Toda vez que eu coloco alguma camiseta rosa ou lilás, sempre vem um “(des)engraçadinho” fazer o mesmo comentário: “Onde você comprou tinha pra homem?” O que respondo de pronto: “Não, só pra gente com bom gosto, por isso nem precisa me pedir o endereço da loja”.
Em tempo de semanas de moda no país vale muito ver, por curiosidade, a cobertura da chamada moda masculina. Generalizando, nossos olhos se encherão com uma sucessão infinita e repetitiva de bermudinhas e camisetas no verão e ternos, calças jeans e casacos no inverno resultado da chamada grande recusa do homem pela moda lá no século 19. Mesmo com muitos estilistas fazendo malabarismos contra essa monotonia, a moda para o sexo masculino esbarra em um obstáculo que impede sua verdadeira função que é gerar individualidades.
Essa pedra no sapato da moda masculina chama-se covardia. Com algumas exceções, a grande maioria do chamado sexo forte fica fragilizado se algum amigo ou amiga – porque elas também são terríveis – falar que a roupa que ele está usando é muito gay. Existe um medo mortal de boa parte dos homens héteros e homos de vestir algo que os identifiquem com os viados. A grande preocupação de quem é do meio, estou falando de editores de moda e fashionistas, é que a roupa dos meninos seja sempre fora do meio, nunca pareça por demais feminina ou ousada. Reparem nas críticas dos desfiles e você vai ler barbaridades escritas de maneira displicente como “ele errou e fez uma imagem muito gay” ou “o estilista fez ternos para homens de verdades”. A grande preocupaçao da moda masculina é conseguir ficar sempre estanque como um burro empacado.
Os avanços são infímos. Enquanto as mulheres aprenderam com Chanel que é muito bom invadir o guarda-roupa dos homens e com Saint Laurent que com uma certa atitude um smoking pode ser muito feminino, os homens custam em sair do armário e perceber que a roupa não define a sexualidade de ninguém, apenas marca se você tem personalidade diante da manada de cordeiros.
TEXTO ORIGINALMENTE PUBLICADO NA REVISTA DE DOMINGO DA FOLHA EM 08/06/2008

13 respostas Até agora ↓
Tathiane // Julho 16, 2008 às 3:24 pm |
Cheguei ao seu blog através do post no Repique. AMEI! Muito bom mesmo. Está adiconado à minha lista de preferidos no meu blog!! Bjs!!
http://www.olamoda.wordpress.com
sylvain // Julho 16, 2008 às 10:41 pm |
Nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno. Concordo com quase tudo no seu texto, só acho que vc é que não entende que “uma imagem muito gay” ou “ternos para homens de verdade” não tem nada a ver com possíveis problemas com a sexualidade, e sim com elegância.
ivibrasil // Julho 16, 2008 às 10:53 pm |
então quer dizer, sylvain, que “imagem muito gay” denota falta de elegância? será que todos os gays que você conhece, ou para a pessoa que escreveu essa frase infame, são deselagantes e mal vestidos? eu concordo que alguns gays abusam no visual e transformam-se em drag queens, mas isso não é regra. você é adepto do toda-loira-é-burra? generalizações…
e tava vendo agora uma vinheta publicitária da empresa telefônica oi entrevistando um povo fashion (ou que se acha fashion por causa dos penduricalhos que usa) e o tema era liberdade. resposta da ana paula michels: liberdade é ter um carro em são paulo. sem comentários…
André Bragança // Julho 17, 2008 às 2:52 am |
Ah tá, sabia que já tinha lido isso em algum lugar…
Aline Bear // Julho 17, 2008 às 9:10 am |
Victor Angelo,
Eu estive ontem no Forum de blogs e o seu speech foi muito incrível!
Obrigada por dar uma passadinha no meu blog…
Aline
Verson Souto // Julho 17, 2008 às 11:11 am |
Tem que mandar todos pra pu***…a cada um usa o que quer!
ótimo texo, aliás seu blog é muito bom!
Helena // Julho 18, 2008 às 12:07 am |
adorei esse seu texto!
bjs, helena
SEMANA LULA RODRIGUES: A MODA MASCULINA, SUA HISTÓRIA, SEU RITMO E A IDENTIDADE SEXUAL « dus*****infernus // Julho 22, 2008 às 12:49 am |
[...] do incrível desfile da Reserva, falei que queria muito conversar com ele, com mais tempo sobre questões que me inquietam. Combinamos que eu escreveria para ele e travaríamos uma conversa por e-mail – Lula escreve no O [...]
samdrade // Julho 22, 2008 às 2:33 am |
texto digno*
fernanda // Julho 24, 2008 às 9:57 am |
eu não comentei aqui no tempo em que o post foi publicado, mas acho sensacional a pensata que compara o que as mulheres aprenderam com o guarda-roupa masculino e como o contrário não aconteceu – nem parecido, nem de jeito paralelo. me lembrou o poeminha que abre (na voz da charlotte) “what it feels like for a girl” da madonna, lembra?
*
Girls can wear jeans
And cut their hair short
Wear shirts and boots
Cause it’s okay to be a boy
But for a boy to look like a girl is degrading
Cause you think being a girl is degrading
But secretly
You’d love to know what it’s like
Wouldn’t you?
What it feels like for a girl
roseven // Setembro 30, 2009 às 6:30 pm |
sempre arrasando!
marc // Setembro 30, 2009 às 6:34 pm |
Nossa…concordo plenamente com tudo..O bom é que quando me visto nem ligo pra o q as pessoas falam..como dizia a música brega To nem Aí..
Veranie Bottosso // Setembro 30, 2009 às 11:16 pm |
Virtor, amei seu texto!
Me fez enxergar o que eu nunca tinhe enxergado. Sério mesmo! Nem sabia dessa tal grande recusa do homem pela moda no século XIX…
Diante de minha enorme leiguice, só posso dizer: Tadinhos! Ta-di-nhos!
Só agora tive noção de como eu iria odiar ser homem e não ter uma gama tão completa de roupas para usar como eu tenho, mesmo sendo fofa (o que já dificulta muito, porque se eu fosse magra, aaahhh aí vc ia ver.. hahahaha).
Beijooo