A CARICATURA

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Caricatura de Brüno feita por Pablo Lobato para New Yorker

Existe um pensamento comum ou “representação social”, como prefere chamar de forma mais elaborada o psicólogo romeno Serge Moscovici, que todos dizem que o mundo da moda é uma caricatura e, ao mesmo tempo, em movimento inverso, o mundo da moda sempre se sente retratada de modo caricatural pelos que estão fora dele.
Essa “crença” – pensando ainda em Moscovici -, apesar de desagradar ambos os lados não está longe de uma verdade, se pensarmos que a moda – e mais que tudo, a imagem de moda – nunca foi dada a nenhum tipo de literalidade em relação à realidade e muito menos com a chamada verossimilhança. O desapego à realidade ou melhor ao realismo nas narrativas tanto das passarelas como dos editoriais de moda nunca foi ponto de debate e discussões acaloradas como o é para outras manifestações culturais e artísticas. Salve Steven Meisel na Vogue Itália:
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A moda nunca precisou colar-se a realidade (como por exemplo é cobrado a toda hora do cinema) porque seu veículo maior – a roupa – transborda-se de realidade. Basta darmos um exemplo bem clichê: quando vemos uma foto de pessoas identificamos sua era, o seu tempo e sua realidade no primeiro momento pelas roupas que essas personagens estão vestindo.
Talvez por esse caráter, a imagem de moda sempre plainou por ares mais surreais, por uma irrealidade, pelo campo do sonho. Pensando por essa lógica, podemos compreender com mais precisão – e menos preconceito – porque o corpo das modelos, assim como seu andar é algo irreal; podemos nos surpreender pelo que pensamos ser uma alienação da moda (essa fuga da realidade tão criticada e ao mesmo tempo tão pouco compreendida) ser um outro tipo de dispositivo para dialogar com essa realidade, assim como o fizeram os surrealistas. A grosso modo, a moda faz uma caricatura da realidade!

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Schiaparelli – shoe-hat (chapéu-sapato)

Enfim, caricatura é um desenho de um personagem da vida real mas que enfatiza e exagera as características principais do retratado, acentuando sua individualidade [papel importantíssimo de um aspecto da moda] no que lhe é mais peculiar: gestos, vícios e hábitos. Mesmo assim, ao desfigurar a realidade a caricatura acentua e prioriza verdades dessa realidade. Não à toa a palavra vem do italiano caricare que significa carregar, no sentido de exagerar, aumentar algo em proporção, carregar nas tintas.
Ao olhar atento e livre, a moda ao carregar nas tintas a realidade, nos mostra um outro lado dessa mesma relaidade. Talvez um lado até então obscuro ou muito pouco salientado que só é revelado pelas caricaturas, essa força capaz de jogar uma outra luz e nos vislumbrar.
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Caricatura minha que recebi na saída do último SPFW

PS: Talvez o streetwear seja a corrente de moda mais ligada a um certo realismo, mas isso é assunto pra outro post…

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6 Respostas para “A CARICATURA

  1. No último GNT Fashion Lilian Pacce pergunta pra André Lima : O que se faz com maiô com cauda?
    Pergunta pertinente.

  2. je t’aime!

    olha o que eu reaprendi relendo um livro da minha época de aluna de história da arte.

    ” caricatura, no senso moderno de exagero cômico, nasceu no mesmo momento que a arte Barroca. Já foi demostrado que tanto a origem da palavra quanto da prática da caricatura estão ligadas a Annibale Carracci e seu círculo artístico do fim do século 16. Retratos em forma de caricatura foram feitos pelos mais exaltados artistas barrocos, entre eles Bernini. Não importa se executada de maneira apressada ou com o mínimo de traços, permanece a verdade de que a caricatura nasce do mesmo sentimento de simpatia pela individualidade humana contida nos mais inspirados trabalhos de escultura.” Baroque, por John Rupert Martin

    moda tem um sentimento enorme de simpatia pela realidade, não?

  3. super bacana! Um dia ao fim da aula, um aluno me deu uma caricatura que ele fez durante minha explanação. Ele me fez com cara de mangá. E ficou super bom. Agora veja um txt interessante sobre “o que é beleza para a população de baixa renda” http://www.chmkt.com.br/2009/07/o-que-e-beleza-para-populacao-de-baixa.html

  4. Ah, adorei que você falou do surrealismo, e do sonho. Eu acho que dá até pra analisar esses “sonhos” da época em que a pessoa viveu/vive, ao olhar fotos. Por exemplo, o corpo das modelos e seu andar diz muito sobre a sociedade em que a gente vive. E às vezes a caricatura fica monstruosa, mesmo. Mas adorei pensar a moda dessa forma.

  5. cool post, bem escrito como sempre.

    bj.

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