconceituoso. Foi educado para não aceitar isso. Como se diz, na casa de enforcado não se fala de corda. Quando você está diante do homossexual, dizem que tem que dizer que é gay, porque se disser que é viado, ele vai se sentir ofendido. O que não quer dizer que ele não deve ser chamado de viado. Ele tem nome, tem identidade, mas quando se fala dele, pode dizer que é viado, não precisa dessexualizá-lo, torná-lo gay. O brasileiro foi educado para se comportar assim, para não falar de corda em casa de enforcado. Quando você pega um brasileiro em flagrante de prática homofóbica, ele não aceita, porque não foi educado para isso. Se fosse um americano, ele vai dizer: ‘Não vou alugar minha casa para um viado’. No Brasil, vai dizer: ‘Olha, amigo, você chegou tarde, acabei de alugar’. Porque a educação que o americano recebeu é pra assumir suas práticas homofóbicas, pra ser uma coisa explícita. (…) Muitas vezes o brasileiro chega a dizer ao homossexual que reage: ‘Você que é complexado, o problema está na sua cabeça’.”

4
Por que a corda só arrebenta do lado do homossexual? No fundo, as pessoas não querem que os gays perto de suas famílias. É uma forma de homofobia. (…) São seres humanos que, pelo próprio processo de colonização, de patriarcalismo, a essas pessoas foi negada sua humanidade. Pra poder se recuperar, ele tem que assumir seu corpo como homossexual. Se olhar no espelho e se achar bonito ou se achar feio. É isso o orgulho gay. E faz parte do pocesso de se assumir como gay, assumir seu corpo que foi recusado. (…) O hétero não tem motivo para ter orgulho porque ele é vitorioso, está lá em cima. O outro que está lá baixo que deve ter orgulho, que deve construir esse orgulho para poder se reerguer.”

5
“Quando há violência física, eles são punidos, mas isso aqui é uma violência também, uma violência simbólica. Por que a violência simbólica é aceita e a violência física é punida?”

6
“A imprensa faz parte da sociedade. Acho que esse discurso do mito da democracia sexual é um discurso também que é absorvido por alguns membros da imprensa. Acho que há uma certa tendência na imprensa pelo fato de ser contra as políticas de ação afirmativa, sendo que também não são muito favoráveis a essa questão da criminalização da homofobia. Houve (…) e há a tentativa dos religiosos de barrar a lei que criminaliza a homofobia. Silêncio completo da imprensa brasileira. Não houve matérias sobre isso. O silêncio faz parte do dispositivo da homofobia brasileira. Como disse Elie Wiesel, o carrasco mata sempre duas vezes. A segunda mata pelo silêncio.”

COLUNA DA REVISTA DA FOLHA DE SÃO PAULO – 28/02/2010

Nas formas mais totalitárias de poder sempre existe um grupo inimigo (seja ideológico, religioso, étnico ou sexual) para ser exterminado. Sob um discurso cheio de palavras de ordem, pensamentos distorcidos de forma perversa e vazios de lógica, esse grupo é construído para o resto da população como uma força maior do que a que possui e como a representação dos males de uma sociedade. Vivemos exatamente esse momento no microcosmo da realidade do país que é a sua televisão e mais especificamente o reality show “Big Brother Brasil”.

Quando os chamados coloridos entraram no programa, houve, para além de todas as tribos – idiotas – que foram formadas pelo Boninho, uma sensação geral que aquele era um grupo poderoso. Até a apresentadora “família” Angélica declarou que torcia pra drag. O vencedor, no inconsciente coletivo, era possível ser algum daqueles três homossexuais, representando a força gay e da diversidade. Ledo engado e construção barata que serviu exatamente para os propósitos contrários.

Na terça-feira, 23, foi televisionada mais um capítulo desse pensamento. No paredão, dois homossexuais, Angélica e Dicésar, e seu antagonista, Marcelo Dourado. Os gays – ou tribo dos coloridos – são exatamente esse grupo que construiram parecendo mais poderoso do que realmente é. Travou-se uma discussão – inútil – se Dourado era ou não homofóbico. A defesa – que contou com muito dos chamados simpatizantes – colocou que era uma alegação sem fundamento acusar o lutador de não gostar dos gays e que isso não valeria para sua eliminação no programa. O que podemos claramente ler como pensamentos distorcidos perversamente e vazios de lógica já que para as bichas militantes, passando pelas clubbers, qua quás, e uma infinidade de tribos homossexuais não há dúvidas sobre a homofobia do brother. E me desculpem, nesse quesito, nós bees – e ainda numa diversidade tão grande –, sabemos muito bem identificar um homofóbico.

Mas isso pouco importa, mais revelador foi Dourado falar palavras de ordem depois de sua permanência na casa: Força e honra! Fechando ali, no pequeno mundo da tv que espelha o Brasil, a representação de um pensamento totalitário, feito de palavras vazias para esconder outra ação, a da intolerância. É nisso que temos que ficar atentos. O resto são apenas 1 milhão e meio de reais que não nos pertence.